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Crítica | Tudo que Quero

Publicado por Redação

24/04/2018 00:00

Tudo aquilo que se distancia de um padrão definido tende a causar estranhamento. Caracterizado como um distúrbio neurológico, o autismo não passa ileso diante de tal regra, tendo os seus portadores como vítimas de olhares de julgamento ou de incompreensão. Encarado como uma condição, o transtorno leva os indivíduos acometidos a lidar com as suas características de maneira permanente; em muitos casos o convívio social é afetado, bem como a maneira de lidar com assuntos de interesse pessoal, devido à obsessão atrelada aos casos. Em Tudo que Quero, de Ben Lewin (As Sessões, 2012), a obsessão se torna obstinação, numa sensível jornada marcado pelo encorajamento.

Em meio a seu cotidiano metódico, a jovem Wendy (Dakota Fanning) divide suas atenções entre afazeres rotineiros, que incluem o trabalho na rede Cinnabon, famosa por seus pães doces de canela, e a escrita, atributo pelo qual se destaca. A execução de tais práticas seria comum, não fosse o fato da garota possuir autismo, fato que acarreta um direcionamento regrado ao extremo a suas tarefas diárias, supervisionadas por Scottie (Toni Collette), uma espécie de psicóloga e cuidadora, responsável por gerir a casa destinada a pessoas com algum tipo de deficiência intelectual dos mais variados níveis.

Convicta da qualidade de sua escrita e da potência de seu texto, Wendy decide participar de um concurso, investindo o seu tempo na criação de um roteiro para a série de ficção científica Star Trek, obra pela qual é fascinada. O material tem como destino os estúdios da Paramount Pictures, em Los Angeles, porém ao perceber que, caso enviado pelo correio, o script não chegaria dentro do prazo estipulado, ela resolve entregá-lo em mãos, mas para isso sai na surdina, apenas na companhia de seu cãozinho, preocupando não só Scottie, mas também sua irmã Audrey (Alice Eve).

O preciosismo tão elementar nas ações cotidianas de Wendy é também aplicado na escrita de seu roteiro, ao enxergarmos o cuidado com detalhes devido à sapiência que possui sobre a série. Além da coesão narrativa se fundir no campo imagético, ela também vai ao encontro dele em momentos de genuína emoção, como na cena em que Audrey relembra a infância de Wendy através de um VHS, cujas imagens ressaltam a saudade mesclada ao pesar por não auxiliar a irmã como gostaria, em que palavras transbordam no subtexto, mesmo inexistentes na oralidade da personagem, dando margem ao traço psicológico que Alice Eve imprime à sua atuação.

O roteiro de Michael Golamco consegue por meio do humor implementar momentos de leveza ao longa, que em muitos casos se relacionam com a paixão da protagonista por Star Trek, seja quando Scottie exibe a sua falta de conhecimento sobre o personagem Spock, metade humano e metade alienígena, sendo motivo de risos na presença do filho Sam (River Alexander), seja no momento em que o policial Frank (Patton Oswalt) utiliza o klingon, língua criada especialmente para o seriado, para se comunicar com Wendy, num resgate exitoso graças ao elemento integrante desse universo compartilhado entre os personagens, que ao ser inserido na narrativa possibilitou a aproximação, não só deles, mas do público afeiçoado à série icônica, que pôde se acercar ainda mais da obra de Lewin.

Tudo que Quero não forja emoções, tampouco tenta dissuadir o espectador em relação ao seu conflito central, visto que investe na alta performance de sua protagonista em vez de ceder lugar a um tom choroso tão explorado em dramas que envolvem doenças ou disfunções. Ben Lewin sabe dar forma à marcha perseverante de Wendy, capaz de transformar o que poderia ser ultraje em fascínio, nessa busca resoluta por um objetivo aliado à veemência de seu ato de coragem. Um filme que procura transitar por emoções diversas, sem a preocupação de verter uma enxurrada de lágrimas, portanto, como manda a saudação de Spock, fica o desejo de vida longa e próspera a histórias como essa.

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