Críticas

Crítica | Sem Amor

Sem Amor é um dos fortes candidatos a melhor filme estrangeiro no Oscar desse ano. O representante russo é dirigido por Andrey Zvyagintsev, um dos novos nomes do cinema europeu, que nas últimas duas décadas tem feito filmes chamativos para a crítica, chegando, em outra ocasião, à indicação Oscar de filme estrangeiro, no caso pelo pesado Leviatã (2014). Assim, a premiação para esse cineasta que há algum tempo já chama atenção da alta crítica não seria uma surpresa, ainda mais pelos temas que Sem Amor toca, colocando-o com relevância nesse cenário.

Sem Amor é um filme sobre a frivolidade nas relações humanas, tema abrangente, que não se restringe a uma única pauta social, mas que tem certo aspecto global,algo que por si só toma o filme de certa ambição e pretensão. No cinema recente, principalmente aquele feito com certa aura autoral, os temas gerais tem dado lugares a investigações de fatos e eventos específicos e de níveis cotidianos e particulares, colocando o filme russo em evidência.

Assim, é interessante ver como o diretor parte de um evento numa esfera micro para comentar esse aspecto geral, assim as linhas de uma sinopse ou story line são uma espécie de ponte para alcançar aquilo que o filme realmente deseja falar. Não se trata então de uma simples narrativa, mas da possibilidade daquilo que se vê em tela se apresentar como uma metáfora, de abrir uma relação com o espectador a fim de que aquelas sensações transmitidas pelo filme ganhem outro valor além da narrativa, possibilitando que Sem Amor torne-se um comentário bem mais amplo.

Sem Amor acompanha um casal que está divorciando-se, nutrindo nem ao menos respeito entre os envolvidos naquela relação acabada. A única coisa que resta daquele casamento frustrado é uma criança extremamente abalada com essa separação e as constantes brigas que ecoam pelo apartamento da família. Com aquele homem e mulher já mantendo até outros relacionamentos, o sentimento que fica naquele garoto é de desamparo, e enquanto o divórcio não sai e os pais estão mais preocupados com seus novos amantes, aquele garoto some, não sendo percebido por ninguém, simplesmente desaparecendo da vida daqueles dois.

O longa pode até se tornar uma narrativa de busca, ou como aqueles adultos agora devem mostrar a preocupação que não tiveram nos minutos iniciais. Todavia, Sem Amor não é definido por isso, mas sim como as coisas que envolvem esse acontecimento mostram indivíduos e sociedade marcados por empalidecimento no trato humano, como as relações já nascem esfaceladas e seus frutos só podem desaparecer no fim de tudo. Como se aquela criança fosse uma construção sem bases sólidas.

Esse tipo de conclusão chega ao espectador através de dois fatores. O primeiro, e mais eficiente, é fazer essa jornada de busca uma verdadeira provação para aqueles dois personagens, provando essa falta de amor que o título sugere. A cada pista, a cada ação que os pais devem fazer com os policiais e a cada suspeita, o filme vai espremendo emoções desses personagens frente a uma frivolidade que eles mesmos praticavam. A Rússia fria toma outros níveis, as imagens evocadas nesse momento da narrativa constroem símbolos por esse local marcado por uma falta de cumplicidade. Como o prédio abandonado que poderia ser um dos esconderijos do garoto. Ou o encontro com a avó materna do garoto, epicentro dramático do filme, como se ali fosse encontrada a raiz do desamor.

Nesse ponto da narrativa é onde os atores demonstram uma entrega absurda. Onde realmente há um sentimento envolvido naquela procura, como finalmente parecem afetados por essa falta de alguma relação com aquele menino que evapora. Os próprios atores são afetados por essa força da consequência. Há, dessa forma, muitas vezes uma mise-en-scène do sofrimento, por exemplo, num plano muito potente do filme em que os pais estão brigando e ao mexer numa porta, o filho é revelado chorando em desespero num canto. Como essa câmera deseja revelar esse sentimento de desamparo total, que só afeta os pais mais tarde e com muito mais força, como almeja o cineasta russo.

Esse é o segundo alicerce de Sem Amor, um filme bastante preocupado em punir seus personagens, em construir esse aparato onde as consequências são sempre justificadas. Há uma falta de amor do próprio filme em relação a seus personagens. O primeiro terço do longa faz questão de mostrar como não há salvação naqueles seres, como eles são na verdade pessoas totalmente frias e sem nenhuma qualidade, o que os torna também sem vida, sem nenhum traço de humanidade. Se isso pode estar de acordo com as críticas que a obra pretende fazer, há também um artifício quase que incriticável nesse trato, de não haver nenhuma complacência com aqueles dois pais, como se sempre houvesse uma culpa individual por esse estado das coisas. Há um prazer em causar sofrimento em quem também já fez alguém sofrer, um filme que inclui em alguma de suas camadas um certo desejo de vingança.

Sem Amor cria um universo onde nenhum adulto presta, onde ninguém exprime algum valor. Os novos relacionamentos dos pais já parecem fadados ao fracasso, celulares são sempre presente nas cenas, sempre distraindo os personagens daquilo que de fato é importante, ou sendo um espelho para inúmeras selfies – o amor só pelo próprio eu. Exemplo máximo disso é uma sequência num restaurante de luxo em Moscou, onde todas as mesas são marcadas por uma qualidade negativa, a mulher num encontro que flerta com o garçom, moças jovens que só se preocupam com sua aparência numa foto coletiva, as pessoas obcecadas pelas fotos de seus pratos e a câmera está no corpo, no ponto de vista do garçom, ou seja, fora desse mundo, colocando como uma visão que não faz parte dessa sociedade sem amor.

Essa crítica que assume uma postura superior vai colocando essa pretensão num discurso generalista em cheque. Sem Amor assume um lugar confortável, que aponta o dedo, que mexe na ferida, mas distancia-se de qualquer possibilidade de almejar sentir aquilo que seus personagens sentem. Nessa tentativa de investigar um tema amplo há sempre a possibilidade de fazer um recorte superficial do tema, que não consegue se aprofundar na leitura de um estado social contemporâneo.

Curioso que nesse mesmo Oscar outro europeu badalado, The Square, utiliza a mesma prática e sofre dessa crítica de um olhar que se acha superior. Talvez falte a esses cineastas o mesmo cuidado que os autores contemporâneos têm ao falar do cotidiano, no banal e do particular para assim tomar nota de questões gerais. Sobra a esse possível vencedor do Oscar as emoções que ele provoca e uma reflexão instigante do tema, algo mais interessante que suas próprias conclusões.

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