Crítica: Labirinto do Medo – 1ª Temporada

Série de terror da Netflix vai além na discussão sobre quais os monstros mais perigosos que existem.

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Existe uma considerável probabilidade de que após apertar o ‘play’ na série de produção sul-africana Labirinto do Medo, fique com uma má impressão, logo no episódio inicial, e desista após os primeiros 45 minutos. Essa mesma probabilidade vai se repetir no episódio seguinte, e aí vai ser difícil segurar o assinante Netflix depois da segunda chance dada.

Isso seria uma pena!

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A temporada que é constituída de oito episódios, e estrelada pelo trio Anthony Oseyemi, Shamilla Miller e o surpreendente Rea Rangaka, na segunda metade, sobe o morro, e sobe acelerando!

Labirinto do Medo nos leva até Johanesburgo, maior cidade da África do Sul, onde acompanharemos Will (Anthony Oseyemi), celebrado autor que dedicou sua vida e carreira desvendando mistérios e casos relacionados ao mundo do paranormal. Só que Will também esconde um fantasma no seu passado, a morte prematura de sua irmã, vinte anos atrás. Enquanto tenta buscar respostas da sua tragédia familiar, passa a investigar casos estranhos e sobrenaturais, e para isso, recebe a ajuda da blogueira Kelly (Shamilla Miller) e do ex-policial Joe (Rea Rangaka).

Lugar comum

‘Não julgue o livro pela capa’. Agora, vamos estender isso aí!

‘Não julgue uma série pela primeira metade dela’. Pronto.

A série de produção original Netflix, definitivamente, começa mal. Tudo o que conseguir imaginar de mais comum e enfadonho que pode haver em uma história que trata o sobrenatural e o absurdo está lá.

Aí chega o terceiro episódio ‘A bruxa’, e as coisas começam a melhorar um pouco. Está mais familiarizado com o trio de investigadores e suas diferenças de comportamento, os casos misteriosos se apresentam como experiências mais engenhosas, os desafios parecem mais complicados (e absurdos) de se resolver, até uma pequena surpresa dá as caras no fim desse episódio. Finalmente um alento!

Não tão rápido, companheiras e companheiros.

Logo em seguida, no capítulo ‘Caçando um assassino’ volta o bom e velho lugar comum. É praticamente uma réplica do clássico cult Ghost – Do Outro Lado da Vida (1990) de Jerry Zucker, com final piorado.

Se nesse momento, parece que está prestes a jogar tudo no ralo, aguente firme! O melhor está por vir.

Até o episódio inicial ‘Morte na água sombria’ irá ganhar novo sentido após o fim da primeira temporada de Labirinto do Medo da Netflix.

Power trio

O nome original da série é ‘Dead Places’, no traduzido ‘Lugares Mortos’, que também são os nomes da série de livros que Will publicou, relatando casos macabros. O título encaixa como uma luva no protagonista dotado de sensibilidade espiritual.

Apesar da face sisuda, do trio, Will é o mais atormentado. O herói que consegue encarar qualquer fantasma, menos o próprio. Mais: apresenta dificuldade extrema para lidar com qualquer um que esteja relacionado, diretamente, com a morte enigmática de sua irmã.

O galã Anthony Oseyemi, mostra um bom trabalho na maior parte do tempo. Lamentavelmente, em alguns momentos, ele sofre do chamado ‘mal de Gosling’ (inspirado no talentoso ator Ryan Gosling), que é um vício de performance em alguns atores que interpretam tipos engarrafados que costumam reter as emoções, e exageram um pouco na rigidez, deixando a sensação de opaco no ar.

Agora, Kelly é a cola que mantem essa equipe junta, a voz da razão, e que apesar de não possuir a sensibilidade espiritual de Will, mostra-se muito intuitiva na hora do perigo. Óbvio, que a jovem também possui seus traumas do passado, porém, a capacidade de resiliência dela é tão forte que, como num estalar de dedos, ela já está pronta para outra sem pestanejar.

Pela atuação vibrante da atriz Shamilla Miller, ganhamos uma presença calorosa em cena, e a tal ardência que queima passionalmente no sexto episódio, é a mesma que vocifera contra Will nos momentos derradeiros dessa temporada.

Entretanto, o maior destaque e grande surpresa em Labirinto do Medo da Netflix é Rea Rangaka. O ator pratica desde o primeiro frame dele, uma atuação amplamente naturalista. Assistindo, pode parecer que ele não está fazendo nada de especial, ou que mereça qualquer menção. No entanto, é exatamente este o ponto!

Uma performance mais naturalista abre o leque de opções para a personagem, assim, seja quais forem as ações e reações desta, tudo soa crível. E, Rangaka ainda consegue outra façanha, exercitar o chamado ‘charme do mau-humor’, dado que o ex-policial é um ranzinza, que reclama de tudo, ofende, sempre questiona a autoridade em cena, e lisamente, sai intacto das adversidades. E olha que Joe não arreda o pé, nunca. Encara todas!

Fica ligada, Hollywood! Que tem um diamante bruto de bobeira na África do Sul, e não estão percebendo.

Escalada

Quando completamos a primeira metade de Labirinto do Medo da Netflix fica a impressão daqueles times de futebol que ‘cozinham o jogo’ durante o primeiro tempo, fazendo o básico, sem fazer grande esforço. Aí volta para a etapa final jogando no modo avassalador!

É a partir do quinto episódio ‘O outro lado do museu’ que a narrativa encontra seu eixo, e fica mais à vontade. Tudo de mais bizarro, e incomum vai dar as caras: uma boneca vodu com forma similar a um Minotauro, uma árvore enfeitiçada, uma criatura da lagoa que se assemelha com a figura de Obaluaiê do Candomblé/Umbanda. A imaginação comeu solta!

No episódio seguinte, acontece o mais impressionante momento cinematográfico dessa temporada, quando névoa e vermelho transformaram o cenário em um ambiente imprevisível, assustador, e ainda assim, hipnoticamente encantador de se olhar.

Em relação ao trio, quanto mais perto do fim, mais suas vidas convergem, e isso se desenrola de maneira fluente, graças ao roteiro de estilo clássico bem estruturado e as performances do elenco.

E a cartada final que vem pelo episódio derradeiro é de capotar o íntimo e as expectativas de uma história que evoluiu rondando o místico macabro.

Irônico, pois logo após Joe ser contratado como motorista e segurança de Will, ele questionou o investigador paranormal sobre a existência de fantasmas e coisas do tipo, e depois de uma resposta atravessada, Joe deu de ombros, e afirmou que na África, fantasmas serão o menor dos problemas.

O pior: Joe estava correto. Quanta monstruosidade!

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