Crítica – Awake

Mix de sci-fi/ação da Netflix não possui conflitos em enredo involuntariamente cômico

Publicado em 9/6/2021
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

A Netflix é bem-humorada. Muito bem-humorada!

Vocês acreditariam se alguém dissesse que a plataforma mundial via streaming foi capaz de fazer uma comédia apocalíptica sci-fi?!

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Não?! Então, podem começar a acreditar, pois está disponível Awake, tradução para acordado ou desperto, que para o assinante vai soar como uma enorme ironia, já que ficar com os olhos abertos durante o longa dirigido por Mark Raso será das tarefas mais hercúleas.

Bom, é preciso fazer justiça, de modo que em alguns momentos, quando não estiver segurando o peso das próprias pálpebras, estará rindo do que vê em cena.

Sim, este é o incomparável Awake que nos “conta” sobre uma onda de histeria que assolou o globo terrestre, após uma catástrofe misteriosa que desregulou todas as aparelhagens eletrônicas, e pior, tirou dos seres humanos a capacidade de conseguirem dormir. Cientistas correm contra o relógio para encontrar uma cura para esta inexplicável insônia, antes que piore com efeitos fatais, eliminando a raça humana. Em paralelo, Jill (Gina Rodriguez), uma ex-militar, descobre que sua filha mais nova Matilda (Ariana Greenblatt) pode ser a chave para a salvação da humanidade. Assim, deve decidir: proteger sua garotinha a qualquer custo ou sacrificar tudo para tentar salvar o mundo?

100 metros sem barreira

É inegável que ao ler do que se trata Awake da Netflix, pensemos que existe, sim, uma boa premissa ali. No entanto, de nada adianta ficar apenas no ponto ou ideia de que se parte para formar um raciocínio. É preciso saber como reproduzir isto pela próxima hora e meia de exibição.

E, muito lamentavelmente, a obra dirigida por Mark Raso não consegue estabelecer, desenvolver ou sustentar, absolutamente nada por toda a sua caótica narrativa.

Antes de entrarmos sobre o que existe dentro de Awake, uma breve noção de estrutura de roteiro em cinema de gênero:

Iniciamos qualquer história como uma introdução (1º ato) de tempo, ambiente e personagens. Logo em seguida, temos o que chamamos de ponto de virada, aquele momento onde algo incomum ou inesperado acontece. Aí adentramos o núcleo (2º ato) da trama. Nessa parte, é onde encontramos todos os conflitos e desafios que os personagens terão de enfrentar se quiserem chegar ao fim de sua jornada. Completamos com um segundo ponto de virada, que traz algum novo elemento ainda não visto, pensado ou sentido, até aquele momento. Vem a resolução (3º ato) dos acontecimentos, e em consequência, o final da história.

Isso explicado, retornamos ao longa da Netflix de Mark Raso, que apresenta sua primeira virada com apenas seis minutos rolando (revelando a solução de todo o problema). Quando chega o segundo ato, e com ele supõe-se que viriam todos os elementos criativos, complicadores e emocionais que são necessários para o envolvimento em uma boa trama. Todos estes aparecem, porém, sem o mínimo básico de construção atmosférica, deixando todos os elementos soltos pela narrativa.

Pior: para nos envolvermos com o drama do(a) protagonista, é preciso que possamos sentir ou perceber o peso das adversidades encontradas pelo caminho. Mas, nesse quesito, nada ajuda o assinante Netflix, pois tudo é muito (!) facilitado para a personagem principal, que ganha uma baciada de deus ex machinas pelo roteiro da dupla Mark Wages/Joseph Raso; sem contar que a performance de Gina Rodriguez, apesar de vigorosa, depende exclusivamente das reações a fatores externos acontecendo, que se mostram cada vez mais insignificantes, e sem qualquer propósito narrativo.

Comédia involuntária

Não bastasse esse rocambole de situações sendo empilhadas, acontece o que tantos cineastas temem em seus projetos que é a prática da comédia involuntária. Logo vem a mente o filme mãe! (2017) de Darren Aronofsky.

Simples notar que o diretor de Awake tem intenções mais profundas com o enredo, como na cena onde fiéis em uma igreja falam do sacrifício por um bem maior, enquanto um cientista explica a disfuncionalidade do sono no ser humano, tendo bíblias atiradas contra a sua face; ou quando mãe e filho param para admirar o céu estrelado, denunciando os meios de tortura do exército americano, enquanto o Apocalipse dos não-sonolentos come solto pelo planeta.

Essa e tantas outras situações absurdamente mal encenadas, ou mesmo deslocadas pelo fio narrativo, criam a probabilidade para o riso muito facilmente.

Deixando a obra de Mark Raso propondo o tédio, ou o riso involuntário. Seja como for, nenhuma das duas opções será capaz de preencher o assinante da Netflix, infelizmente.

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio