Crítica | As Boas Maneiras

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Marco Dutra e Juliana Rojas despontaram com o longa Trabalhar Cansa (2011), que unia de maneira uniforme os gêneros suspense e horror ao adicionar a essa junção infalível uma crítica social latente em sua narrativa. Em As Boas Maneiras, eles confirmam a máxima de que em time que está ganhando não se mexe, enveredando por universo similar, que faz questão de destacar as discrepâncias de classe vigentes em nossa sociedade.

Não é necessário clarividência alguma para notar o contraste que a dupla de diretores cria ao colocar frente a frente Marjorie Estiano e Isabél Zuaa. A primeira interpreta Ana, uma jovem de origem abastada cujo filho que espera é fruto de uma transa casual, ato que envergonha sua família, que opta por se afastar. Sozinha, ela busca ajuda para cuidar do bebê que em breve nascerá, além de alguém para realizar as atividades domésticas, momento que Zuaa entra em cena na pele de Clara, contratada por Ana para a execução de tais tarefas, porém o seu desempenho no trabalho se mostra coadjuvante diante do envolvimento sentimental iniciado com a patroa, que sofre distúrbios noturnos causados pelo bebê que carrega.

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Os bons costumes da elite aqui caem por terra, posto que os realizadores o renegam através da figura de Ana, que pouco se identifica com a vida de aparências que levava, presa a um nicho social que confunde sua elegância de fachada com boa conduta. O breve romance da jovem com Clara agiganta ainda mais o tom crítico da obra, que nos leva a instantes de apreciação, graças a esse enlace proposto pelos roteiristas por uma ótica livre de julgamentos sociais, que poderiam recair sobre Clara devido à sua situação financeira ou mesmo pela cor de sua pele, porém diante de sua postura isenta de máculas, só resta ao espectador se entregar a esse personagem de forte inclinação empática.

Contudo, se a porção social do longa se apresenta com máximo fundamento em sua primeira parte, na segunda, traços do cinema de horror se estabelecem após a ruptura desse efêmero enlace entre as duas, com a chegada de Joel (Miguel Lobo) ao mundo. A passagem de tempo que a película sofre serve para incorporar o horror ao universo fantástico aqui servido em doses cavalares, no intuito de sustentar a trama da criação do garoto por Clara, cheia de restrições e segredos, até certo ponto, invioláveis.

Interessante perceber a competência do roteiro de Dutra e de Rojas em oferecer indícios dos conflitos que estão por vir, apostando também em diálogos que se comunicam com a configuração visual da critaura que Ana carregou durante a gravidez. A fala em que a personagem diz achar bonito olho de bicho, cria um arremate perfeito com o nascimento do lobo.

Essa cena específica merece especial atenção, visto que diante de algumas imagens geradas por computador altamente perceptíveis, que carregam consigo uma dose de artificialidade, esse momento do filme transita por um mecanismo oposto, agindo pela chave do convencimento estético, onde enxergamos o bebê lobo banhado em sangue, já liberto do corpo de Ana, movimentando-se num plano em que se encontra com o cordão umbilical envolto em seu pescoço, cujo aproveitamento da espacialidade da cena e a concepção visual da criatura beiram o magnífico.

É sempre revigorante perceber como os diretores injetam signos que engrandecem ainda mais a sua narrativa. Em uma apresentação na escola de Joel, cujo tema são as Grandes Navegações, o olhar do espectador é direcionado à lousa, que contém desenhos de seres do mar com um aspecto amedrontador, como um peixe com dentes imensos, e criaturas míticas, como sereias. A composição da cena cria uma associação direta com o cinema de gênero da dupla, além de remeter à verdadeira natureza de Joel, que carrega características que se assemelham ao conteúdo exposto no plano.

As Boas Maneiras soa como mais uma etapa de compreensão do cinema já muito maduro de Marco Dutra e Juliana Rojas, que aqui encontram novas nuances para o horror, pulverizando-o num território fantástico dos mais atraentes, que mesmo cercado de estímulos estéticos, caminha lado a lado com a porção social que o longa carrega, sendo assim, o filme prova ser um belo exemplar de registro que sabe lidar com diversas frentes.

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