Crítica – Monstro

Drama social da Netflix é asséptico, e incapaz de se encontrar entre o acadêmico e o moderno.

Publicadohá pouco tempo
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Antes de começar a dissertar sobre Monstro, que se encontra disponível no catálogo da Netflix, foi preciso fazer uma pesquisa para descobrirmos quem é o diretor por de trás de tal obra. Seu nome é Anthony Mandler, renomado diretor de videoclipes que já dirigiu mais de cem (!) produções musicais.

A lista dos renomados artistas que trabalharam com Mandler é enorme, como por exemplo: Black Eyed Peas, Snoop Dogg, Common, 50 Cent, Eminem, Nelly Furtado, Rihanna, The Killers, Beyoncé, Jay-Z, Duran Duran, Spice Girls, etc…

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Tudo isso para dizer que Monstro é o seu primeiro trabalho como cineasta ficcional, sendo que o seu segundo projeto intitulado Surrounded (ainda sem tradução no Brasil), estrelado por Letitia Wright (Pantera Negra) e Jamie Bell (Sem Remorso) já está na fase de pós-produção, e pode ser que chegue ainda este ano.

Uma pena que a sua primeira produção ficcional ainda é um videoclipe, só que estendido por pouco mais de uma hora e meia. No meio disso existe uma história, que nos apresenta Steve Harmon (Kelvin Harrison Jr.), jovem de 17 anos de idade, muito esperto e carismático que estuda para se tornar um cineasta no futuro. Porém, seu mundo vira de cabeça para baixo quando é acusado de um assassinato. A partir daí, iremos acompanhar sua jornada dramática, enquanto tenta provar sua inocência no caso.

Habemus videoclipe

De tantos problemas encontrados em Monstro da Netflix, o pior deles se encontra no cerne do filme, no caso, seu roteiro escrito a seis mãos: Radha Blank, Cole Wiley e Janece Shaffer.

É perceptível que a produção de 2018, mas lançada em 2021, quer ser muitas coisas de uma só vez: filme de tribunal, obra de viés social, acadêmico no fio narrativo mas com atmosfera moderninha, além de conter idas e vindas temporais, e alguns outros elementos.

Todavia, ao abraçar vários conceitos e ideias, tudo o que conseguiu foi esvaziar o que, definitivamente, é uma história intensa e relevante para os dias atuais, principalmente se levarmos em consideração o que aconteceu em 25 de maio de 2020, em Mineápolis, estado de Minnesota, Estados Unidos.

Neste dia, George Floyd foi brutalmente assassinado pelo policial Derek Chauvin no meio da rua. E, desde então, houve uma comoção geral no mundo todo, e um levante que ergueu bandeiras, cartazes e vozes que bradavam a frase Black Lives Matter (no traduzido, Vidas Negras Importam) para todos que precisavam ouvir.

Assim, uma obra como Monstro, por abordar como é a vida e os olhares de julgamento que um jovem de pele negra recebe em uma sociedade sistematicamente racista, sempre se mostrará como uma forma de serviço público mais que bem-vinda. Contudo, de pouco adianta tanta boa intenção, se no miolo não há praticamente nada pelo que valha a pena lutar.

Resumindo: a produção original Netflix dirigida por Anthony Mandler é asséptica, sem brilho ou intensidade, e considerável parte disso é decorrente de um roteiro muito desconjuntado, que não dá segmento a história sendo “contada”. Parece que nada é construído, e os elementos estão sendo distribuídos randomicamente, e o assinante vai testemunhando tudo isso acontecer, mas de forma distante.

Soma-se a isso também, uma montagem que lembra muito a estética de videoclipe, especialmente, quando a narrativa pratica alguns flashbacks que focam a rotina do dia a dia no bairro do Harlem, na cidade de Nova York.

Elenco

Infelizmente, a carismática e versátil Jennifer Hudson se encontra muito apagada aqui. Mas, é digno de nota lembrar o talento vocal dela em obras cantadas, como Dreamgirls (2006) de Bill Condon, ou mesmo no (literalmente) horroroso Cats (2019) de Tom Hooper.

Já o ator Jeffrey Wright (franquias 007 e Jogos Vorazes), consegue tirar leite de pedra dessa produção original da Netflix. A cena dele visitando seu filho na prisão é vibrante e repleta de nuances na expressão do olhar.

Agora, quem merece o maior destaque é o protagonista Steve Harmon, papel do jovem ator Kelvin Harrison Jr., que faz o mesmo que seu colega de elenco Jeffrey Wright, só que elevado a quinta potência. E, apesar do excesso de voice-over em Monstro, o astro foi capaz de traduzir todas as emoções em cena, das mais sutis, até as mais estridentes.

Uma pena que tal elenco não teve disponível uma narrativa mais cirúrgica, para poder desfilar toda a energia preservada.

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