Crítica | Alfa

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Nunca esperei de Albert Hughes, co-diretor dos violentos Do Inferno e O Livro de Eli, uma aventura fofinha de cachorros, ou no caso, lobos. Seu novo filme Alfa, que é vendido como a história de origem para a amizade entre humanos e caninos, possui um forte apelo para o público infanto-juvenil e opta por uma trama bastante simples, sem muitas viradas e com uma mensagem objetiva. Trata-se de uma grande mudança para Hughes, sim, mas será que já não vimos tudo isso antes?

No enredo de Alfa, o jovem Keda (Kodi Smit-McPhee) parte em sua primeira caçada ao lado do pai Tau (Johannes Haukur Johannesson) e outros iniciantes. Após passar por uma série de aprendizados duros, Keda se vê em uma situação mais dura ainda: enquanto caça uma manada de búfalos, é atacado por um dos animais e consequentemente jogado de um desfiladeiro, sendo tido como morto pelo pai e o restante da tribo. No entanto, o jovem milagrosamente vive, porém deve sobreviver sozinho para que volte para casa.

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Já estamos quase na metade de Alfa quando o lobo que dá nome ao filme surge em cena. Após tentar devorar Keda junto de sua matilha, o animal é ferido e também deixado para trás, ficando sob os cuidados do garoto, que domestica o canino. No caminho para casa, os dois aprendem a cooperar, caçando, dormindo e até tomando banho juntos. Embora essa jornada conte com grande potencial para aventura, não há muito além do que já foi descrito acima, e o filme de Hughes falha em ser marcante por uma relativa falta de perigo.

Para um filme que vende seu foco sobre a relação entre Keda e Alfa, a trama dá algumas voltas desnecessárias antes de chegar a seu ponto principal, tanto que o incidente que separa o rapaz de sua tribo é mostrado duas vezes, a primeira delas no início para criar alguma tensão no horizonte – só que, no caso de Alfa, esse recurso narrativo não surte nenhum efeito além da redundância. Nessa demora para engrenar, o filme perde um tempo valioso que poderia ter sido aproveitado numa consolidação mais crível do vínculo que se forma entre o garoto e o lobo, que é domesticado com demasiada facilidade.

Além da partida lenta, Alfa também deixa a desejar com sua escassez de cenas de ação. Keda está cercado de animais perigosos em um ambiente inóspito, mas pouco acontece para que sintamos uma ameaça constante. Há um ataque ou outro que ocorre durante a viagem, mas nem mesmo uma luta com um tigre de sabre consegue criar uma sensação de perigo convincente, algo que falta também pela inconsistência dos efeitos digitais – a falta de peso da computação gerou burburinho desde o primeiro trailer do longa, há mais de um ano atrás.

Dito isso, é interessante observar como a direção de Hughes ignora as limitações das CGIs para criar transições e composições imagéticas caprichadas, com o apoio da fotografia de Martin Gschlacht, que faz ótimo uso de silhuetas e principalmente do formato largo dos quadros. A harmonia entre Hughes e Gslacht garante Alfa como uma espécie de aventura rara ao cinema de hoje, uma que poderia ser 100% absorvida exclusivamente pelas imagens. Felizmente, os sons também não ficam aquém e são, na realidade, o ponto alto do filme, tanto no desenho sonoro que simula o perigo ambiente – me peguei olhando para os lados antes do ataque do tigre à fogueira – quanto na atmosférica trilha musical de Joseph S. DeBeasi e Michael Stearns – este último compôs as trilhas dos documentários Samsara e Baraka.

Pena que o roteiro de Daniele Sebastian Wiedenhaupt, com base em uma história de Hughes, não confie o bastante nas capacidades visual e sonora do projeto. Vez ou outra, Keda solta frases completamente desnecessárias com o propósito de explicar o que acontece ou vai acontecer. Por exemplo, quando ele e o lobo avistam hienas famintas não muito longe, o rapaz diz: “Hienas. Temos que procurar abrigo.”, sabe-se lá porque e para quem já que caninos não entendem sua língua. Por falar nisso, o lançamento nacional de Alfa não inclui cópias legendadas, já que, na versão original, os diálogos são expressados no idioma pré-histórico dos Cro Magnon. Dublados em português, já não contam com a mesma verossimilhança e por isso chegam a distrair, realçando a obviedade do texto. O filme também perde oportunidades já que não se arrisca a aprofundar elementos como a cultura e a religião do povo primitivo.

Alfa se propôs a renovar a velha fórmula conhecida como “um garoto e seu cão”, colocando-a em uma ambientação distinta e tentando extrair dela uma história emocionante de sobrevivência. Enquanto o filme de Albert Hughes possui inegáveis qualidades estéticas e acerte ao fugir da cacofonia visual tão frequente nos blockbusters americanos, adotando o pensamento de que “menos é mais”, faltam ameaças e surpresas à jornada por este mundo distante e selvagem, um que poderia contar também com mais detalhes. Ainda assim, a experiência deve agradar àqueles que buscam um escapismo moderado.

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