O século 20 foi marcado por grandes eventos históricos. Durante suas várias décadas tivemos avanços tecnológicos, conquistas sociais e conflitos globais sendo possível citar nomes que remetem a cada uma destas segmentações, como, por exemplo, Josef Vissanarióvitch Stalin, que durante muitos anos foi secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética. Stalin é uma das figuras políticas mais importantes e controversas da história da Rússia e o filme A Morte de Stalin faz questão de deixar muito claro toda essa divergência ao usar do humor para narrar um período tido, por muitos, como de assombro.

Dirigido por Armando Iannuci, conhecido por bons trabalhos envolvendo sátiras, o filme A Morte de Stalin traz como narrativa principal a crise sociopolítica que a União Soviética passa após a morte trágica de seu líder. No primeiro ato do filme nos é apresentado o medo que o ditador passa a qualquer cidadão russo. Após ouvir um concerto radiofônico, Stalin entra em contato com o diretor da rádio pedindo a gravação da obra que acabou de ser transmitida, e, algo que não deveria ser um problema acaba por se tornar um: A gravação não ocorre. Ao obter essa informação o diretor se desespera e pede para que todos os membros da orquestra permaneçam no recinto para que se repita a apresentação e que desta vez ocorra a gravação. Durante toda esta sequência os diálogos construídos beiram ao absurdo de tanto temor que todos ali sentiam de Stalin. Ao término desta cena vemos os membros do partido comunista junto de Stalin em sua última noite, já que, no dia seguinte, ele foi encontrado morto em seu gabinete e a partir deste momento temos o início do segundo ato.

A construção desta segunda parte acontece principalmente ao conhecermos todos que cercavam a vida de Stalin, sua família e seus parceiros políticos. No desenrolar do filme é perceptível que o conflito que surge com a morte do ditador é, em suma, a respeito da imagem. Os membros que ali estavam tomavam decisões baseadas no significado que aquilo teria à sociedade russa e não por reais necessidades, como, por exemplo, a dificuldade de chamar um médico imediatamente para ver se Stalin estava realmente morto, afinal, todos os “bons médicos” foram acusados de traidores e estavam presos e, ao chamar qualquer um destes, os cidadãos russos veriam motivo de questionamento.


A evolução de todos os personagens é feita de forma excepcional e todos os atores dos filmes ganham destaque, mas chamo a atenção de dois: Simon Russell Beale, que interpreta Lavrentiy Beria e Steve Buscemi que faz Nikita Khrushchov. Ambos estão incríveis em cena, ainda mais quando juntos, as motivações dos dois personagens são gananciosas e opostas o que gera um conflito maior ainda entre os membros.

Os aspectos técnicos do filme não ficam aquém do roteiro. O diretor sabe muito bem como comandar o campo cênico; a fotografia do filme remete a época que ele retrata; o figurino e toda a direção de arte também faz jus ao período histórico, ou seja, A Morte de Stalin é surpreendente ao abordar de maneira diferente um tema que não é novidade.

Usualmente o que se espera de um filme que tem como cunho principal a política é que este seja de uma linguagem mais séria e mais verídica, como por exemplo, o filme “O destino de uma nação” que opta por narrar os fatos com embasamento histórico usufruindo, principalmente, do gênero dramático. A Morte de Stalin quebra com esse padrão ao definir em seu roteiro a comédia como linha estrutural. Por mais absurdo que pareça, o longa-metragem causa riso em boa parte de sua exibição, claro que a construção dessa risada é amarga em vários momentos do filme, afinal, o período retratado é de grande violência, mas, mesmo assim, o diretor consegue criar situações no qual o telespectador se encontra rindo. Devido a esta linguagem fora do comum e até meio grotesca em alguns momentos, o filme foi censurado na Rússia, o que obviamente só aumentou a curiosidade todos, já que, como costumam dizer “o que é proibido sempre é mais interessante”.

A Morte de Stalin