Crítica | Por Trás dos Seus Olhos

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Por Trás dos Seus Olhos é um filme que concentra os seus esforços ao se achegar de assuntos como a reconciliação com a vida. Na tentativa de impulsionar a temática, o longa sobrecarrega as aplicações de recursos que abrangem variações cromáticas, fusões de imagens e planos baixos. Sobretudo um cinema de aparências, Por Trás dos Seus Olhos pretende impor suas particularidades visuais, mas não consegue a unicidade que parece almejar, devido à direção de Marc Forster (envolvido em produções discordantes como O Caçador de Pipas, 2007 e Guerra Mundial Z, 2013), realizador sem assinatura, que sabota o filme por sua falta de rigor, ao desconhecer a dosagem correta dos artifícios empregados.

Belas composições urbanas da Tailândia, mais precisamente de Bangkok, antecedem a apresentação do casal Gina (Blake Lively) e James (Jason Clarke), que vivem uma relação, à primeira vista, feliz, mesmo diante da cegueira da protagonista, sequela de um acidente de carro. Com o amparo do marido, ela leva uma vida parcialmente normal, que logo volta aos eixos por meio de uma intervenção médica que lhe devolve a visão, porém esse acontecimento provocará mudanças no cotidiano do casal, que já era assombrado pela dificuldade de gerar um filho.

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As pulsões de vida que Gina passa a ter após recuperar a visão, auxilia-nos a detectar que sua inquietação diante do mundo é fruto do olhar habituado a encobrir fantasias inconscientes de natureza sexual. A personagem possui uma clarividência que a possibilita enveredar pelo relacionamento da irmã Carla (Ahna O’Reilly) com o esposo Ramon (Miquel Fernández), sem condenar o desprendimento que o caracteriza, a ponto de alarmar James, por sua postura imune de julgamentos morais. Enquanto visitam o casal na Espanha, eles também passam a questionar o modelo de construção simétrica que é a relação a qual estão presos, criando-se metáforas imagéticas cada vez mais recorrentes a partir desse ponto, que vão se desconectando da narrativa com o andamento da história, dado que atribui um caráter randômico ao longa.

O olhar da protagonista também passa a se configurar como um dispositivo de acesso ao mundo exterior, ocasião em que o filme não se fixa tanto à câmera subjetiva, muito presente no primeiro ato, substituindo esse recurso por chamativos planos abertos tanto de Bangkok quanto da Espanha, onde o olhar também passa a definir a sua tendência ao voyeurismo, através da plasticidade envolvida num enquadramento que flagra a transa de desconhecidos, presenciada por Gina e James.

O enaltecimento das formas que constituem espacialmente a mise-en-scène e a imagem da movimentação dos objetos inseridos no cotidiano, incutem no espectador a sensação de valorização dessas ações, por mais triviais que soem. Esses momentos são marcados pela reintegração de Gina a um universo, até então, bloqueado, pela ausência de visão.

O minimalismo das cenas que compõem o reconhecimento de mundo da protagonista colidem apenas com os planos que anunciam a grandiloquência das cidades por onde os personagens transitam, mediante a mobilidade urbana nas plataformas do transporte público, nas esteiras e escada rolantes de aeroportos e até na dinâmica do trânsito. Fragmentos como esse evidenciam a parcela esteta de Forster, investindo o seu culto ao belo nos planos de arquitetura de sua obra, com estética que remete ao longa Columbus (2017), dirigido pelo cineasta Kogonada.

Se o filme de Forster tem um ponto forte a seu favor é o fato de exibir um enredo pouco afeito a obviedades, porém o seu demérito se concentra justamente nesse atributo, que serve como disparador para deflagrar o efetivo descompasso entre os seus padrões estéticos e suas empreitadas narrativas. Beirando a confusão, Por Trás dos Seus Olhos cria apenas uma cisão imagética na cabeça de seu espectador, que mesmo o munido do olhar mais apurado não é capaz de desvendar a sua trama de modo concreto.

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