Crítica: O Legado de Júpiter – 1ª Temporada

Série da Netflix sobre super-heróis segue o manual, enquanto aborda relações disfuncionais entre pais e filhos.

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Depois de assistir a primeira temporada de O Legado de Júpiter, série original sobre super-heróis da Netflix, vêm a mente duas formas artísticas diferentes: uma cena e uma canção.

A cena, está na parte final do drama romântico P.S. Eu Te Amo (2007) de Richard LaGravenese, onde vemos a mãe da protagonista dizer qual é a pior coisa que pode acontecer com sua cria para aqueles que são pais (depois de perder um filho, claro): assistir de camarote seus filhos seguindo o mesmo caminho que os pais, e não poder fazer nada a respeito, deixando uma sensação de impotência e muita raiva por não conseguir consertar isso.

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Já a outra, é a música-hino ‘Como Nossos Pais’, escrita pela lenda Belchior, e reconhecida na voz marcante de Elis Regina. No refrão, mais especificamente, onde ouvimos sobre a dor de perceber que apesar da vida que escolhemos e vivemos, ainda assim, nos sentimos e nos encontramos no mesmo lugar e situação de nossos pais.

Em cima desta gênese, O Legado de Júpiter apresenta a primeira geração de super-heróis do mundo, que vêm mantendo o planeta a salvo por quase um século. Contudo, com a idade avançando, chegará o momento onde seus filhos terão que assumir o lugar de preservadores da paz e tranquilidade. Enquanto as tensões crescem, fica a questão de se estes serão capazes de manter o nível de excelência, além do legado de seus pais para a sociedade atual.

Gerações

Uma das frases mais repetidas por nós é a de que o mundo dá voltas.

Destrinchando essa máxima, chega-se à conclusão que, vez ou outra, em um determinado momento, nos encontraremos novamente (repetidamente) no mesmo lugar.

De todos os argumentos e temas dessa produção original Netflix, este é o que mostra maior maturidade dentro da narrativa, em especial, por usar como pano de fundo momentos históricos, como a Crise de 1929, quando ocorreu a queda na bolsa de valores que levou a sociedade, principalmente os Estados Unidos, à Grande Depressão que assolou o país por toda a década seguinte.

E, já que o mundo dá voltas, tivemos outra crise quase tão calamitosa quanto a de 1929!

Em 2008, tivemos a chamada Grande Recessão, consequente do colapso do mercado imobiliário dos Estados Unidos relacionado à crise financeira de 2007-2008 e à crise das hipotecas subprime. Óbvio, que o cinema também usou disso para apresentar ao público os bastidores desse apocalipse econômico, como no excelente Margin Call – O Dia Antes do Fim (2011) de J.C. Chandor, e o irregular A Grande Aposta (2015) de Adam McKay.

Deste modo, chegamos à conclusão que nós, pais e filhos, encaramos situação muito similar aos nossos bisavós e avós. A história vive se repetindo!

Deixando aquela dúvida no ar: será que aprendemos alguma coisa diante destas adversidades?

De acordo com O Legado de Júpiter, aparentemente, não! Basta observar a lacuna existente entre as gerações, tanto a nível pessoal quanto no entendimento social das mudanças que ocorreram com o passar das décadas.

Traumas

Se a série original da Netflix acerta ao circular por nossas distâncias geracionais sociais, no quesito pessoal, tudo o que faz é seguir o manual básico das relações.

Dentre os pais e filhos abordados nessa temporada de O Legado de Júpiter, o foco recai na relação do protagonista Sheldon Sampson/Utópico (Josh Duhamel) e seus filhos Brandon/Paradigma (Andrew Horton) e Chloe (Elena Kampouris).

De início, logo no primeiro episódio ‘Pela luz do amanhecer’, observa-se que o jovem Brandon parece buscar ser a figura do filho perfeito, algo que seu pai herói “perfeito” não consegue perceber em seu rebento.

O super-herói Utópico criou O Código dentro da União da Justiça (grupo de elementos dotados de poderes incríveis), que é como uma cartilha moral do comportamento ético que todos os membros desta liga devem seguir ao combaterem o mal, sejam os mais velhos, ou mais jovens.

O problema é que o mundo que os paladinos da primeira geração conheciam já não é mais o mesmo, nada é preto no branco, e vice-versa. E, esses graus entre os tons deixam tudo mais abstrato e confuso. Consequentemente, tudo, incluindo os novos inimigos parecem mais perigosos e ameaçadores, ainda mais para a classe de heróis mais jovens que sentem que tudo está no nível matar ou morrer.

Na essência, Sheldon Sampson é um homem conservador (vide a conversa com seu “terapeuta”, único personagem que consegue compreender sua linha de pensamento), ou seja, tenta acima de tudo, preservar o ideal do que ajudou, ao lado da União da Justiça, construir ao longo de algumas décadas. E, claramente, sente-se ameaçado ou vulnerável quando alguém tenta colocar um asterisco em seu livreto de normas.

Aí entra, o que toda boa história precisa para ser notada positivamente: um contraponto.

Esta é Chloe, papel da jovem Elena Kampouris, sua filha rebelde e viciada em cocaína, que lamentavelmente é subutilizada nessa temporada. Mas, existe claramente uma prospecção de melhora em uma provável segunda parte de O Legado de Júpiter na Netflix. O quarto (e mais sensível) episódio ‘Todos os demônios’ é a maior prova disso! Talvez, o grande poderoso Utópico não tenha percebido quem é o real escolhido para proteger o mundo, de agora em diante.

Conclusão

Já que, a série da Netflix apenas segue o código… melhor dizendo, protocolos, para abordar as relações disfuncionais das personagens. E, dentro destas formalidades narrativas, inclui-se uma obra com cenas de ação razoáveis que apelam para o pior do cinema de Zack Snyder (slow motion incansáveis), em um roteiro do tipo ‘vai e vem’ no tempo, com flashbacks aleatórios a gosto do chef. Sobra pouco a ser exaltado, em particular, na segunda metade da temporada de O Legado de Júpiter da Netflix.

Mesmo assim, a série criada por Steven S. DeKnight (Círculo de Fogo: A Revolta; Marvel – Demolidor) deixa um bom ‘cliffhanger’ para os assinantes da plataforma digital de streaming. Descobrir quem realmente é o super-herói, agora, super vilão Skyfox?

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