Crítica: O Inocente – 1ª Temporada

Produção espanhola da Netflix detalha o peso das penalizações do passado, enquanto edifica a figura do feminino.

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AVISO: Esta produção tem imagens fortes de violência e tortura.

Alguém aqui já teve o privilégio de entrar em um labirinto? Pelo menos uma vez na vida? Se já, lembram como se sentiram lá dentro? Ficaram extasiados, angustiados, irritados, com medo? E quando encontraram a saída? Como se sentiram? Entusiasmados, aliviados, arrependidos, angustiados?

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Se tiveram essa chance, ao menos, uma vez. Então, sabem que seja o que for que sentiram, lá dentro ou fora, é perfeitamente natural. Pois, nossas reações diante das adversidades são algo que, em muitos casos, nem nós conseguimos decifrar o que foi dito, feito e sentido naquele momento. Nossa mente e íntimo é um grande mistério, que parece não haver saída, como um labirinto.

Desta maneira, pode-se afirmar que ao produzir a minissérie espanhola O Inocente, a plataforma global de streaming Netflix convidou seus assinantes para participar de um evento que, improvavelmente, ao sair se sentirão indiferentes.

O Inocente é um labirinto que tem como ponto de partida, a noite em que Mateo Vidal (Mario Casas), ao tentar apartar uma briga, acaba acidentalmente matando o jovem Daniel (Eudald Font). Mateo é condenado a quatro anos de prisão por homicídio culposo. Nove anos depois, fora da prisão, tenta iniciar uma nova vida ao lado de sua esposa Olivia Costa (Aura Garrido). Porém, quando Olivia viajou para Berlim a trabalho, seu marido começou a receber estranhas mensagens em seu celular mandadas por ela. Agora, Mateo não irá sossegar enquanto não descobrir o que está acontecendo, e qual é a verdade por de trás disso tudo. Em paralelo, a inspetora de polícia Lorena Ortiz (Alexandra Jiménez) investiga um caso de suicídio em um convento, que pode estar interligado com Mateo e o sumiço de sua esposa Olivia.

Quem eu sou?

Muito curioso acompanhar a minissérie da Netflix, especialmente, o início de cada um dos oitos episódios. De forma que, em cada episódio, começamos com um narrador diferente, explicando os trajetos de destino de algumas das personagens que iremos acompanhar durante a trama. E, como ótimo material que é, quanto mais adentramos o emaranhado de acontecimentos inimagináveis, mais queremos ser cúmplices de tudo aquilo que testemunhamos.

Essa carga emocional será a guia que irá te levar por toda a série. Aí, é nesse momento que começa a ficar claro, o motivo de conhecermos algumas dessas histórias logo no comecinho dos episódios. Nesse momento, o criador da produção espanhola Oriol Paulo está estabelecendo o que será o tema principal, por toda a narrativa: o peso do passado.

No âmago de O Inocente, serão discorridos as mais variadas formas e etapas que nós, seres humanos, passamos com tudo o que fizemos lá atrás. Mais: tudo ficará exposto em nuances, e na medida mais crua possível, bem visceral.

São muitos os filmes e séries que comentam o fardo que se leva pela vida do que não é mais possível ser desfeito. E, o maior mérito na minissérie Netflix de Oriol Paulo é fazer dessa teia de aranha que os personagens foram apanhados, algo que mais do que observar, sentirmos uma urgência de convalescer com alguns destes e suas histórias trágicas.

Resumindo: a maior qualidade dessa trama é fazer com que nós, espectadores, nos importemos com o que vemos.

Podridão

E, não pense que se render a esse embolado é algo fácil, dado que em certo momento, sente-se como se estivesse escorregando em uma espiral que vai de mal a pior.

Em O Inocente, quando tratamos das escolhas feitas no passado, algumas dolorosas, outras brutalmente abjetas, constatamos e refletimos sobre o trauma instalado no espírito dessas vidas.

No melhor dos cenários, alguns sentem-se ancorados, seja pelo sentimento de culpa, ou mesmo pelo abandono; agora, existe o outro extremo, e é nesse lugar que tudo de bom e digno se perde no indivíduo, onde raramente consegue-se recuperar o que um dia foi.

A minissérie de Oriol Paulo não será um passeio no parque para o assinante Netflix, definitivamente. Visto que seremos apresentados para a faceta mais sórdida e asquerosa da figura masculina. O quinto episódio que o diga!

O Inocente nos lembra, e nos detalhes mais repugnantes, que o ódio e a violência atrofiam a consciência humana, e deformam o espírito de alguém, sejam estes providos por um abalo emocional, ou abastecidos por um ego desenfreado.

O escritor e diretor da minissérie não fez a menor questão de esconder o lado sombra do homem.

Resiliência feminina

Mas, já que tudo de pior será revelado, é necessário saber e sentir o que vale a pena nessa vida. E, Oriol Paulo o fará!

No desenrolar da narrativa, será possível ao assinante Netflix perceber um padrão, algo consistente que sempre está lá, algo que parece inabalável, mas que na realidade, foi construído e reconstruído sem o olhar atento.

Vamos listar: Lorena Ortiz, Kimmy Dale, Emma, Olivia Costa e Sonia.

É, por meio destas personagens femininas que o criador de origem espanhola fará sua mais edificante argumentação em O Inocente: de que as mulheres são o maior polo de força e graça que existe.

Todas as citadas passaram por baques horríveis, perdas, humilhações, tortura física, em resumo, souberam e sentiram o que é o inferno na Terra. Contudo, é admirável testemunhar como essas mulheres têm a capacidade de perdoar, perseverar, apoiar, reconsiderar, e ainda assim, continuar seguindo em frente, mesmo com a bagagem cheia.

Quando perguntado quais eram as diferenças entre Batman e Superman, um renomado autor de quadrinhos disse o seguinte – “Batman é o melhor que o ser humano consegue fazer, já o Superman é o melhor que o ser humano tem dentro de si”. Bom, isso é porque ele não conheceu estas mulheres!

Apesar da cena final dessa produção parecer um tanto quanto deslocada no episódio derradeiro (mesmo porque será possível chegar a essa conclusão no episódio sete), o impacto maior fica pela emoção de um novo começo, com destaque para as personagens Olivia e Sonia, verdadeiras heroínas.

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