Crítica | Pagliacci

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O cinema documental se impôs diante de sua recusa à esfera da ficção, na tentativa de revelar ao máximo a expressão da realidade, ainda que ditada pelo recorte proposto na montagem. Em Pagliacci, documentário dirigido por Chico Gomes, Julio Hey, Luiza Villaça, Pedro Moscalcoff e Luiz Villaça, o interesse real se concentra na essência do material captado, sem o propósito de incutir oposição a cacoetes de registros ficcionais, uma vez que a preocupação é exibir a natureza do ofício do palhaço, personagem universal, aqui deslindado de modo amplamente afetivo.

O flerte com o cinema de guerrilha parece se impor logo nos primeiros planos, tão cambaleantes quanto um cômico em cena, onde presenciamos ações corriqueiras de Fernando Sampaio, um dos fundadores da La Mínima, companhia em que a figura central do palhaço se mescla à ação dramatúrgica diante de inusitadas proposições. Porém, não é só a câmera na mão, que o acompanha como transeunte numa selva de pedra, que se sobressai, visto que ela divide espaço com planos detalhes que esquadrinham desde o café da manhã de Sampaio até a desenvoltura apresentada ao volante durante os seus depoimentos.

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Acompanhamos os ensaios do espetáculo exposto no título do documentário, inspirado na ópera de mesmo nome de Ruggero Leoncavallo. A confraternização nas coxias, em meio a um retumbante desejo de sorte manifestado através da palavra merda, abre caminho para discursos emocionados de depoentes como Luciana Lima, diretora artística da La Mínima e também ex-mulher de Domingos Montagner, falecido em 2016 quando integrava o elenco da novela Velho Chico, de Benedito Ruy Barbosa, exibida pela Rede Globo.

O documentário consegue exprimir a ausência do ator através de imagens que preenchem essa sensação da falta. O talento incontestável de Duma – nome atribuído a Domingos por companheiros de palco e amigos – pode ser constatado nas sequências que mostram suas performances ao lado de Fernando Sampaio, já encarnando o palhaço em apresentações de rua, onde prevaleciam os gracejos e improvisações, trazendo uma noção de bastidores a partir da exposição dos preparativos, que incluíam aplicação de maquiagem e composição de figurinos.

Engana-se quem pensa que a lembrança de Montagner é a única carga elevada de sentimentos, posto que a admiração é a grande responsável por sublimar os afetos espalhados por todo o documentário. Nomeado por Sampaio como seu mestre, Roger Avanzi, conhecido também como Palhaço Picolino, protagoniza o momento avant-garde do filme ao simbolizar o pioneirismo de sua expressão artística. O olhar marejado do profissional da La Mínima é nutrido pela inspiração proporcionada por mais esse herói do exagero, que em meio a idade avançada, ainda encontra no riso vitalício a beleza no que foi a sua profissão.

A obra também investiga as caricaturas representadas pelos clowns, através dos tipos branco e augusto, expondo as suas diferenças a partir da compreensão dos contrapontos existentes em sociedade, dado que enquanto o branco tem o aspecto mais perfeito, é detentor do conhecimento e representa a aristocracria, o augusto é um humilde bobalhão, assegurando equivalência se colocado ao lado de figuras como Jerry Lewis (O Professor Aloprado, 1963).

Se o caminho mais curto de comunicação entre dois seres humanos é o riso, Pagliacci consegue transmitir isso ao seu público, com o acréscimo de emoções distintas, mas ainda assim genuínas, que passam por outras vias de acesso, podendo provocar choro. Se um bom palhaço é um causador de sensações, o recorte sedimentado no documentário propicia essa avalanche de sentimentos, que nem mesmo o seu formato majoritariamente genérico é capaz de refrear.

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