Crítica – À Espreita do Mal

Suspense da Netflix abusa de truques em obra de comentário social sobre a queda dos inadequados.

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Lembram-se da série de animação Scooby-Doo, sobre uma gangue formada por especialistas, além de um cachorro de grande porte amedrontado, onde resolviam mistérios assombrosos para descobrir que sempre havia um vilão malvado por de baixo das máscaras assustadoras?

Era de bom entretenimento, acompanhar as aventuras sinistras do desenho animado. Ainda mais como uma criança, e tentar desvendar quem era o malvado do dia.

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No entanto, a vida real nunca deixa tão claro identificar quem é o vilão da história. Existem variáveis e específicos que deixam um ar de dúvida em tantas situações, como por exemplo, um casamento que vai mal das pernas depois de um caso de traição extraconjugal.

Esse é o ponto de partida de À Espreita do Mal, produção de suspense da Netflix, que revela o presente da família Harper, encabeçada pela matriarca Jackie (Helen Hunt), uma terapeuta que busca encontrar paz dentro de sua casa, após um affair. Seu marido Greg (Jon Tenney) é um investigador que está à frente em um caso estranho sobre um garoto que desapareceu nas florestas da pequena cidade onde vivem. Ao mesmo tempo, eventos incomuns vêm acontecendo na casa da família, deixando uma dúvida se as duas coisas podem estar interligadas.

Maleta de truques

A melhor maneira de abordar o trabalho do diretor Adam Randall, é de como se ele fosse um mágico ilusionista, melhor ainda, dois mágicos ilusionistas diferentes.

Nos primeiros quarenta minutos, ele faz o papel de um mágico que gosta de pregar peças com o assinante Netflix, usando de alguns truques muito familiares aos aficionados dos gêneros de suspense/terror. Sim, alguns desses artifícios são bem baratos, aqueles do pior tipo, exemplo, uma trilha sonora que pauta demais a atmosfera da narrativa; outros, até trazem um certo prazer trocista, como alguns movimentos de câmera intrépidos, levando-se em consideração o tipo da obra.

Já, o segundo mágico, é um tipo Mister M, popular ilusionista da década de 90 que ficou famoso por revelar ao mundo como eram boladas as artimanhas para se realizar um truque de mágica. Quando Randall faz esse papel, adentramos no pior momento de À Espreita do Mal.

De forma resumida: na primeira parte ele constrói e elabora um cenário, para logo em seguida, explicar tudo aquilo que acabamos de ver. Pior: Ele precisa de praticamente meia hora para cobrir tudo o que foi feito no primeiro ato.

Isso tira muito do ritmo que havia na primeira parte. Sim, o começo é clicherizado? É. Ainda assim, ao menos havia uma forma narrativa funcional sendo executada.

Plot twists

Contudo, quando se pensava que havia esgotado o arsenal de truques do cineasta Adam Randall, ele vem com mais. Agora, entraremos no terreno dos plot twists, aquelas viradas de jogo que acontecem em tantos filmes, e que geralmente causam espanto com o inesperado. Pena que no longa da Netflix não seja assim.

Por um breve momento, acredita-se que o vilão por de baixo da máscara é uma coisa, mas depois, veremos que não é bem assim. E, nessa passagem de tempo, a obra de Randall tenta (e falha) fazer um comentário social sobre a diferença de classes. Só que Randall, ainda não é Bong Joon-ho de Parasita (2019), excepcional vencedor do último Oscar.

Diferentemente, do filme sul-coreano de dois anos atrás, À Espreita do Mal não constrói essa crítica social desde a base, na realidade, só é jogada na trama, de modo randômico. Assim, faltou qualquer tipo de argumentação, e principalmente, profundidade emocional para discorrer tal temática.

Traumas

No terço final, Adam Randall faz um comentário importante, apesar da narrativa desarmônica. O diretor pontua como é o íntimo daqueles que sofrem de inadequação, seja esta qual for. Qual o impacto das frustrações e traumas do passado?

De todos os argumentos em À Espreita do Mal da Netflix, este aqui é o único que sobrevive, assim como o rancor no coração daqueles que um dia foram vítimas. Não importa quanto o tempo passe, algumas coisas são impossíveis de se deixar para trás na visão do cineasta.

Que na próxima empreitada fílmica, Adam Randall consiga colocar em prática tanta engenhosidade. Talvez, para ajudar, deva assistir o ótimo O Homem Invisível (2020) de Leigh Whannell, assim, observará como é cobrir todas as pontas almejadas, sem perder a vibração.

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