Crítica | The Post: A Guerra Secreta

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Há um elemento muito caro em todos os filmes de Steven Spielberg, seja em suas aventuras, ou em seus dramas, algo que pode ser definido como um forte diálogo com o público, como se houvesse uma mensagem que a todo o momento deve ser assimilada pela plateia, num diálogo franco e bastante claro com quem está do outro lado da tela. O cinema de Spielberg não existe quando não há essa ponte bem estabelecida entre espectador e público, onde ele deseja que sua plateia sempre contenha todas as informações da trama, partilhe todos os sentimentos dos personagens e entenda perfeitamente a mensagem que está sendo transmitida.

Talvez Spielberg seja um dos diretores mais fundamentados numa relação de confiança com o espectador (algo que se traduz no valor que o grande público dá ao cineasta). Essa relação é extremamente bem utilizada em The Post: A Guerra Secreta e define perfeitamente bem todos os procedimentos escolhidos pelo cineasta ao narrar esta história. O longa conta os eventos reais quando no final dos anos 1960, arquivos confidenciais que comprovavam as deficiências dos EUA na Guerra do Vietnã são expostos pelo mídia americana, as coisas ficam ainda pior quando a Casa Branca proíbe que o New York Times divulgue mais informações sobre o caso, colocando a imprensa como um todo em xeque. O filme acompanha a jornada dos participantes do jornal The Washington Post que passam a buscar mais informações sobre o caso, ainda que sua nova mandatária seja uma figura sempre presente nas confraternizações de políticos envolvidos naquele escândalo.

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Spielberg e o roteiro de Liz Hannah e Josh Singer (responsável pelo texto de outro drama/thriller jornalístico, Spotlight) elegem dois pontos de vista, a fim de, justamente, conseguir abrir um diálogo mais amplo com espectadores e temas relevantes. The Post: A Guerra Secreta é contado através dos olhos de Ben Bradlee (Tom Hanks), redator chefe do jornal que vê nesse conflito um possível grande passo na sua carreira, percebendo que pode fazer história em relação a sua profissão. E também pelos olhos de Kay Graham (Meryl Streep), que após anos vendo o jornal ser comandado por seu pai e depois marido, agora vê o The Post sob seu comando, tendo que aprender a lidar com o jogo e desfazer seu pacto com o típico papel de dama da alta sociedade.

Essas duas figuras centrais do filme representam respectivamente a força e a responsabilidade midiática, que deve ter seus deveres preservados, independente de governos ou governados, mas manter uma responsabilidade com alguma verdade dos fatos e a total liberdade de falar sobre eles; e também a mudança feminina dentro desse jogo jogado exclusivamente por homens, como uma dama de renome deve e pode romper com códigos pré-determinados e começar a dar as cartas, mesmo que seus atos possam acarretar uma série de fortes consequências, mas torna-se importante pelo fato de poder e se responsabilizar por estes atos.

The Post: A Guerra Secreta não é apenas um thriller jornalístico, mesmo que a tensão excitante e o suspense crescente ao ver aqueles homens e mulheres em busca dos arquivos do governo americano seja extremamente empolgante e envolvente, o longa busca na verdade uma conexão e aproximação com a realidade do espectador. The Post: A Guerra Secreta clama por uma mídia isenta, que busque a verdade, que rompa com um sistema que existe apenas para beneficiar x ou y, mas que realmente esteja ali destinada a buscar fatos que realmente possam auxiliar a construção de uma relação muito mais democrática entre sociedade e governo.

O sistema de imagens construído pelo diretor é muito eficiente nesse sentido, ao confrontar a todo o momento essa narrativa empolgante, com esse pacto com a atualidade. Assim como em todas as obras de Spielberg esse diálogo existe através de uma entrega emocional, uma partilha de emoções entre espectador e obra. Aqui o público torce para que os jornalistas cheguem àquela fonte, para que a corrida contra o relógio termine na publicação daquela matéria e assim por diante. Mas com isso há a figura de um presidente distante, filmado sempre à contra luz por uma janela da Casa Branca, protegido e sempre atacando, não muito diferente do atual presidente americano. Ou o retrato de políticos fazendo lobby, como Bob McNamara, secretário de defesa justamente quando as estratégias na guerra do sudoeste asiático eram as mais questionáveis, este sempre retratado em característicos contra-plongées que demonstram a alta posição inabalável daquele homem.

É essa mesma mensagem visual que faz Kay Graham uma personagem tão interessante, num arco dramático bem definido. Ali há sempre uma mulher confortável dentro das festas e dos encontros sociais, mas que faz questão de ser lembrada que não possui espaço nas reuniões de seu próprio jornal. Kay sai desse comodismo provocado por um arranjo social para querer comandar aquele jogo, para realmente colocar seu jornal num lugar onde nunca esteve. A personagem sai daquela câmera alta que a diminui perante dos homens de sua própria diretoria, ou de um acordo onde as mãos aplaudindo uma decisão pouco planejada por ela apressam a assinatura de um contrato, para alguém que está de igual para igual com os maiores nomes da mídia americana.

Momento que se materializa quando Kay sai de um tribunal protagonizado por ela e ao fugir dos holofotes é iluminada por uma luz cinematográfica e mulheres comuns abrem espaço para aquela personagem, como se ali houvesse finalmente um espelho para uma geração feminina que se consolida, que se desfaz das convenções impostas em detrimento da possibilidade de comando. É evidente que essa relação entre Kay e sua força passam pelo nome de Streep que consegue fazer valer essa representatividade, consegue demonstrar esse incômodo em apenas continuar com seu lugar reservado nas festas, mas não numa suntuosa cadeira de couro. Uma força que vai surgindo aos poucos, uma voz que deixa de falhar ou gaguejar para tomar decisões, para finalmente tornar-se um espelho.

Ainda que essa seja uma das imagens mais fortes do longa, há também uma pequena parcela de questionabilidade nesse fato. Como se The Post: A Guerra Secreta almejasse de alguma forma receber um atestado de relevância ainda maior, colocando-se dentro desta questão em voga do feminismo, como se houvesse ainda uma representação que não se assume, com esse protagonismo dividido, com temas que parecem se digladiar. Algo que de forma alguma tira a importância disso no filme e das imagens que evoca, mas coloca alguma dúvida na maneira em que esta obra escolhe seus temas a fim de uma maior aceitação em relação a um público socialmente consciente.

The Post: A Guerra Secreta também sofre com certo cientificismo de sua narrativa baseado em fatos, como se nesse diálogo com o público todas as informações precisassem estar na mesa, algo que faz o longa a colocar uma enxurrada de nomes e informações em seus primeiros minutos. A preocupação nessa mensagem compreendida pela plateia faz com que o longa tenha esse desequilíbrio entre as emoções que transmite e a importância de sua mensagem.

De fato, The Post: A Guerra Secreta é um filme que se vale após essa conversa, onde realmente sobra algo entre as emoções de um thriller de época e uma narrativa de conscientização. Há uma ponte bem estabelecida entre aquilo que deseja ser falado e como se fala, algo que por excelência torna a obra relevante e precisa. A conversa franca de Spielberg, ainda que exista temas que ele não domina, é uma de suas maiores qualidade, e alguém deveria falar sobre tudo o que ronda The Post: A Guerra Secreta.

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