Crítica: Meu Pai e Outros Vexames – 1ª Temporada

Série cômica da Netflix estrelada por Jamie Foxx faz pouca graça, e é incapaz de comover.

Publicadohá pouco tempo
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Quem acompanha tudo o que sai nos cinemas, provavelmente sabe quem é Jamie Foxx! O multitalentoso artista, ganhador de um Oscar como melhor ator no ano de 2005 por interpretar o icônico músico e cantor Ray Charles na cinebiografia Ray, que também já se aventurou no mundo musical como cantor e produtor, e que começou a carreira como comediante no final da década de 80, agora, no alto de seus 53 anos de idade, resolveu produzir e estrelar uma sitcom cômica familiar para o serviço de streaming da Netflix.

Batizada de Meu Pai e Outros Vexames, a série narra a rotina da família Dixon, especialmente focada na relação entre Brian Dixon (Jamie Foxx) e Sasha Dixon (Kyla-Drew), respectivamente, pai e filha. Brian, um pai solteiro e dono de uma empresa especializada em cosméticos, herdada de sua falecida mãe, tenta a duras penas compreender as dificuldades de ser pai, ainda mais, de uma filha como Sasha, uma garota de gênio forte.

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

O showman

Não se enganem, essa série original da Netflix é muito mais uma plataforma pessoal para o astro Jamie Foxx do que um material que visa abranger qualquer ideal social de representatividade, ou mesmo uma narrativa rica, seja pelo viés do humor ou dramático.

O perspicaz Foxx já mostrou, principalmente em sua carreira como ator que é hábil ao ponto de tirar quantos coelhos quiser de dentro da cartola. Assim, ao assistir Meu Pai e Outros Vexames fica claro que o artista, o manda chuva por de trás deste projeto, tinha o desejo de transformar uma ideia em uma realidade, e que pudesse compartilhar desta aspiração com outras pessoas.

Para estabelecer um padrão de comparativo, neste ano, os prêmios do Globo de Ouro resolveram homenagear a carreira do ilustre criador e produtor televisivo Norman Lear, responsável por revolucionar o gênero das sitcons familiares na década de 70, como por exemplo, as séries Tudo em Família, Maude, The Jeffersons e Good Times. À época, Lear ousou bater de frente com certos ideais e tradições da cultura dos costumes americanos fazendo o público rir, e até se emocionar.

Mais recentemente, na década de 90, Will Smith comandou a série de sucesso Um Maluco no Pedaço, que marcou uma geração com muito riso, e também alguns momentos de reflexão profundos; mais a frente, Damon Wayans buscou repetir a mesma fórmula com a série Eu, a Patroa e as Crianças.

O equívoco

Claramente, Jamie Foxx tem o mesmo objetivo que todos os citados anteriormente. Retratar a realidade de uma família negra de classe média (ou mesmo classe média alta) com suas rotinas e situações sociais do dia a dia. Até aí, sem problemas!

Só que Jamie Foxx que é o criador de Meu Pai e Outros Vexames da Netflix, definitivamente não soube organizar bem sua narrativa, e infelizmente cometeu faltas com o elemento mais básico deste tipo de seriado familiar: desenvolver um humor de qualidade.

Em resumo: o material na maior parte do tempo é asséptico, insosso, e pior, forçado.

O astro hollywoodiano como se sabe, iniciou sua trajetória como comediante, e ganhou certa notoriedade. Nunca chegou no nível de alguns de seus ídolos, como Richard Pryor, ou Eddie Murphy. No caso, Foxx se inspirou diretamente em Murphy para algumas cenas em Meu Pai e Outros Vexames, dado que o último é mundialmente celebrado por criar variados personagens dentro de seus projetos, como nas franquias Um Príncipe em Nova York, ou O Professor Aloprado.

Na série, Foxx foi, além do pai de família: um pastor de igreja que lembra o icônico baixista Bootsy Collins da lendária banda de funk Parliament-Funkadelic; um tio malucão barrigudo; e por último, um bartender de peruca loira lisa com piercing no septo que faz barulhos estranhos sem qualquer motivo aparente. Apenas o pastor é capaz de tirar algum riso do assinante Netflix.

Passo a passo

Se existe uma falha na tentativa de fazer humor, provavelmente, isto também irá afetar quando houver a intenção de comover, ou instigar algum tipo de debate.

Por exemplo, no segundo episódio #Namasdeus, encontramos um dilema interessante. Sasha que perdeu a mãe, e não vê sentido, ou acredita que a igreja possa trazer qualquer benefício espiritual a ela, além de ser crítica aos cultos que usurpam de seus fiéis na parte que dói, o bolso. Sente-se órfã, como se Deus tivesse tirado sua querida mãe de seu lado, para a atriz Kyla-Drew estas cenas deveriam ter uma carga dramática um pouco mais densa, porém, estamos apenas no segundo episódio, desta maneira, mal conhecemos e nos conectamos com sua personagem, que desaba diante da dor da perda.

No oitavo e último episódio desta primeira temporada #Vendotudotalvez, Jamie Foxx passou muito perto de rememorar uma das cenas mais horrorosas deste século, o assassinato de George Floyd pelas mãos, melhor dizendo, pelo joelho do policial Derek Chauvin. É consenso que o ocorrido em 25 de maio de 2020, mudou o panorama a nível mundial, e que retornar a este assunto é essencial para continuarmos na luta pelo movimento #blacklivesmatter.

Contudo, ao assistir o episódio derradeiro, fica a impressão de que Foxx e sua equipe não conseguiram dar o mínimo de profundidade e conscientização a um assunto tão doloroso de nossa história recente, sobretudo nas performances do elenco. Tudo parece extremamente superficial, incluindo o “despertar” de Sasha.

O lado positivo vem pelo sexto episódio #Meuchurrascoémelhor, onde podemos admirar o talento sutil do ator David Alan Grier, que interpreta Pops Dixon, o patriarca da família, e um dos responsáveis pelo churrasco no Dia do Emancipação. Grier faz breves, repetidas, mas boas intervenções cômicas sobre o que não é correto dizer neste dia que celebra o fim da escravidão nos Estados Unidos.

O futuro

Se Meu Pai e Outros Vexames da Netflix conseguir seguir com suas histórias e causos para uma segunda temporada, e assim por diante. Terá que caprichar bem mais no conteúdo do texto, as piadas e situações, para só aí aprimorar o teor humorístico, e consequentemente, lapidar os comentários sociais e humanos que são essenciais nesses projetos.

Mãos à obra, Jamie Foxx!

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio