Crítica | O Artista do Desastre

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O longa The Room, dirigido por Tommy Wiseau, tornou-se uma lenda, como um dos piores filmes realizados na história. Ganhou cultuadores justamente pela sua produção totalmente sem sentido, seu roteiro sem noção e as atuações inexplicavelmente ruins. O filme começou a rodar pela curiosidade e cópias reproduzidas até mesmo no YouTube, onde pode ser encontradas hoje, gerando assim uma aura em torno desse filme maldito. Ao assistir The Room, o que se passa na cabeça é uma indagação acerca do motivo pelo qual foi feito, e mais ou menos isso que O Artista do Desastre faz, uma investigação a respeito daquilo que todos queriam saber sobre Tommy Wiseau e seu pior filme.

Essa afirmação pode soar até mesmo publicitária ou sensacionalista e talvez O Artista do Desastre seja um dos poucos filmes que não escondem esse seu lado, uma obra que por um viés tenta construir um olhar mais humano para aquele personagem, na mesma medida que deseja alimentar a lenda em torno de The Room e seu criador. A obra dirigida, produzida e protagonizada por James Franco realmente chama atenção por uma dubiedade em todas as suas esferas, algo que está implícito naquele humor aberto sobre a história dos bastidores daquele filme. James Franco concebe uma obra que promove em seus espectadores um misto de emoções extremamente fortes, ambíguas e opostas.

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O longa é contado através dos olhos do melhor amigo e parceiro criativo Greg Sestero (interpretado por Dave Franco), homem responsável por escrever e narrar o livro que baseou o longa. Dessa forma, há sempre essa figura do outro olhando o próprio Wiseau (James Franco), revelando que nem mesmo o ser mais próximo dele conseguiu desvendar quem de fato era aquele homem. O Artista do Desastre é, por incrível que pareça, um filme clássico sobre o sonho americano, algo que sempre envolve o cinema. Uma narrativa sobre o desejo de brilhar, sobre sair de uma cidade qualquer, arrumar um par de malas e ser estrela em Hollywood, por mais distante que esse objetivo possa estar. Tommy Wiseau e Greg Sestero são parte desse sonho, assim como todos naquela cidade.

Essa típica narrativa faz questão de se apresentar como tal, evidentemente se utilizando do mito The Room para soar interessante. O longa começa com nomes famosos de Hollywood comentando o quanto admiram aquele filme, depois a obra foca longos minutos estabelecendo a conexão entre Greg e Tommy, o menino do subúrbio que larga tudo para conviver com um homem que ninguém sabe como vive, da onde veio e nem mesmo quantos anos possui. Só pelo meio da narrativa é que os bastidores daquele filme catástrofe serão mostrados.

O Artista do Desastre começa, então, numa direção em que existe ali um claro objetivo em buscar a caricatura, ao mesmo tempo em que deseja destituir certos preconceitos em torno daquela figura. James Franco refaz os trejeitos, a fala de Wiseau, da mesma forma que vemos em The Room, como se ele sempre fosse daquele jeito. O ator constrói uma figura absurda, totalmente alheia às convenções sociais, sem nenhum talento para o simples trato humano, algo de certa forma perverso por parte do filme, embora seja extremamente cômica. Há nessa função tudo aquilo que o público procura em torno desse mito, um acúmulo, um fomento das sensações transmitidas quando se assiste The Room.

Por outro lado, em um dos momentos mais notáveis de O Artista do Desastre, Tommy é ridicularizado durante uma audição, todos dizem que ele precisa ser o vilão, as pessoas na sala dão risada, e o protagonista diz que vilão é quem está rindo naquele momento. Uma frase que ecoa e desdobra-se pela plateia, tanto em relação a quem assiste ao próprio longa de Franco, assim como quem aprecia a obra de Wiseau. Afinal quem realmente assiste àquele filme sem a intenção de rir dele. É colocado nesse momento um ponto totalmente contraditório na obra caricatural que é O Artista do Desastre, algo que torna toda gargalhada a partir dali numa relação duvidosa entre o quanto caçoar daqueles personagens é não entender as suas complexidades.

Se La La Land, o hit da temporada passada, cantava que esses são tempos para o tolos que sonham, O Artista do Desastre mostra como o público gosta de se divertir quando esse sonhador cai, quando fica na sarjeta iluminado apenas pelos risos de alguém que caçoa de seu próprio sonho. O longa é um filme sobre esse sonhador marginalizado, que nunca terá espaço na indústria, até mesmo quando é convidado a uma grande premiação como o Globo de Ouro ele continuará numa mesa ao fundo distante dos holofotes. E o mais curioso é que Franco não deseja fazer disso um movimento de piedade e comiseração em torno dessa figura, pelo contrário tenta iluminar essa sarjeta, algo que nenhum refletor hollywoodiano faria.

Assim, Franco faz um filme tipicamente hollywoodiano para Tommy Wiseau e seu companheiro, dois homens renegados pela máxima do sonho americano. O roteiro padronizado de Scott Neustadter e Michael H. Weber, dupla responsável pelos sucessos de público 500 Dias com Ela e A Culpa é das Estrelas, reproduz a fórmula das histórias de objetivos cumpridos, mesmo que a resultante seja algo como The Room. O longa faz com que tudo seja uma narrativa de agonia e glória, dos sonhos que acabam demonstrando um ser muito mais complexos para no fim conquistar aquilo que todos sonhavam.

James Franco reproduz conscientemente as fórmulas de um filme para Oscar. Os violinos que soam, as falas edificantes, a luz de um cinema iluminando literalmente Tommy Wiseau após sua obra e as câmera em contra-plongé que deixam aquela dupla olhando de baixo para cima. A glória, aquilo que não se vê na baixa qualidade de The Room no YouYube, mas sempre esteve na cabeça de seu criador. Algo que pela distinção entre seu retratado e a forma de sua representação gera um benéfico ruído.

O Artista do Desastre é um filme da contradição, um filme que não deseja ser comédia, mas faz dela seu ponto fundamental. Uma obra que não quer ser uma homenagem, sem deixar de ser referencial a essa lenda. Uma obra que almeja instigar e questionar o espectador, mas não abre mão do conto de fada hollywoodiano. Um título que faz uma obra gloriosa utilizando-se dos padrões das premiações, sobre alguém que nunca foi nem será desse mundo. Uma obra contraditória, que até confunde sobre suas verdadeiras intenções, que deixa para posteridade o valor de seu retrato, mas faz o que poucos fazem, instiga e questiona as lendas e como se lida com elas.

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