Crítica | Kin

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Kin é um tipo de filme que parece deslocado em um circuito dominado por blockbusters. Por isso, o longa dirigido pelos irmãos Jonathan e Josh Baker chamou minha atenção já em seu primeiro trailer, que apresentava a simples ideia central da história assim como sua intenção de misturar sci-fi, thriller policial e drama familiar, mas sem entregar maiores detalhes da trama e por isso mesmo instigando. Com uma equipe técnica consolidada por trás das câmeras e nomes como Jack Reynor, James Franco e Dennis Quaid à frente delas, parte de mim esperava por um pequeno grande filme, daquelas raras surpresas que surgem no amargo fim do verão americano. Esse não foi bem o caso, e agora o longa me parece deslocado por outras razões.

Kin conta a história do jovem Elijah (Myles Truitt), que, enquanto busca sucata em um galpão abandonado, encontra uma arma aparentemente alienígena ao lado dos corpos de soldados que também não parecem originais da Terra. O garoto deixa a arma onde está, mas, após alguns pesadelos, volta para buscá-la e leva o trambolho para casa, tudo isso enquanto o irmão mais velho Jimmy (Jack Reynor) volta da prisão seriamente endividado com outros criminosos, liderados pelo perigoso Tay (James Franco). Não demora muito até que uma série de impasses leve os dois irmãos a fugirem – com a arma, é claro -, sendo perseguidos tanto por Tay quanto por uma dupla de sujeitos de armadura semelhantes aos que Elijah havia visto no galpão.

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Apesar da premissa misteriosa e instigante, Kin se mostra uma experiência bastante limitada no fim das contas, especialmente em sua faceta dramática. Assumindo uma chave mais melancólica sem nunca contar com o peso necessário para convencer ou emocionar, a trama escrita por Daniel Casey (com base em um curta dos próprios Baker, Bag Man) se perde no excesso de momentos que, escritos e executados com maior sensibilidade em diversos outros filmes, acabam soando banais e tornam seu decorrer monótono. Embora a intenção de misturar elementos sci-fi em meio a um contexto mais sóbrio possa gerar resultados exemplares, como no caso do marcante Distrito 9, essa sobriedade também requer grande habilidade de um roteirista em criar personagens, diálogos e contextos palpáveis, e Casey deixa a desejar nesse quesito.

A estrutura do roteiro também é muito desequilibrada no que concerne ao tempo de cada ato. Enquanto o segundo ato se alonga demais como um road movie que pouco tem a oferecer de especial, o primeiro e terceiro atos são excessivamente condensados, prejudicando duas importantes etapas para um filme como Kin: a apresentação de seus personagens, para um maior envolvimento, e o confronto final com a chuva de efeitos que todos queriam ver a princípio, respectivamente. Assim, quando certos elementos narrativos finalmente convergem em meio a revelações e surpresas, falta força e não há qualquer empolgação que reste.

Já a faceta sci-fi de Kin, que apenas ganha maior espaço nos minutos finais, também falha em apresentar conceitos originais ou necessariamente interessantes, o que acaba matando qualquer clima mínimo de mistério que o filme tinha antes de sua conclusão, que traz uma aparição especial de uma certa estrela hollywoodiana em ascensão e nisso tenta encaixar um gancho para uma possível sequência – resta à bilheteria dizer. É uma pena que Kin faça melhor uso de suas armas secretas, literais e figurativas, apenas no final. Portanto, sobra apenas mais um filme visualmente competente que demora a dizer ao que veio, e isso com certeza pode atrapalhar os planos futuros dos produtores Shawn Levy e Dan Cohen, que recentemente tentaram – e falharam – em criar uma nova franquia com o ruim Mentes Sombrias.

Isso não quer dizer, no entanto, que Kin esteja no baixo patamar de qualidade de Mentes Sombrias – diferentemente do romance teen a la X-Men, o filme dos Baker ao menos tem aspectos positivos o suficiente para deixar a impressão de que houve algum esforço para entregar algo diferente. A começar pela própria direção, que apesar do texto fraco ainda consegue conferir uma atmosfera íntima à relação dos irmãos protagonistas, além de demonstrar um estilo já relativamente maduro e sofisticado. A fotografia de Larkin Seiple, por sua vez, evoca a decadência da perigosa Detroit com muita textura, mas também consegue ser adequadamente lustrosa nos trechos que mergulham de vez no sci-fi. Isso nos leva também aos competentes efeitos visuais, que nunca são excessivos e impressionam pelos detalhes, rendendo um trecho especialmente interessante nos minutos finais.

Por fim, a trilha da banda Mogwai, que fez bons trabalhos antes para cinema e televisão, vibra nos sons eletrônicos esperados para uma produção do tipo mas também traz uma sensibilidade inesperada, que acaba ajudando no tom dramático pretendido pelos Baker. Os dois ainda inserem faixas do que deve ser uma playlist pessoal entre uma cena e outra (alguém mais escuta Ki:Theory?), refletindo um pouco da mesma postura mostrada mais fortemente por cineastas como Adam Wingard em produções como O Hóspede e Death Note, ambas com suas amálgamas de gênero.

Pode-se dizer que Kin é um fracasso de respeito. Se suas intenções narrativas e comerciais sequer envolviam qualquer inovação ou surpresa, sua execução é boa o suficiente para deixar um gostinho do que poderia ter sido, embora não o bastante para sustentar essa primeira experiência de uma pouco provável franquia, condenando o longa de estreia dos Baker ao ostracismo. Talvez Kin se desse melhor no catálogo de sci-fi originais da Netflix, entre as quais se encontraria facilmente entre as melhores – o que não é dizer muito.

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