Crítica – Meu Pai

Estreante Florian Zeller imprime retrato minucioso e sofrido sobre a perda da realidade individual.

Publicadohá pouco tempo
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Alguns acadêmicos costumam afirmar que existem, no máximo, dez tipos de trama diferentes em toda a ficção. Outros enxergam de outra forma, e acreditam que exista apenas uma… ‘Quem eu sou?’.

Passamos todos pelos nossos dias tentando definir ou lapidar o que achamos somos, ou pelo menos, o que gostaríamos de ser. Essa proeza é o centro de nossa existência, de modo que praticamente tudo que fazemos ou escolhemos para nós, baseia-se em cima disso, inclusive pela ilusão que criamos sobre nós mesmos.

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Agora, já pararam para se perguntar como seria, após décadas e décadas de aprimoramento e polimento, ter sua própria realidade explicada para você, pois não consegue se situar dentro de sua própria mente e corpo?

Bom, o jovem dramaturgo francês, e agora, diretor de cinema Florian Zeller pôs em prática tal exercício imaginativo, no ótimo e elucidante Meu Pai. A produção franco-inglesa retrata a vida de um homem (Anthony Hopkins) que recusa toda e qualquer forma de assistência proporcionada por sua filha (Olivia Colman), cada vez mais preocupada com a saúde mental de seu pai. Enquanto, dentro de seu apartamento em Londres, o idoso tenta encontrar sentido nas suas cambiantes circunstâncias, começa a se questionar sobre as intenções daqueles que dizem querer seu bem, sua própria mente, e até a noção de sua realidade.

Confusão

Florian Zeller, estreante na função como diretor de cinema, pisou com o pé direito dentro da indústria cinematográfica hollywoodiana em Meu Pai, que é baseado na peça Le Père (O Pai) escrita pelo mesmo no ano de 2012. O filme foi indicado em seis categorias na cerimônia do Oscar 2021, incluindo Melhor Filme, Ator, Atriz Coadjuvante e Roteiro Adaptado.

Já que estamos mencionando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, é bom dizer que Meu Pai é em certo ponto, uma narrativa acadêmica. Contudo, vale exaltar que diferentemente de Radioactive, produção original da Netflix, a obra de Zeller explora seu assunto e temática, de modo a incluir o espectador em sua história. Mais: brinca com a nossa percepção, seja visualmente, sensorialmente ou psicologicamente, e faz tudo isso, para exemplificar com minúcias como se encontra a mente de seu protagonista.

Será de maior naturalidade, o espectador sentir-se desorientado ao assistir esse longa. Esse é o ponto!

A intenção de Zeller, ao menos na maior porção da narrativa, não é esclarecer, mas confundir, de maneira que só assim conseguirá colocar o público dentro da cabeça, e da exuberante e nuançada performance do titã galês Anthony Hopkins.

Com a ajuda do renomado roteirista Christopher Hampton, o cineasta francês criou um universo de detalhes dentro de um apartamento londrino, e ambos, também não se acanham com a questão temporal, de forma que buscar acompanhar tudo o que acontece na vida do personagem principal, só fará com que perca o que realmente está acontecendo em cena, como o personagem, sempre procurando por seu relógio de pulso perdido.

O que Florian Zeller fez não é muito diferente do que outros diretores fizeram quando produziram obras do tipo ‘whodunnit’ (‘quem matou?’), onde temos um mistério com a intenção de encontrarmos o assassino. A diversão, o entretenimento destes filmes não está em tentar descobrir quem é o culpado, mas na jornada mirabolante de como chegamos à conclusão daquele emaranhado de fatos.

Assim, racionalizar demais em Meu Pai, só roubará o espectador dos aspectos sensoriais, e especialmente, emocionais do turbilhão mental do protagonista.

Solidão

É óbvio, que o maior destaque fica com o talentosíssimo Anthony Hopkins, que para muitos entrega, no alto de seus 83 anos de idade, seu melhor trabalho como ator na carreira. Algo que não soa como exagero.

(Observação: Olivia Colman também está muito bem no papel da filha que vê o pai definhar dia após dia).

A comparação com o inesquecível e arrepiante personagem Hannibal Lecter do excepcional longa O Silêncio dos Inocentes (1991) de Jonathan Demme, sempre surgirá nessa discussão. Entretanto, insistir no comparativo, apenas se mostrará contraprodutivo, já que são formas narrativas completamente diferentes. Na produção de trinta anos atrás, Hopkins tem um tempo de projeção bem menor (mesmo porque não é o protagonista da trama).

Enquanto aqui, o ator é o núcleo da narrativa, e precisa distribuir, ao longo dos 97 minutos de duração, todas as mudanças de humor e nuances que um personagem que sofre de demência em um grau avançado passa. Nomes, datas, localização, horários, pessoas… todos estes detalhes não dão liga em Meu Pai.

Deste modo, nos derradeiros momentos da obra, Florian Zeller que surpreendeu a todos, põe em prática um tanto quanto de didatismo, que só aumenta exponencialmente a força dramática em cena, e destaca acima de tudo, a condição da figura do pai, um homem no fim da vida que se sente desprotegido e só.

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