Crítica | O Passageiro

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Não é de hoje que muitos diretores têm predileções e até um certo fetichismo por determinados atores. A recorrente parceria entre o expoente da Nova Hollywood Martin Scorsese e o benquisto Leonardo DiCaprio comprova isso. E o que dizer da dupla Tim Burton e Johnny Depp? Eles estão aí para atestar que o cinema também funciona por meio de panelas que se formam ao longo da trajetória de muitos profissionais. Em seu novo filme, O Passageiro, Jaume Collet-Serra aposta novamente em Liam Neeson, ator que já estrelou Desconhecido (2011), Sem Escalas (2014) e Noite Sem Fim (2015), obras do diretor que, de algum modo, já atestavam a afinidade existente entre os dois.

Em seu mais recente trabalho, Neeson dá vida a Michael MacCauley, homem que sofre grande choque após ser comunicado de sua demissão. A eclosão da crise financeira em sua vida o perturba a ponto de não conseguir comunicar o ocorrido à sua esposa Karen (Elizabeth McGovern), que o ajuda a controlar as dívidas já efetivas. Contudo, o que mais o transtorna é o fato de talvez ter de adiar os planos de mandar o filho Danny (Dean-Charles Chapman) a uma boa faculdade, arruinando momentaneamente o sonho do garoto. Todavia, a situação muda quando uma desconhecida lhe faz uma proposta.

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No trem, a caminho de casa, Michael conhece Joanna (Vera Farmiga), que se apresenta como uma profissional que estuda o comportamento humano, usando seu poder de persuasão para que o protagonista aceite uma oferta: a de participar de uma espécie de missão que terá como gratificação uma quantia substancial em dinheiro, porém ele jamais poderá prever as consequências desse ato. Seduzido pela lábia da mulher misteriosa e tentado pela recompensa, ele acaba se embrenhando nesse esquema, onde deverá se guiar pelas instruções fornecidas por Joanna, mas sobretudo tirar proveito de sua experiência como policial no passado, visto que precisará ter sangue frio para lidar com incessantes ameaças e até confrontos físicos.

A figura de Liam Neeson está tão vinculada a thrillers de ação a ponto de carregar um estigma por esse motivo. Não é pra menos, já que não é difícil se perder na contabilização de filmes do gênero em que ele deu o ar da graça. E onde falta ar, devido à dinâmica constante das cenas no trem, que pode vir a deixar o espectador ofegante em alguns instantes, também inexiste qualquer resquício de graça provinda do ator, em razão de sua inserção desmedida em obras do tipo. O viço de sua atuação mal dá as caras, uma vez que a persona que incorpora se revela muito semelhante a de papéis encarnados em filmes anteriores, como quando faz uso de cacoetes, ainda que sutis, de Bryan Mills, defendido por ele na trilogia Busca Implacável.

O ator, decerto, tenta oferecer a Michael alguma densidade, esboçando a amplitude mínima de suas características quando a obra permite, porém o longa padece devido à insuficiência da história pregressa de seu protagonista, uma vez que se torna improvável nos afeiçoarmos à faceta do esposo e do pai de família, enquanto somos apresentados apenas à imagem de um sujeito confortável em seu anonimato ao longo de um itinerário que está habituado a fazer há 10 anos, para depois sermos bombardeados por sucessivos conflitos responsáveis pela transformação do personagem, que nos levará, de imediato, a rememorar as atuações já aludidas de Neeson.

Entretanto, o desgaste da imagem de Neeson não é o maior dos males, diante do fato de Collet-Serra não conseguir construir a tensão nas entrelinhas. Uma inquietação, que se estende ao espectador, toma conta do filme, sendo disseminada arbitrariamente, impossibilitando durante muito tempo uma variação de ritmo à história, refém de um dinamismo tão permanente que torna tal ambiência e tal situação estáveis, sinalizando assim o empobrecimento do longa.

Iluminados pela luz clara que transpassa as janelas do trem, alguns fragmentos do filme vão de encontro a essa metáfora concebida, a da clareza que Michael necessita ter em meio ao desespero que se instaura. Leitor ávido, ele se desdobra em estratagemas para desvendar o que tanto o inquieta, assim como em conflitos concentrados num bom enredo ficcional, feito os referidos no longa, dentre eles As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, onde encontramos uma família assolada por dificuldades, situação semelhante a do personagem.

O abrir e fechar de portas no trem e a trepidação nos vagões demonstram um frenesi que se apodera do protagonista. A fotografia de Paul Cameron destaca esse aspecto oscilante, repleto de estremecimentos com uma obstinação enervante, que unida à trilha sonora de Roque Baños se torna um recurso apelativo, cuja tentativa de intensificar a ação a leva ao nível máximo de exorbitância.

O excesso de exposição das cenas de ação, a previsibilidade ao exibir descarrilamento e explosão em seu terceiro ato, aos moldes de filmes-catástrofe, e o enfraquecimento da imagem de seu protagonista levam O Passageiro a se estabalecer na trivialidade, onde nada pode garantir sua sobrevida, nem mesmo o aparente flerte profissional entre diretor e ator.

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