Crítica | Fica Mais Escuro Antes do Amanhecer

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Dirigido, escrito, montado e protagonizado por Thiago Luciano, Fica Mais Escuro Antes do Amanhecer é uma incógnita. Digo isso não porque se trata de uma obra pós-apocalíptica cujas lacunas narrativas potencializam o todo, como Ao Cair da Noite, mas sim porque sinto que assisti a um filme que, na realidade, nunca começou.

Fica Mais Escuro Antes do Amanhecer traz a história de Iran (Thiago Luciano), um rapaz que trabalha em uma fábrica de gelo. Ele e o restante da humanidade vivem em um mundo gravemente afetado por mudanças climáticas, alternando entre longos períodos de frio congelante e calor infernal. Essas duas temporadas climáticas ditam o desempenho financeiro da fábrica, que prospera no calor, quando a demanda por gelo ultrapassa o teto, e passa maus bocados durante o frio.

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Com uma estrutura de vai e vem entre presente e passado(s), o filme gradualmente revela mais detalhes sobre Iran, que é profundamente atormentado pela perda de seu filho e também pelo impacto devastador da morte sobre o relacionamento com sua esposa, Lara (Lucy Ramos), que é acometida por um quadro grave de depressão e passa a viver sob os cuidados frequentes do marido.

Se essa história parece mais clara que o dia no papel, não se pode dizer o mesmo de sua representação em tela. Sem ganhar uma forma sólida, Fica Mais Escuro Antes do Amanhecer consiste de um emaranhado de cenas soltas que, mal situadas, deixam a compreensão de detalhes básicos da história mais confusa do que deveria ser. Pelo menos durante a primeira hora, a dificuldade em juntar as peças da narrativa não instiga, apenas cansa, como se tivéssemos que montar uma frase inteira numa sopa de letrinhas.

A realidade em que Iran vive também é apresentada de um jeito excessivamente difuso, no fim dando a impressão de que não houve muito cuidado na hora de estabelecer um contexto para essa história. Não há regras ou ameaças claras, portanto o envolvimento com o mundo que Luciano imaginou chega a ser mínimo. Nem mesmo os adornos usados pela população local, que incluem máscaras reminiscentes do período da Peste Negra, são implementados para a construção de algum sentido que, ora, faça sentido.

Embora tenha sido gravado antes do já mencionado Ao Cair da Noite, pode-se traçar um paralelo curioso entre este filme e aquele dirigido por Trey Edward Shults. Ambos usam o luto como ponto de partida e focam no lado íntimo de uma situação quase fantástica, mas enquanto Shults trabalhava o desconhecimento daquele mundo como uma maneira de potencializar os sentimentos de seus personagens e torná-los mais palpáveis ao espectador, Luciano tropeça na intenção de construir sua narrativa, que já é bastante vaga, de maneira não-linear.

Além de fazer um mau posicionamento das cenas, que muitas vezes parecem coladas em modo aleatório, a montagem de Luciano e Fernanda Cardozo faz questão de repetir diversos planos – alguns chegam a aparecer mais de três vezes! Isso pode ser apenas um recurso dramático mal calculado, mas a impressão que fica é a de que Luciano, mais preocupado com a estética do longa, gravou o material todo sem uma estabelecer uma decupagem ou se preocupar com a construção de sentidos entre uma cena e outra. E olhem só: entre sua exibição na 40ª Mostra de São Paulo e sua estreia nos cinemas, o longa aparentemente passou por novos cortes e ainda perdeu alguns minutos de duração, o que me leva a crer que não houve, de fato, uma visão devidamente consolidada neste caso.

A falta de uma estrutura sólida também torna mais fácil avistar outros problemas de execução do longa, como numa cena em que uma banda, que se apresenta para o público, está visivelmente tocando uma música diferente da que foi inserida no produto final, resultando numa falta de sincronia imediatamente perceptível. Para tornar a experiência ainda mais artificial (e provavelmente para economizar nas locações), são usados efeitos digitais de baixa qualidade para simular iluminações e temperaturas diferentes – às vezes, o que vale é a intenção, mas neste caso nem a intenção ficou clara.

Quem mais se prejudica com a má concepção das ideias de Luciano é o elenco, especialmente (e surpreendentemente) Caco Ciocler. Encarnando o chefe controlador de Iran, Ciocler mergulha em um papel dolorosamente caricato e mal-escrito, tornando-o ainda pior com uma entrega que desafia baixar expectativas. A execução do personagem pode ter sido idealizada por Luciano, mas chega a ser inacreditável que um intérprete do calibre de Ciocler tenha aceitado um papel desses. Lucy Ramos, por sua vez, tem pouco a fazer como a esposa mas fica com uma das frases mais desconcertantes do script, comparando o efeito de antidepressivos com uma “camisinha no cérebro”.

Deve-se ao menos admirar a intenção de Thiago Luciano em realizar um longa independente que, mesmo repleto de elementos comuns ao cinema de gênero, não quer se limitar a nada. Contudo, é essa mesma teimosia em se limitar que impede Fica Mais Escuro Antes do Amanhecer de apresentar qualquer consistência em sua proposta, ficando como uma série de intenções que nunca se concretizam e que não criam qualquer conexão entre o público e o filme. Some isso aos muitos problemas de execução e terá, infelizmente, um dos piores filmes do ano até agora.

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