Crítica | Todo o Dinheiro do Mundo

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Se faz necessário olhar para Todo o Dinheiro do Mundo e distanciar-se de tudo que ocorreu em seus bastidores, o afastamento de Kevin Spacey e as refilmagens relâmpago com Christopher Plumer, algo que claramente elevou a obra a outro patamar por suas decisões fora de tela. Nesse contexto chega até ser difícil separar as coisas, tentar enxergar as qualidades do filme por causa de uma boa intenção, ou nem tão boa assim, mas uma forma de salvar um filme com uma série de grandes pretensões. Fica ainda mais necessário separar esse contexto e entender qual filme existe por trás desse marketing instantâneo e como ele dialoga, se é que há um diálogo no longa de Ridley Scott.

Todo o Dinheiro do Mundo traça planos e estratégias bem próprias de um filme que almeja um certificado de importância, começando pelo carimbo de relevância no início do filme, o famoso “baseado em fatos reais”, colocando a ficção nesse lugar de contato com real, por isso distante de um mero espetáculo, uma obra que diz, ou pelo menos tenta dizer sobre a realidade. Outra questão fundamental dentro de Todo o Dinheiro do Mundo é o thriller que tenta dar tom e ritmo ao filme, estilo ou gênero bastante presente na filmografia de Ridley Scott. Talvez esses dois pontos podem muito bem funcionar, como alguns muitos exemplos já fizeram, todavia a primeira impressão é que as duas questões se rivalizam e transformar o fato real em material para o dinamismo emocionante de um suspense não é um objetivo fácil.

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Talvez, mais do que tentar encontrar pontos que justifiquem certa autoria no trabalho de Scott, seja mais prudente admitir que o veterano é regido por ações e filmes que funcionam numa lógica industrial, aquela que trabalha na bilheteria e, sobretudo, se sai bem nas premiações. Fato é que essa lógica faz com que Ridley Scott viva de títulos interessantes e outros que buscam apenas essa validação por parte da indústria, não é por acaso que suas obras mais interessantes são as mais distantes desse segundo ponto. Não é o caso em Todo o Dinheiro do Mundo, um filme que a todo o momento poda suas próprias ideias por esse desejo de aclamação.

Assim, sente-se essa rivalidade em todos os pontos do filme. A trajetória da família Getty transforma-se nesse esquema de cooptação emocional do público via thriller de suspense combinado com elementos que colocariam uma relevância àquela narrativa, e certo senso de uma obra de alto padrão (que mereceria o Oscar), acima de um simples exemplar do gênero. Todo o Dinheiro do Mundo tenta contar a história do milionário Paul Getty (Plummer) através de um evento marcante, o sequestro de um de seus netos, o outro Paul (interpretado por outro Plummer, Charlie Plummer). Enquanto a mãe do menino, interpretado por Michelle Williams, tenta atrasar os sequestradores e convencer seu avô a pagar o resgate, Paul Getty mostra seu lado mais frio, guiado apenas pelo dinheiro.

Essa rivalidade é sentida nessa explanação do filme, onde o sequestro representa esse lado envolvente do filme de suspense, e a trajetória da família Getty tenta conferir a importância desejada à obra. Algo que o próprio longa parece não saber o que é mais importante, freando por completo as pretensões tanto no thriller, quanto na biografia de um sujeito importante. É esse sentimento de indecisão que faz o filme ter uma narrativa totalmente travada, que não flui em suas próprias pretensões, evitando que haja realmente um claro diálogo com o público a respeito do que é importante naquele emaranhado de narrativas.

O roteiro de David Scarpa alterna entre os tensos momentos no cativeiro do neto do milionário e a busca desenfreada de sua mãe, com flashbacks sobre o milionário Getty e suas relações pessoais. O que mais chama atenção nesse ponto é a falta de controle narrativo imposto por Scott, algo que sempre foi um ponto forte do diretor. Aqui o espectador tem sempre suas emoções freadas por esse diálogo abrupto entre o suspense e a biografia, fazendo com que seja sempre mais interessante algo que não está se vendo no momento. Quando a narrativa dá indícios que entregará um jogo de emoções, o filme vai para análise de sua figura histórica, e quando esse retrato psicológico está finalmente engatando, o filme volta para o thriller, como se estivesse sempre no movimento oposto às emoções que necessitam ser sentidas para a adesão do público, algo fundamental naquelas duas esferas da narrativa.

Todo o Dinheiro do Mundo é um filme marcado por voltas e voltas narrativas. Há sequências e mais sequências que não se justificam, ou não mostram de fato sua importância, podendo ser sintetizados de muitas formas. Como uma festa ao som de Rolling Stones num lugar exótico no Marrocos, que mostra as reais preocupações do pai do jovem sequestrado, algo que é dito no filme de várias maneiras, por várias vezes. Ou algumas passagens da vida de Getty que realmente não se entende porque são abordadas, como algumas entrevistas a jornais, ou reuniões nos Emirados Árabes.

Esse filme um pouco esparso distancia-se de qualquer concisão com essas divagações narrativas, um sintoma de uma obra que não sabe eleger aquilo que é mais importante dentro de seu mundo ficcional baseado em fatos reais. Essa indecisão promove até mesmo um retrato conturbado de sua figura importante, algo que deixa aquele multimilionário num lugar extremamente cômodo, um sentimento de que tudo está em cima do muro, como se houvesse a necessidade de compreensão por aquele homem e suas atitudes, ao mesmo tempo que é martelada essa persona de homem difícil, homem mau que atropela todas as convenções para seu próprio bem, algo que chama atenção do público, mas que colocado em medidas extremas passa a ser totalmente questionável.

Dessa forma, o fato de existir o sequestro de um ente ligado por um forte fator sanguíneo evita que o público conecte-se com esse homem. Talvez o ponto seja justamente esse, como aquele homem consegue levar o sequestro de seu neto como se fosse uma negociação como qualquer outra. A questão se mantém na cabeça do espectador, enquanto o filme segue para outro lado picotando sua narrativa. Há um ponto totalmente importante, que é o fato de existir essa figura totalmente central, que magnetiza as questões do espectador, mas ela surge num segundo plano, apenas pontuando a importância daquele ser no curso social do mundo e isso acontece pelo receio em estabelecer um julgamento daquele homem real e importante.

A tão comentada atuação de Christopher Plummer, alavancada pela substituição de Kevin Spacey, sofre dessa indesejada posição, fazendo uma atuação um tanto quanto fria, distante de uma verdadeira intenção, nada além de uma simples reprodução de um homem mau em busca de dinheiro. O fato de Paul Getty e Plummer serem apenas coadjuvantes desse mundo regido por dinheiro é mais um sintoma de um filme que não sabe o que deseja dizer.

Se nesse material conectado ao real o longa não consegue estabelecer um retrato além daquilo que já se sabe, na sua ficção constituída pelo trhiller/suspense, Todo o Dinheiro do Mundo vive do exagero. De situações que são marcadas por uma forçação de barra para que tudo aquilo se resolva, como o sequestrador que passa a se solidarizar com o sequestrado, por exemplo.

Assim, nessa constante troca de importância, o thriller se desenvolve de forma apressada, sem nenhum desenvolvimento em relação às emoções instigantes que o espectador deveria sentir. Sobra ao filme apenas um desejo de se fazer válido, uma vontade tão grande de agradar e estar nas mais diversas nomeações que evidencia a falta de clareza nas suas ideias. Todo o Dinheiro do Mundo passa a ser um título confuso, que não mostra realmente ao que veio, sua agradabilidade aos códigos das premiações distanciam ainda mais a narrativa de algo suficientemente sólido. O longa de Ridley Scott consegue sua relevância apenas por uma questão fora de tela, um passo que diz mais do que o próprio filme, algo que nunca é um bom sinal.

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