Crítica | A Noite Devorou o Mundo

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Criado no final dos anos 60 por George Romero os filmes de zumbis se tornaram um subgênero de terror tão lucrativo que adentraram a cultura pop em vários setores; videogames, literatura e TV passaram a produzir conteúdos diversos para os fãs das estórias de mortos-vivos. Porém, o que surgiu como mais uma categoria de filmes de terror, modificou-se com o decorrer dos anos e, atualmente, é possível ver estes monstros retratados em outros gêneros. A Noite Devorou o Mundo se enquadra neste caso, por mais que seja um filme de zumbi o longa-metragem é, na verdade, um filme de drama.

A trama acompanha Sam (Anders Danielson Lie) um jovem que decide visitar a ex-namorada com a intenção de buscar alguns pertences deixados para trás. Mas, ao chegar no apartamento, Sam nota que está acontecendo uma festa. Por insistência da ex ele permanece no ambiente e acaba dormindo num quarto aos fundos. Ao acordar no outro dia, o mundo já não era o mesmo. Houve uma invasão zumbi e ele talvez seja única pessoa viva em Paris.

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Primeiro longa-metragem de Dominique Rocher, A Noite Devorou o Mundo é sobretudo um filme de solidão. Portanto, não espere sequências recheadas de perseguições ou fugas e muito menos cenas sanguinárias com zumbis comendo humanos. A intenção do filme não é a de assustar, mas sim criar uma alegoria, a partir dos zumbis, sobre estar só.

Desde que surge em cena notamos que Sam é um garoto introspectivo. Enquanto está na festa, mesmo antes de toda a tragédia acontecer, ele não consegue interagir com ninguém. Ao invés de se divertir, o rapaz prefere pegar uma bebida e se isolar alguns minutos no sofá. Essa sequência inicial, anterior a invasão, é a forma que o roteiro encontra de justificar atitudes que ocorrem somente depois de toda tragédia. Ao sair do quarto e perceber o que havia acontecido Sam tem a atitude, já esperada, de qualquer personagem em um filme zumbi; ele estoca comida, procura alguma arma para se proteger e investiga todos os cantos do prédio. Ao terminar estes processos o longa-metragem diminui o ritmo e o público passa a vivenciar o processo de solidão do personagem. O filme só volta a deixar esse ritmo vagaroso em seu último ato.

Por ser praticamente um filme com um personagem só, coube ao ator Anders Danielson Lie transmitir todas as angustias de Sam. A missão – que não é das mais fáceis – é bem-sucedida por parte do ator, ele se esforça ao máximo para que o público entenda os sentimentos de seu personagem. Porém, o roteiro, infelizmente, nem sempre facilita essa compreensão. A falta de ritmo do enredo, principalmente no segundo ato, atrapalha a fluidez da estória. O roteiro tenta, mas nem sempre consegue equilibrar os momentos de certa tensão com os períodos de solidão. Isso atrapalha, principalmente, a compreensão da crise existencial de Sam. Além disso, como o roteiro não desenvolve quem é aquele personagem, leva um tempo maior para o público se importar com qualquer desventura que venha ocorrer com ele.

Com relação aos aspectos técnicos, o filme possui uma estética que auxilia bastante a intenção da narrativa. A fotografia faz bom uso da contraluz; a direção usa alguns planos aéreos, que reforça a visualização de caos e destruição; a trilha sonora é praticamente o som local, intensificando a sensação do público perante o personagem; a direção de arte cria um ambiente todo revirado e sujo de sangue e a maquiagem dos zumbis são bem realizadas, passíveis de se crer.

Por fim, A Noite Devorou o Mundo é um filme que ao subir dos créditos consegue, com esforço, entregar um resultado positivo. Mesmo com seu ritmo problemático, o longa não é falho em sua missão principal. O público sai do cinema com a sensação de solidão se questionando se é realmente possível vivermos sozinhos.

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