Crítica: Sex/Life – 1ª Temporada

Série da Netflix comenta casamento, feminilidade e busca por identidade de modo muito maduro

Publicado em 25/6/2021
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Se nunca ouviram pessoalmente em uma cerimônia de casamento, possivelmente, já ouviram falar de casais que trocaram seus votos de matrimônio, citando o trecho 1 Coríntios 13-14 da Bíblia Sagrada, que diz:

“O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

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Lindo, não?

Natural imaginar pais, madrinhas, padrinhos e convidados derramando duas ou três lágrimas no momento que um dos noivos profetiza tal discurso na frente de todos. Desavergonhadamente, de puro coração.

Claro, que para os protagonistas da cerimônia, tais palavras possuem um sentido lá, quando estão à vista de todos, porém, quando a realidade recai, exclusivamente sobre o casal, fica a pergunta: por quanto tempo que ambos conseguirão perseverar sob tais condições?

Esta e outras perguntas relacionadas ao casamento, além de outras que falam sobre o lugar da mulher no pós-casório, e as dúvidas e conflitos que brotam enquanto cônjuges tentam balancear trabalho, filhos e prazer, não (!) serão respondidas na madura série Sex/Life, uma produção original da Netflix.

É isso mesmo o que leu! O objetivo aqui não é esclarecer algo tão complexo e mutável como o casamento, mas apresentar (sem julgamentos moralistas) as variáveis e mudanças individuais afetando a própria perspectiva dentro do acordo matrimonial, e como ambos vão rebolando, adaptando e encaixando-se nos novos preceitos e, sem deixar de lado que tais transições infligem um custo altíssimo em determinadas relações. Perigosos, ao nível de auto-destruição em certos casos.

Deste modo, acompanharemos em Sex/Life da Netflix, Billie Connelly (Sarah Shahi), casada, mãe de dois, que vive nos subúrbios junto de seu marido Cooper Connelly (Mike Vogel). Tudo parece correr bem na casa da família Connelly, até o momento que Billie começa a rememorar sua juventude e todas as aventuras amorosas e sexuais envolvidas, em especial, seu relacionamento fervoroso com Brad Simon (Adam Demos). Cooper descobre o diário pessoal de sua esposa, e fica confuso com tudo o que leu, começando a questionar seu casamento, enquanto Billie tenta de todas as formas cessar estas dúvidas e mal-estar atrapalhando sua relação. No entanto, será que ela conseguirá resistir suas próprias fantasias, além do charme inquestionável de seu ex-namorado?

Triângulo “amoroso”

O drama desenvolvido por Stacy Rukeyser e Belle Nuru Dayne é baseado no romance 44 Chapters About 4 Men de B. B. Easton (no traduzido, 44 Capítulos Sobre 4 Homens). Mas, não se deixe levar pelo título infeliz, pois Sex/Life tem muito a dizer.

Melhor: o faz de forma madura, explorando as verticais e horizontais de uma relação amorosa.

Pode-se dizer que comentar sobre tal série é tarefa complicada, pelo fato de que surpreende o tanto que o material apresentou pelos oito episódios.

E, o que torna tudo ainda mais atrativo para o assinante Netflix é que testemunhamos os acontecimentos na vida de Billie, mudando e ganhando novas formas ao longo da temporada.

Exemplo: as incontáveis cenas de sexo (flashbacks) envolvendo as personagens Billie e Brad, que no começo pareciam mais um símbolo do que é a relação carnal, para depois ganharem novas tonalidades, algo com mais ternura e suavidade, chegando em um ponto de conexão universal entre parceiros.

Quando a narrativa toma essa rota, pouco a pouco, vai aprofundando a força na relação dos ex-amantes. É como se ao revelar os detalhes do passado, aumentasse o embaralho no íntimo pessoal da protagonista no tempo presente.

Pela perspectiva do marido, papel de Mike Vogel, também observamos situações muito chamativas. Das mais humoradas (e difíceis de aceitar), como checar o tamanho do “pacote” do ex de sua esposa no pós-treino; ou daquelas que mostram o ápice da insegurança masculina no relacionamento, onde o marido sente-se na obrigação de se tornar outra pessoa na tentativa de salvar o que tem com a mulher que ama.

Também é abordado o sintoma da codependência nas relações afetivas. De maneira que impressiona testemunhar o nível de fixação que Billie e Brad mostram um com o outro. O que deveria ser insinuação, na verdade, é pura tortura.

Tradicional vs. Alternativo

A palavra-chave aqui é: amadurecimento.

Algo no mínimo cômico, pois o que veremos nesta temporada de Sex/Life, aparentemente, passará longe de qualquer atitude madura e pensada por parte de todos os personagens envolvidos neste triângulo, incluindo a melhor amiga de Billie, a psicóloga Sasha Snow (Margaret Odette). Assistir o trio tentando arrumar as coisas, e no fim, só piorando tudo, parece obra de Moe, Larry e Curley do grupo Os Três Patetas.

Tudo isso deve parecer absurdamente estranho, mas ficou claro que esta produção Netflix quis exibir nesta primeira parte pessoas despreparadas para os relacionamentos e, tentando consertar o veículo em movimento. É óbvio que nesse processo, todos saiam um tanto machucados.

Todavia, o maior acerto da produção encabeçada pela dupla Rukeyser/Dayne foi em implicar o peso das consequências nas circunstâncias criadas por cada uma das pernas deste tripé. Nada do sofrimento e raiva passados foi gratuito.

De modo algum existe algo que defina melhor isto, que os episódios derradeiros desta primeira temporada. Em ‘Sábado à noite numa cidade pequena’ e ‘A escolha certa’ iremos presenciar o pior e o melhor de cada um dos três. Que resume de forma harmoniosa tudo o que foi construído até o fim desta parte.

Conclusão

Interessante como o último episódio de Sex/Life da Netflix vai te levando por um caminho, para logo em seguida, subverter isto de modo natural. Condizente com a proposta analisada até aqui.

Certamente, as cenas finais devem pegar o assinante de surpresa, em vista que agora percebemos um novo despertar em Billie, que não se contentará com as migalhas, abrindo espaço para uma jornada em território ainda mais sinuoso.

Sem final feliz, nem triste. Apenas o dia seguinte… e a promessa de um jogo arriscado de causa e consequência.

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