Crítica: Black Summer – 2ª Temporada

Série sobre zumbis da Netflix encanta pela cinematografia enquanto medita sobre as condições humanas

Publicado em 17/6/2021
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Mesmo para aqueles que não são amantes do rock and roll, especialmente nas vertentes mais agressivas e pesadas, quando ouvem a frase ‘Welcome to the Jungle’, geralmente, sabem do que se está falando.

Lançada em 1987, a música-hino ‘Welcome to the Jungle’ pertencente à banda de hard rock americana Guns N’ Roses, tornou-se hit quase que de modo instantâneo. A tradução do título da canção significa ‘Bem-vindo à Selva’. Mesmo hoje em dia, argumentar o que qualquer obra musical significa pode acabar sendo algo extremamente reducionista de um ponto de perspectiva humano, pois cada um recebe e percebe as coisas de diferentes formas.

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Ainda assim, não dá para negar que houveram alguns parâmetros que foram surgindo com o tempo, no caso da música composta pela banda Guns N’ Roses: alguns dizem que o vocalista e letrista Axl Rose ouviu um mendigo falar exatamente uma das frases que se encontra na letra, ao descer do ônibus quando chegou na cidade de Nova York; outros dizem que é apenas uma canção que fala sobre sexo.

Também há aqueles que julgam que o conteúdo lírico da faixa comenta sobre a selvageria humana em suas variadas formas (incluindo uma crítica ao sistema capitalista), assim, entendemos que a selva do título, na realidade é todo o nosso planeta, E, que nós todos somos os animais selvagens que habitam essa mata.

Na letra diz: “You can have anything you want, but you better not take it from me”. Traduzindo “Você pode ter o que quiser, mas é melhor não tirar de mim”.

Tal frase define perfeitamente o que será tratado na série Black Summer, uma produção original da Netflix, que retorna para uma segunda temporada.

No fim da primeira parte, vimos Rose (Jaime King) finalmente conseguindo se reunir com sua filha Anna (Zoe Marlett). Agora, mãe e filha, ao lado de Sun (Christine Lee) e Spears (Justin Chu Cary) continuam sua batalha por sobrevivência em um mundo infestado por zumbis, além de humanos do pior tipo. As estações passam, o verão acabou. Porém, chega o inverno trazendo as geadas, agora, a selva congelou e os perigos parecem que só pioraram para os nossos sobreviventes.

Terra selvagem

A produção desenvolvida por Karl Schaefer e John Hyams para a Netflix é baseada em uma outra série derivada chamada Z Nation (2014-2018). Logo após o fim desta, a provedora mundial via streaming não deixou os fãs do gênero apocalipse zumbi, órfãos por muito tempo, de modo que a primeira temporada de Black Summer estreou em 2019.

A conexão entre Black Summer e sua série pai têm uma abordagem semelhante à relação entre Fear the Walking Dead e The Walking Dead, respectivamente. Desta maneira, não há planos para qualquer um dos personagens de Z Nation aparecer na série produzida pela Netflix.

Na realidade, a série criada por Schaefer/Hyams mais lembra a série de jogos de videogame Resident Evil (Biohazard), criada pela Capcom, que foi responsável por definir o gênero de terror de sobrevivência e trazer zumbis de volta à cultura popular no final do século passado.

Assistir Black Summer não é tão diferente de jogar qualquer um destes jogos do tipo sobrevivência, até mesmo porque é exatamente isto que todos os personagens centrais da trama irão fazer durante toda a segunda temporada que se encontra disponível no catálogo da Netflix.

E, o mais interessante é que ao longo dos oito episódios desta parte, iremos ver o quarteto Rose, Anna, Sun e Spears divididos em três blocos diferentes, como as três pontas de um tridente. Praticamente, como um game onde escolhe jogar com um personagem e, enquanto joga observa que seus caminhos lá na frente irão cruzar com o de um companheiro sobrevivente, no caso, um outro personagem que também se encontrava disponível para jogabilidade.

Inclusive os cenários de Black Summer lembram uma atmosfera gamer. Por toda a temporada!

Alguns episódios, como ‘Jogo de cartas’ e ‘Guerra fria’ que se passam dentro de uma bela mansão no meio do nada, oferecem todo um cenário para o mix de ação/terror; os dois episódios finais também fazem o mesmo, já que em ‘A estação’ vemos mãe e filha, além de um acompanhante que não se pode confiar, em uma estação de esqui que pode trazer lembranças do famoso Hotel Overlook do clássico do terror O Iluminado (1980) de Stanley Kubrick, enquanto o episódio final se passa em um hangar com perseguições, troca de tiros, e até uma grande explosão.

Cinematografia

De nada adiantaria estabelecer ambientes e cenários tão instigantes, se os assinantes da Netflix não conseguirem sentir a magnitude do que se observa em tela. Ainda bem, que foram escalados dois profissionais que sabem bem se aproveitar de tudo isso!

O duo composto por Yaron Levy e Spiro Grant fazem a direção de fotografia em Black Summer e, juntos entregaram uma das grandes qualidades desta produção original Netflix.

Ambos alternaram dois estilos: primeiro, uma câmera na mão que acompanha a ação bem de perto, incluindo as cenas de ataques zumbis (às vezes, propositadamente trepidante); agora, o segundo estilo propõe uma maior absorção do drama vivido pelas personagens, pois usa de câmera fixa para assim podermos analisar com calma e precisão cada um dos detalhes dentro do quadro (frame).

Além disso, existe um grau de beleza surreal em alguns shots de Black Summer, que não são apenas esteticamente chamativos, como encorporam a força narrativa em cena, como no episódio ‘O tesouro’ onde testemunhamos Rose, Anna e um terceiro personagem à encosta de um morro coberto de neve, em três pespectivas de tamanho diferentes, acentuando a hierarquia de poder na determinada cena.

Conclusão

No fim desta segunda parte de Black Summer da Netflix fica a impressão (ainda mais) clara de que a série produzida por Schaefer/Hyams é muito mais do que uma vitrine para a ação envolvendo os mortos-vivos. Certamente, o episódio ‘Cavalo branco’ vende essa ideia de forma excepcional, melhor do que qualquer outro momento na temporada.

Pois, de fato, o enredo revela uma proposta distinta de reflexão sobre nossas condições humanas, que envolvem nossa propensão à violência territorial, medo de perder, e aprendizado que vem quando nos libertamos do passado e as dores que carrega consigo.

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