Crítica | Uma Dobra no Tempo

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A fantasia é um gênero capaz de nos transportar para o inimaginável. Até as mentes mais criativas nem sempre são capazes de designar todos os signos presentes nesses universos, edificados por intelectos inventivos que primam pelo adorno das narrativas e dos efeitos visuais dessas produções, inesquecíveis pela riqueza de detalhes e magnificência alegórica. Ava DuVernay (Selma: Uma Luta Pela Igualdade, 2014), parece seguir essa fórmula tão a risca que faz de Uma Dobra no Tempo, antes de qualquer outra coisa, um desarranjo imagético.

O longa se centra na história de uma família que sofre há quatro anos pelo desaparecimento de Dr. Alex Murry (Chris Pine), mas a situação não perdura por muito mais tempo, pois três guerreiras mantenedoras do bem do universo chegam para ajudar Meg (Storm Reid) e Charles Wallace (Deric McCabe), filhos do cientista perdido. Com o auxílio de Sra. Queé (Reese Witherspoon), Sra. Quem (Mindy Kaling) e Sra. Qual (Oprah Winfrey) e na companhia de seu mais novo amigo Calvin (Levi Miller), os irmãos enfrentarão vários obstáculos para encontrar o genitor, dentre eles Camazotz, onde a escuridão comanda, espalhando o mal ativamente pelo universo. Diante disso, eles terão de acreditar em sua luz própria e interior, para vencer o medo e trazer o pai de volta para casa.

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Baseada no livro de Madeleine L’Engle, a história já foi contada no formato telefilme em 2003, também capitaneada pelos estúdios Disney, mas parece despontar só agora para grandes plateias. Seguramente um dos motivos para a difusão da obra é a escolha de uma figura feminina no posto de direção; em tempos que o papel da mulher nas produções hollywoodianas tem sido revisto e colocado em pauta, essa escalação de DuVernay se torna algo sintomático e válido, porém a sua falta de afinidade com a narrativa é tão vistosa quanto a fartura visual da película.

Se o empenho da diretora em tornar essa abundância de texturas, cores e formas num universo inimitável apenas levou o filme a um estado extravagante dos mais duvidosos, o encanto e o frescor juvenil de sua narrativa é o aspecto que o redime. O roteiro sabe se comunicar com o seu público-alvo, ao inserir em seus personagens características que nos auxiliam a acreditar na razão dessa jornada de busca, em que o mistério se relaciona intimamente com o desejo do reencontro, alojado não só no peito das crianças, mas também na feição de Reid e McCabe, atores que mesmo muito jovens defendem bem os seus papéis.

A cargo de Jennifer Lee e Jeff Stockwell, a adaptação não tinha como enfrentar grandes dificuldades pelo caminho, visto o histórico de trabalhos de ambos. Enquanto Lee integrou o time que nos apresentou a trama de Detona Ralph (2012) e de Frozen: Uma Aventura Congelante (2013), histórias com foco no caráter inventivo de seu perímetro narrativo, e na relação entre irmãos, respectivamente, Stockwell escreveu Ponte para Terabítia (2007), obra em que a fantasia e a imaginação correm soltas, entrando em consonância com o universo de Lee, sendo assim uma dupla apta a transitar pelos meandros do longa.

Num mundo comandado por computadores como é tecnicamente o do filme, é louvável notar que a montagem consegue acompanhar a simultaneidade das ações mescladas aos desígnios dos personagens, que tecem essa combinação de sonho com o movimento da narrativa, visto que sem ação não há desejo que perdure, tampouco aspiração que se realize. Se de acordo com o diretor francês Jean Cocteau (A Bela e a Fera, 1946 e O Testamento de Orfeu, 1960) o cinema é o sonho que todos sonhamos juntos, Uma Dobra no Tempo chega para comprovar o dito, não apenas por seus cenários fantásticos, mas por possibilitar o nosso próprio reconhecimento diante da mudança, onde os personagens ali evidenciados estão cercados pelo sentido de comunhão que reflete o nosso semelhante e que inspira a entrega ao devaneio.

Ainda assim, Uma Dobra no Tempo faz de sua narrativa um flanar prolongado, reforçado pela ostentação de seus atrativos visuais, que tornam o universo pelo qual o filme orbita num montante de cores e efeitos um tanto desnorteados. Diante disso, a escapatória é se concentrar no roteiro que acalanta a alma pela adequada puerilidade de seus encantos, na tentativa de se distanciar da experiência visual convulsionada proposta por Ava DuVernay.

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