Crítica – Sem Remorso

Longa de ação da Amazon Prime é anacrônico no conteúdo narrativo, além de pouquíssimo imaginativo.

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Em 2008, os renomados diretores conhecidos como Irmãos Coen, lançaram uma ótima e hilariante comédia sombria batizada de Queime Depois de Ler, estrelada por Brad Pitt e George Clooney. Sem entrar nos pormenores da trama, existe um momento na narrativa que o personagem de John Malkovich, um ex-analista de escritório da CIA perde suas memórias que está planejando para lançar como um livro. Para ameaçá-lo, na tentativa de conseguir uma recompensa pelo material no disquete, estes que estão com a posse das memórias resolvem levar isso até os russos da embaixada.

Lá, os russos percebem que não há nada de valoroso naquele disquete. E, quando essa informação chega até o personagem interpretado por Malkovich, sobre o paradeiro de suas memórias, ele questiona a si mesmo dizendo – “por quê diabos eles foram até os russos?”.

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Sim, a Guerra Fria já acabou faz um bom tempo, trinta anos exatamente. Porém, para o renomado roteirista Taylor Sheridan e o diretor Stefano Sollima ela deveria ser reanimada de volta à vida. Assim, gratuitamente, sem qualquer razão fundada, e para isso usaram o livro homônimo de Tom Clancy para “contar” a história de John Kelly (Michael B. Jordan), fuzileiro naval americano que busca vingança após o assassinato de sua esposa grávida, mas acaba descobrindo que sua tragédia é apenas uma pequena parte de uma conspiração muito maior.

Segundo strike

Não é a primeira dobradinha feita por Taylor Sheridan e Stefano Sollima. Em 2018, fizeram a pavorosa sequência de Sicário: Terra de Ninguém (2015) de Denis Villeneuve.

Sicário: Dia do Soldado (2018) se mostrou como uma continuação completamente sem alma, nem as performances estupendas de Benicio del Toro e da jovem Isabela Moner conseguiam salvar a narrativa do marasmo sem sentido naquela história.

Mas, quando não se imaginava que a dupla Sheridan/Sollima poderia fazer pior, eis que aparece Sem Remorso, produção original da Amazon Prime, que dentre tantas façanhas negativas, acima de tudo, conseguiu ser capaz de anular o talento carismático de um dos atores mais queridos na atualidade: o astro Michael B. Jordan.

Os motivos, que só iremos saber no final, para um novo embate com os russos soam simplesmente infantis, como se o monopólio do ódio doméstico no planeta fosse, exclusivo, do povo americano. Resumindo: aquele velho e péssimo hábito americano de só conseguir olhar para o próprio umbigo.

Assistindo o longa da Amazon Prime fica claro que existe um lugar de pertencimento para essa história, que harmonizaria tranquilamente com tantos outros materiais saídos de Hollywood na década de 80, principalmente. Fica fácil imaginar atores icônicos do gênero ação, como Steven Seagal ou Sylvester Stallone, no lugar de Michael B. Jordan em Sem Remorso.

Sem imaginação

Apesar de ser um material que teria forte identificação em um determinado momento do passado, este não é o problema maior nessa produção.

De todos os elementos nessa trama, o que apresenta maiores chances de afastar o assinante da plataforma digital, neste caso, é a falta de criatividade como cinema de ação, como se o texto de Taylor Sheridan viesse com um GPS, nos avisando e guiando para o que veremos que se encontra ali, logo a frente.

Isso é de se lamentar, dado que o roteirista já apresentou trabalhos muito dignos anteriormente, como A Qualquer Custo (2016) e Terra Selvagem (2017).

De modo prático, Sem Remorso da Amazon Prime é tiro, porrada e bomba. Nada mais.

Lembrando, que é fato que o cinema de ação mudou drasticamente na primeira década do século, após o lançamento da trilogia Bourne, que já esteve sob o comando dos cineastas Doug Liman e Paul Greengrass. E, essa mudança ocorreu, em especial, na abordagem dos heróis protagonistas destes filmes, cada vez mais introspectivos e atormentados.

Michael B. Jordan tinha a base necessária para simular isso em cena, porém, não teve boas direções de Stefano Sollima, e tudo o que consegue em frente às câmeras é parecer bruto, sem qualquer nuance dramática, apenas emulando explosões no humor. Infelizmente, muito longe do ator que entregou performances marcantes, cada uma à sua forma, como Fruitvale Station: A Última Parada (2013), Pantera Negra (2018), Creed II (2018) e Luta por Justiça (2019).

No fim, tudo o que Sem Remorso da Amazon Prime faz é barulho, muito barulho. Sem um pingo de estilo, e sobretudo, alma.

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