Crítica | Hotel Artemis

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Nos últimos anos, o cinema de ação ocidental tem se redescoberto em produções de orçamento médio e sensibilidade diferenciada, tanto narrativa quanto estética. Apostando em uma construção de mundo inusitada e um visual polido, os filmes de John Wick são bons exemplos dessa nova onda de produções, apropriando-se dos lugares comuns do gênero e deixando neles as suas própria marcas – entre elas, uma rede de hotéis para assassinos profissionais -, o que também resultou em uma alternativa surpreendentemente rentável meio a uma pletora de aventuras mais genéricas. Talvez mais pela rentabilidade do que pela imprevisibilidade, não é de se surpreender que um filme como Hotel Artemis, escrito e dirigido por Drew Pearce, chegue aos cinemas em um ano tão lotado de blockbusters quanto 2018.

Embora soe estranhamente similar ao conceito que mencionei de John Wick, a ideia central de Hotel Artemis é de fato interessante: em um futuro não tão distante e marcado por revoltas populares, A Enfermeira (Jodie Foster) supervisiona um hotel secreto em Los Angeles que serve de hospital para criminosos feridos, desde que estes estejam devidamente cadastrados no sistema. Com uma decoração no melhor estilo art déco e também tecnologias analógicas que dão um charme retrofuturista e ar decadente ao local – telas de projeção manchadas, telefones de disco -, o hotel do título certamente deixa uma boa primeira impressão e promete ser pano de fundo para situações cada vez mais interessantes.

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Parte dessa promessa também se deve a um elenco colorido de personagens, todos abrigados no hotel e alguns apelidados de acordo com seus quartos tematizados: Waikiki (Sterling K. Brown) e Honolulu (Brian Tyree Henry) são irmãos que vão ao local após uma tentativa de assalto fracassada; Nice (Sofia Boutella) é uma assassina cuja presença no Artemis pode envolver intenções secretas; Acapulco (Charlie Day) é um comerciante de armas chauvinista e egocêntrico. Além dos criminosos, outra presença no local é Everest (Dave Bautista), fiel e encorpado assistente d’A Enfermeira que se encarrega dos deveres mais sujos. Em uma noite tumultuada, os caminhos de todos se cruzam de maneiras inesperadas e, em muitos dos casos, bastante violentas.

Apesar da variedade de personagens, não há dúvidas: por mais que o roteiro de Pearce distribua uniformemente o tempo de cada um deles em tela, o núcleo de Hotel Artemis é A Enfermeira, a figura mais intrigante a dar as caras no filme. Em tempos nos quais Tom Cruise e Keanu Reeves protagonizam novos filmes de ação com mais de 50 anos nas costas, é ótimo ver uma atriz do calibre de Jodie Foster no centro de uma produção como essas aos 56, embora seu papel não exija (ou, no caso, permita) que troque socos com colegas de elenco. No entanto, sua personagem é dona dos melhores diálogos e possui o arco dramático mais bem articulado entre todos, marcado por algumas reviravoltas razoáveis que afetam o quadro geral – essas viradas, no entanto, realmente ganham força na entrega comprometida de Foster, nunca menos que cativante desde que despontou com Taxi Driver em 1976.

Na verdade, Foster está tão comprometida à personagem d’A Enfermeira que talvez ela mesma tenha notado uma grande promessa que o próprio roteirista não enxergou enquanto elaborava a narrativa, que é bem amarrada mas não investe no potencial de suas facetas mais interessantes. Mesmo que mereça algum respeito por não forçar a ideia de uma sequência por goela abaixo do espectador, Hotel Artemis é aquele caso do filme que, já contente com as particularidades de sua proposta, deixa de aprofundá-la em algo a mais. Com apenas 97 minutos de duração, o conceito promissor do hotel e os dilemas que sua supervisora esconde não são tão plenamente desenvolvidos quanto poderiam ser, assim como as subtramas de cada hóspede tem ainda menos tempo para fermentar, o que resulta em uma experiência que envolve enquanto dura mas que no fim é um bocado insatisfatória.

Outro aspecto que impede Hotel Artemis de atingir seu potencial completo são os diálogos geralmente fracos. Além de recorrerem a frases expositivas que não soam nem um pouco naturais para explicar o contexto da trama, principalmente se considerarmos que são ditas por pessoas que vivem naquele mundo e seguem aquelas regras há anos, os diálogos também deixam explícita a diferença de qualidade na caracterização de certos personagens, em especial o irritante Acapulco. Prometendo ser uma figura mais interessante do que realmente é, ele acaba sendo o típico sujeito emasculado e irritante que Day encarna nesse tipo de produção, chegando a soltar frases tolas como “você não é superior a mim!” em meio a confrontos que deveriam ser muito mais tensos.

No entanto, com exceção de Day, o resto do elenco se sai bem, compondo uma seleção colorida de personagens que, mesmo desenvolvidos de forma rasa, possuem algumas características únicas. Brown e Henry convencem como irmãos e são os únicos a ganharem um arco emocional mais desenvolvido além do de Foster, e Brown também continua a demonstrar potencial como galã. Enquanto isso, Nice, a assassina encarnada por Boutella, tem o costume literal de traçar uma linha que de maneira alguma deve ser cruzada, incorporando isso em sua luta – na verdade, a única digna de nota – nos minutos finais do filme. Everest, por sua vez, faz jus a seu tamanho mas tem uma docilidade bastante inusitada, algo que apenas um brucutu charmoso como Bautista consegue conferir. Já o misterioso Rei Lobo, que entra na história por motivos inicialmente misteriosos, é representado por ninguém menos que Jeff Goldblum, que aqui consegue equilibrar seus trejeitos particulares com uma boa dose de ameaça, já que se trata, afinal, de um chefão do crime de Los Angeles.

Lembram que mencionei especificamente o cinema de ação no início do texto? Pois bem, a pancadaria, como já indiquei no parágrafo anterior, não é o destaque de Hotel Artemis, por mais que seus trailers e demais materiais de divulgação façam parecer que sim. Fora a luta de Boutella, que já não é filmada com tanta destreza por Pearce, o resto da ação se resume a brigas de faca e machado, enquadradas em planos muito fechados, escondendo quase que completamente a coreografia – ou, talvez, a falta dela. Por isso é surpreendente que o filme continue a envolver mesmo com essas limitações que, em tese, deveriam arruiná-lo. Sem muito jeito para resolver sequências complexas de ação, Pearce reconhece sua fraqueza e decide compensá-la com um forte senso de personalidade, inegavelmente deixando uma impressão. Ainda assim é uma pena que, com Jodie Foster ao centro e tanta criatividade em demonstração, esta estreia de Pearce como diretor perca o vapor na reta final e nunca engate na potência que prometia. Próxima filme descolado sobre um hotel misterioso (também concebido por um Drew, vejam só): Maus Momentos no Hotel Royale, de Drew Goddard.

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