Crítica: Sexify – 1ª Temporada

Série polonesa da Netflix perde chances ao discutir educação sexual e busca por identidade.

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Em 2021, a Netflix fez questão de destacar a personalidade histórica que foi Marie Curie, renomada cientista responsável pela teoria da radioatividade. Primeiro, com o longa-metragem Radioactive, estrelando a sempre fibrosa Rosamund Pike; e agora, na nova série de origem polonesa Sexify, disponível na plataforma via streaming.

Segurem as pontas! Sexify não é mais uma cinebiografia a respeito da mulher mais conhecida no campo da ciência do século passado. Não é!

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Mas, ela é o ponto chave da protagonista desta história, Natalia (Aleksandra Skraba), jovem tímida que tem como tese o estudo do sono, e vê seus planos irem por água abaixo quando seu professor da faculdade rejeita seu trabalho, e pede para que a jovem encontre outro tema para abordar. Com muitas dificuldades, tem a ideia de falar sobre sexo, mais precisamente o orgasmo feminino. Contudo, Natalia é muito inexperiente nessa área, assim, recorre a ajuda de sua melhor amiga Paulina (Maria Sobocinska), e de sua vizinha de quarto Monika (Sandra Drzymalska). Agora, o trio de amigas pretende elaborar um aplicativo de celular inovador com a intenção de vencer uma competição tecnológica, patrocinada pela faculdade onde estudam, adentrando de vez no mundo das intimidades femininas.

Papai e mamãe

No ano de 2019, a mesma Netflix revelou globalmente a série japonesa O Diretor Nu, que contava a história real de Toru Muranishi, mais conhecido como o imperador do pornô japonês da década de 80. A série produzida na terra do Sol nascente, abordava com enorme maturidade esta temática, usando de um didatismo muito bem vindo, além de grande inteligência emocional desamarrada de um viés moralista empacotador.

Infelizmente, Sexify não consegue praticar o mesmo em sua narrativa. Ainda mais, se levarmos em consideração o contexto atual da nação polonesa, que tem como chefe de gabinete, o atual presidente Andrzej Duda, politicamente similar ao mandatário brasileiro Jair Bolsonaro, ou mesmo com o ex-presidente Donald Trump, com quem tinha forte afiliação política. O presidente Duda é do tipo que costuma restringir ou banir direitos das mulheres e do movimento LGBT, ou até mesmo processar judicialmente (usando o grupo ultraconservador Ordo Iuris) músicos que praticam suas devidas formas de expressão intelectual e emocional, por exemplo.

Sabemos que a arte, seja esta a plataforma que escolhe se apresentar, costuma agir como um agente disruptor dos moldes sociais padronizados, assim, afrontando o statu quo corrente com a ideia de um contraponto. E, Sexify da Netflix tenta exercer tal função, mas falha na transmissão, em especial, porque opta por nadar na superfície do tema e seus tabus, deixando de mergulhar nos meandros do machismo estrutural e os derivados conflitos que se apresentam diante das mulheres na sociedade, e também na trama dessa produção polonesa.

Mesmo a busca de uma identidade e liberação do feminino aparece, em sua maior parte, de forma aleatória, sem um tratamento convincente dentro de uma estrutura narrativa muito mecânica, como que praticar, apenas, a posição papai e mamãe durante o ato sexual.

Nesse quesito, Sexify se compara à outra produção original Netflix, o drama fantasioso Sombra e Ossos, que também pouco aproveita a complexidade de seu material.

O pior momento, dessa tal superficialidade, vem logo de cara no primeiro episódio (e depois novamente no quinto episódio) quando o jovem Rafal supõe, sem ter a certeza ou consultar por esta, que a garota Natalia está interessada nele, e lhe dá um beijo inesperado, que a moça rejeita abruptamente. Em seguida, elas por elas, já que nada acontece no fio narrativo para apontar o absurdo no comportamento do jovem rapaz.

Matutemos: uma produção que almeja elaborar sobre a educação sexual, e consegue deixar de cumprir o Básico I sobre o tema, que é a consensualidade entre sexos, já é possível afirmar que vai pisando errado enquanto caminha.

Mulheres livres

Do trio das atrizes principais, apenas uma consegue flutuar com alguma nuance, diante de um roteiro tão seco de conflitos, esta é Maria Sobocinska, que faz o papel de Paulina, jovem garota de 23 anos, que está prestes a se casar com seu noivo militar, e sente que ainda não encontrou seu lugar no mundo ou quem realmente é, e vai experimentando, mesmo que randomicamente, enquanto segue em diante com seu noivado.

Talvez, no quinto episódio, que testemunhamos seu melhor momento na temporada, quando encontra a mãe de Monika, que é uma terapeuta/professora de yoga. Nessas aulas, podemos observar o que há de mais solar na reprimida Paulina.

No entanto, as outras duas pontas do tridente na trama, acabam deixando um tanto a desejar, sobretudo a protagonista interpretada por Aleksandra Skraba.

Mas, começando por Monika (Sandra Drzymalska), que faz o típico papel da jovem que tem problemas com autoridade, especificamente, pai e mãe. Tudo do fio narrativo de sua personagem soa vão e superficial, mesmo quando a atriz tenta (muitas vezes) provar que ela é mais do que os olhos podem ver (e é!). Todavia, tudo é tão facilitado nessas relações tempestuosas com seus pais, que nada surte efeito. Assim, fica difícil de se solidarizar com as angústias da jovem.

O pior ficou por último: Skraba ganhou uma personagem muito fechada, definitivamente. Porém, são nestes momentos que encontramos um ator ou atriz que se mostra capaz de imbuir algum entretom. É de se lamentar que a jovem não conseguiu praticar isso em cena, com um papel que pouco ofereceu emocionalmente ao assinante da Netflix.

Conclusão

Mas, fica um pequeniníssimo alento no episódio final da temporada, de modo que existe um clímax emocional bem funcional, e que tem a capacidade de empatizar aqueles que resistiram até a resolução dessa primeira parte da história do trio formado por Natalia, Paulina e Monika.

Separadas, elas oferecem muito pouco ao público, contudo, juntas parece que existe uma boa vibração em cena. Que a provável segunda temporada de Sexify, certifique-se de que elas tenham mais cenas juntas (como no episódio oito), e acima de tudo, de que percam o receio de mergulhar de cabeça e coração nas complexidades das mulheres e do sexo (pela perspectiva delas, obviamente).

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