Crítica – Eu Sou Todas as Meninas

Suspense sul-africano da Netflix falha como filme de mistério em obra sobre tráfico sexual de menores

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A Netflix tem dado cada vez mais atenção ao que tem acontecido (artisticamente e culturalmente) na África do Sul. Também em 2021, a plataforma de streaming global disponibilizou em seu catálogo a muito competente série de suspense Labirinto do Medo.

É inegável que séries e filmes internacionais, fora do âmbito hollywoodiano, sempre tem o que ensinar a todos nós, de modo que a arte, seja esta qual for, é um meio de educar o vizinho sobre quem é você no mundo, e qual foi a sua história até chegar aqui.

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Assim, após assistir Eu Sou Todas as Meninas de Donovan Marsh, já fica fácil de perceber que, entre tantas mazelas que o país mais ao sul do continente africano tem, infelizmente uma se destaca mais: abdução e tráfico de menores de idade.

Todavia, enquanto a série Labirinto do Medo consegue construir um arco narrativo pungente embebido no mistério (além de expansivo nas nuances), a obra dirigida por Marsh é ineficaz como thriller, e pior, não consegue afetar o assinante da Netflix abordando uma temática urgente, lamentavelmente, tão atual em nossa sociedade.

Em Eu Sou Todas as Meninas, somos apresentados a detetive de polícia Jodie Snyman (Erica Wessels), que é implacável em sua luta para exterminar o tráfico sexual de menores em seu país. Enquanto busca adentrar no cerne desse meio asqueroso, encontra um vigilante que também batalha pela mesma causa, assim, tentam destruir este sistema que é comandado por homens poderosos.

Roteiro

A frase é: “De um roteiro muito bom, eventualmente, pode acabar saindo um resultado ruim, agora, um roteiro ruim, quase que certamente, irá gerar um produto de qualidade baixa” (Observação: não considerar obras com intencional trash).

Bom, Eu Sou Todas as Meninas se encaixa nesse conceito do roteiro ruim.

Vale destacar, que o conteúdo dessa obra original Netflix é importante, assim como também é louvável valorizar o ato de qualquer artista em fazer um filme-denúncia sobre algo que assola a realidade do seu entorno.

Entretanto, é necessário saber como fazer essa mensagem chegar ao espectador de uma forma que este perceba como funciona o sistema que tanto deseja revelar, assim como também praticar um ato de comoção maior para que, como espectador, sinta o pesar de tudo aquilo que observa e busque empatizar-se com aqueles(as) que têm suas vidas estilhaçadas pelo trauma e sofrimento.

No primeiro quesito, sobre o funcionamento do sistema de tráfico, a obra de Donovan Marsh é clara e direta sobre o que quer transmitir. Ponto positivo!

Agora, quando falamos sobre envolver e comover o assinante Netflix com a história, Marsh não se saiu nada bem!

Em específico, por falhar de forma retumbante na construção de um filme policial de suspense. Até mesmo porque não há qualquer traço de suspense em Eu Sou Todas as Meninas, em vista que o roteiro entrega alguns elementos da história muito cedo, de forma expositiva.

Mais: em uma obra que já estipula algumas cartas marcadas para a morte, ainda construíram isso de uma forma que torna cada um dos atos (após o primeiro, claro) totalmente previsíveis. Ainda fizeram o favor de revelar todos os nomes chave desde o começo para sabermos exatamente quantos alvos serão parte deste “mistério”.

Alguém pode dizer – “Ah, mas e o filme Se7en: Os Sete Crimes Capitais (1995) de David Fincher? Neste também é sabido o número de vítimas.” Lembremos que a obra de Fincher, além de só revelar quem está por de traz de tudo apenas na parte final, tem no seu cerne, dois detetives de gerações e pensamentos diferentes tendo que entrar em acordo para tentar capturar um serial killer.

Enquanto, a produção Netflix de Donovan Marsh é completamente esvaziada na transmissão do material.

Conclusão

Não bastasse todos esses equívocos narrativos, ainda temos uma protagonista, interpretada por Erica Wessels, que não consegue convencer nem um pouco no papel de uma detetive de polícia, tamanha a quantidade de petecas que deixa cair durante a história. Muito coração (chorando várias vezes), e zero estratégia e racionalidade. Fez lembrar Anne Hathaway em A Última Coisa que Ele Queria, também no catálogo da Netflix.

Algum ponto positivo? Sim, a interpretação da atriz Hlubi Mboya, que se destacou e entregou algo muito tocante, fazendo jus a uma temática tão importante, e pouco discutida.

Pena que Mboya esteja sozinha nessa briga.

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