Apenas uma semana após a estreia do péssimo Slender Man: Pesadelo Sem Rosto, chega aos cinemas brasileiros um longa muito mais intimidador sobre os horrores da geração conectada: Ferrugem, dirigido por Aly Muritiba. Sem em nenhum momento transformar a internet em um monstro e sim mostrando-a como uma ferramenta para atitudes monstruosas, o filme tem gerado discussões desde sua estreia no Festival de Sundance em janeiro e agora ganha os holofotes após levar o Kikito de Melhor Filme no recém-encerrado Festival de Gramado.

Para discutir os altos e baixos de Ferrugem com alguma profundidade, devo entrar em alguns detalhes de sua trama que podem representar spoilers, então estejam avisados. O enredo, que se inicia como um possível romance entre os adolescentes Tati (Tifanny Dopke) e Renet (Giovanni de Lorenzi) durante uma excursão escolar, logo troca de marcha quando a garota perde seu celular. No dia seguinte à perda do aparelho, ela descobre que um vídeo íntimo seu foi divulgado em um grupo de alunos, posteriormente caindo também em sites pornôs. Humilhada publicamente e consumida pela depressão, Tati tira sua própria vida.

Tudo que descrevi acima ocorre, aproximadamente, ao longo da primeira meia-hora de Ferrugem, que possui uma divisão explícita entre duas partes. Enquanto a primeira segue Tati em seus dias derradeiros, a segunda, que é mais alongada, propõe um ponto de vista inesperado: o do garoto que pode ou não ter divulgado o vídeo da garota, que no caso é o próprio Renet. Nesse segundo ato, relações que antes eram desconhecidas são reveladas ao público e tensões anteriores ressurgem, mas tudo ocorre em um ritmo muito mais cadenciado, sem tentar transformar em thriller o que é, acima de tudo, uma tragédia humana – uma mais do que comum, infelizmente.


Se você espera de Ferrugem um suspense eletrizante no estilo “whodunit” (quem fez) a la 13 Reasons Why, está plenamente enganado. O roteiro escrito por Muritiba e Jessica Candal não se preocupa tanto em elaborar um mistério acerca de quem vazou o material e os porquês por trás dessa ação, até porque reconhece acertadamente que tais detalhes são, no fim das contas, não muito relevantes para a abordagem escolhida. Os roteiristas estão muito mais interessados, de fato, em como seus personagens respondem a atitudes tão sinistras e deturpadas.

Apesar de ser uma experiência inteligente, há coisas que ficam no caminho do longa e abafam seu impacto. Entre os detalhes que impedem Ferrugem de se tornar num drama realmente contundente, está a própria divisão adotada pelo roteiro, ou melhor, na disparidade de tempo entre cada um dos atos. Mesmo que construa bem o clima opressivo através dos enquadramentos apertados e boas sacadas da direção de arte – as pichações no banheiro condenam Tati com xingamentos misóginos antes mesmo da rede -, não há muito tempo na Parte 1 para moldar ou aprofundar uma personalidade para a protagonista.

Talvez isso se dê porque está sendo representada a história não de uma mas de muitas outras jovens, porém vemos tão pouco da vida privada da garota que, mesmo quando chega o mais fatídico momento, persiste uma certa distância emocional. Algo que aumenta esse distanciamento ainda mais é a superficialidade dos diálogos, muitos dos quais servem apenas para explicar detalhes antes elusivos e não se mostram tão necessários para o entendimento da trama, especialmente na segunda parte. Não há nada que seja mal escrito ou formulado, mas também falta uma certa audácia e até mesmo uma acidez que deixasse os inevitáveis confrontos entre os personagens mais incisivos do que acabam sendo. Quando podiam ser curtos e grossos, Muritiba e Candal optam apenas pelo curto.

É justamente nos momentos de silêncio que Ferrugem funciona, convidando o espectador a ruminar juntamente de seus personagens, cada um assombrado à sua própria maneira, e criando uma atmosfera convincente de melancolia. A força do silêncio é tamanha que dois trechos se destacam e se complementam com grande peso, ambos envolvendo os dois lados de uma conversa virtual entre Tati e Renet, encerrada com frieza pelo último. O sentimento de culpa que surge dessa rima atinge seu ápice, então, quando o garoto decide ligar para o celular da menina morta, tentando se desculpar tardiamente – é simplesmente desolador.

Ainda assim, a maior das qualidades dramatúrgicas de Ferrugem se encontra na mise-en-scène extremamente calculada por Muritiba, que posiciona seus atores em cena numa boa variedade de disposições, seja aproveitando a profundidade do espaço cênico – a conversa entre pai e filho pelos dois lados de uma porta – ou simplesmente colocando a câmera em locais apertados – o longo plano que Enrique Diaz e Clarissa Kiste dividem dentro de um carro em uma tarde chuvosa.

Muritiba também planta elementos em certas cenas (provavelmente) para criar alguma tensão, como a pedra que é deixada logo ao lado de Renet e seu primo enquanto os dois brigam no chão, criando expectativas preocupantes na cabeça do espectador. Por fim, mesmo que crie uma sensação constante de violência iminente, outra decisão sábia do diretor é a de nunca sequer mostrar o suicídio de Tati – até mesmo quando vemos os registros das câmeras de segurança, as imagens são congeladas a tempo, poupando-nos de um choque desnecessário.

Por vezes remetendo à mesma desesperança encontrada em um filme de Michael Haneke, a proposta física e emocionalmente rigorosa de Muritiba não deve agradar e nem se conectar a todos, exigindo uma certa bagagem emocional para que seu drama realmente ressoe. Não se pode negar a habilidade técnica em demonstração aqui, que inclui também a expressiva fotografia de Rui Poças e a montagem inteligente de João Menna Barreto, que colaborou com Muritiba em seus trabalhos anteriores. Porém, em um ano no qual o audiovisual brasileiro tem se arriscado a abordar temas tão presentes por diferentes perspectivas, Ferrugem fica como uma boa obra que incomoda e deixa reflexões, mas que não impacta tanto quando poderia.