Crítica – Tudo por Ela

Longa japonês da Netflix revela-se como uma falsa história de amor, que vai além da relação entre as personagens.

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Lembram-se da voz do narrador em (500) Dias com Ela (2009) de Marc Webb? Que no apresentar de seus protagonistas, dizia que aquela era uma história do tipo ‘garoto conhece garota, mas que não se tratava de uma história de amor!’. Então, é da mesma maneira que precisamos encarar Tudo por Ela, produção original da Netflix, só que no caso, ‘garota conhece garota’.

A história de Rei (Kiko Mizuhara) e Nanae (Honami Satô) se inicia nos tempos de escola, só que hoje, ambas com 29 anos de idade, vivem vidas diferentes. Até Nanae contatar Rei, após dez anos distantes. Rei descobre que sua antiga paixão sofre abusos físicos de todo tipo do marido, e ao ajudar Nanae, ambas fogem de uma realidade que pode destruir a vida das duas. Nessa escapada, sentimentos conflitantes ficam à flor da pele, enquanto buscam projetar qual deve ser o destino delas, de agora em diante.

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“Amor”

Tudo que seus olhos absorverem de Tudo por Ela, irá dar a impressão de que está assistindo um belo romance. Não está.

Mais a frente, quando estiverem rindo, muito alegres enquanto comem um bom almoço, vai parecer ainda mais com um filme romântico. Não é. E não se deixe enganar pela trilha sonora!

Perto da resolução, quando ambas se livram de algumas amarras e inseguranças que tinham, e finalmente conseguem se soltar uma com a outra, ali, definitivamente, o assinante Netflix irá sentir que está testemunhando a mais fervorosa paixão que viu na vida. Engano seu, não está, não.

A essa altura, é natural que o leitor esteja se perguntando, o porquê de tantas vezes reafirmar que o longa dirigido por Ryuichi Hiroki não é uma história de amor.

Apesar da classificação de Tudo por Ela indicar, exclusivamente, para maiores de 18 anos de idade (corretamente), é mais que sabido que muitos jovens com o íntimo fragilizado pelas contingências da vida, ou que sofrem de depressão e ansiedade (ainda mais em tempos de pandemia), recorrem as plataformas de streaming como a Netflix, corriqueiramente.

E, mesmo adultos vividos e experientes, possivelmente, tiveram momentos que imaginaram que estavam sentindo, ou diante do amor, e na realidade, não era aquilo de verdade. Mais do que natural, pode acontecer com qualquer um.

Para todos esses, por mais difícil que possa ser, é necessário perceber o teor ludibriador proposital que o diretor Ryuichi Hiroki imprime em sua narrativa.

Amadurecimento

Como filme, Hiroki se inspira, claramente, em Thelma & Louise (1991) de Ridley Scott, contudo, não busca a conscientização trágica do estado da mulher em uma sociedade que faz de tudo para descrê-las. Não, o objetivo de Hiroki é outro, neste quesito, podemos até estabelecer um comparativo com Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016) de Barry Jenkins, que criou uma história que visava comentar a relevância de se ter uma identidade, não apenas sexual.

Tanto Rei, quanto Nanae foram renegadas formas de amor durante toda a vida, inclusive, de si mesmas. Apesar de alguns exageros aqui e acolá, e momentos ruins com diálogos expositivos, o diretor Ryuichi Hiroki encheu o caldeirão de Tudo por Ela com situações, assuntos e temas que demonstram todo o processo que levou as duas à beira do precipício, figurativamente.

Aceitação da identidade sexual, vergonha da classe social que se encontra, falta de carinho e atenção dos pais, comportamento obsessivo, abuso e tortura física nas relações. Tudo isso, junto e misturado, para mostrar que o par Rei/Nanae nunca conseguiu identificar o amor no meio de tanta dor e caos. E, mesmo que finalmente pudessem desfrutar de um pouco de paz e consolo, isso nunca cobriria o vazio do que nunca houve antes.

Desta maneira, é digno de elogios, o trabalho da dupla de atrizes Kiko Mizuhara e Honami Satô, que se entregaram de corpo e alma em cena. Com todas as mudanças de humor e atitudes, mesmo nas situações onde podia se observar uma certa imaturidade nas ações da dupla, aqui, algo que Hiroki usou bem pela extensa duração (142 minutos) dessa produção original Netflix.

No fim, Tudo por Ela deixa uma boa impressão, já que Rei desperta para a dura realidade dos fatos, e possivelmente, poderá ganhar uma chance de provar, mais uma vez, que fazer tudo por ela, antes, é fazer de tudo por si.

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