Crítica: Sweet Tooth – 1ª Temporada

Série fantástica da Netflix comenta era pandêmica em história de aventuras muito comovente

Publicado em 4/6/2021
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Quando o canadense Jeff Lemire, escritor e ilustrador, lançou em 2009, a série de quadrinhos Sweet Tooth pela Vertigo, uma subdivisão da DC Comics, logo ganhou o apelido de “fusão de Mad Max com Bambi”.

Faz sentido!

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De modo que estamos retratando um mundo pós-apocalíptico. Não de areia e secura, mas de muito verde, porém com uma porcentagem bem mais reduzida de seres humanos.

Já, o aspecto Bambi vem pelo protagonista da história, o menino híbrido Gus, que possui chifres e orelhas similares a de um cervo e, que é caçado por homens que se julgam dominadores da natureza.

Só por isso, já seria mais do que suficiente para acompanharmos a nova série original da Netflix que leva o nome da série de quadrinhos de Jeff Lemire. Porém, a produção encabeçada pelo criador Jim Mickle vai além, pois embebe o material em uma atmosfera Spielbergiana que traz muito coração para as aventuras do jovem Gus.

Dez anos atrás, “O Grande Colapso” causou estragos no mundo e levou ao misterioso surgimento de híbridos – bebês nascidos parte humanos, parte animais. Sem saber se os híbridos são a causa ou o resultado do vírus, muitos humanos os temem e caçam. Depois de uma década vivendo com segurança em sua casa isolada na floresta, um menino-cervo híbrido protegido chamado Gus (Christian Convery) inesperadamente torna-se amigo do andarilho Jepperd (Nonso Anozie). Juntos, partiram em uma aventura pelo que restou da América em busca de respostas – sobre as origens de Gus, o passado de Jepperd e o verdadeiro significado do lar. Mas, a história deles está cheia de aliados e inimigos inesperados, e Gus rapidamente descobre que o mundo exuberante e perigoso fora da floresta é mais complexo do que ele jamais poderia ter imaginado.

A era da pandemia

Sweet Tooth ficou conhecida como a série produzida pela companhia Team Downey, que tem como seus fundadores, o casal Susan Downey e Robert Downey Jr., o eterno Homem de Ferro dos filmes da Marvel Studios.

Não estranha o fato do ator multimilionário investir cada vez mais em produções daqui em diante. Quando se conquista o mundo como o fez na última década, ganham-se algumas liberdades e uma porrada de privilégios. Choca menos ainda, saber que esta produção original Netflix é baseada em uma série de quadrinhos. Vale lembrar: de uma rival da Marvel.

E, percebe-se que a Team Downey aproveitou a onda de produções que resolveram abordar assuntos relacionados ao nosso momento atual na história. Só a plataforma Netflix lançou quatro produções diferentes em tempos recentes, que comentam a era pandêmica que (ainda) vivemos.

São estas: Amor e Monstros (2020) de Michael Matthews; Passageiro Acidental (2021) de Joe Penna; Oxigênio (2021) de Alexandre Aja; e a animação japonesa Eden (2021) de Yasuhiro Irie.

Repararam o fator comum entre as obras citadas?

Entre as quatro, rondamos o tema pós-apocalíptico, enquanto trabalhamos com o gênero da ficção científica. Substitua o elemento sci-fi por fantasia, temos Sweet Tooth da Netflix.

Road movie

A série produzida por Jim Mickle é, em sua essência, um filme de estrada (ou road movie). Conhecidas histórias de viajantes que almejam sair ou fugir mundo afora atrás de algo ou alguém.

No entanto, quando estão pelo caminho irão se deparar com situações inusitadas que vão mudando suas percepções de como são realmente as coisas. São os típicos enredos que a personagem começa de um jeito, e ao final, independente do fato de encontrarem o que procuravam ou não, terminam avistando uma diferente perspectiva da vida. Tirando algumas exceções, como o incomparável Despedida em Las Vegas (1995) de Mike Figgis, em regra, assim são os filmes (ou séries) de estrada.

Adiciona-se a isso, o fator coming-of-age (tramas sobre amadurecimento) elaborando um escopo bem amplo para discorrermos as aventuras de um menino mais do que especial.

Nessa categoria, Steven Spielberg reina com sobras!

Prático imaginar que o criador Jim Mickle sabe disso, de maneira que é fácil identificar a aura Spielbergiana em Sweet Tooth.

Muitos questionam o valor do autoral no cinema de um dos mais populares cineastas entre nós. Sem escorregar em uma argumentação, que geralmente inebria-se em egos fetichistas, é confortável afirmar que o diretor hollywoodiano trabalha, em uma de suas facetas, a busca pelo conhecimento ou verdade. E, é nessa transição dura e inevitável que amadurecemos quem somos ou miramos ser.

Alguns exemplos disso, são: E.T. O Extraterrestre (1982); Império do Sol (1987); Indiana Jones e a Última Cruzada (1989); Hook – A Volta do Capitão Gancho (1991); e A.I. – Inteligência Artificial (2001).

Será algo de fácil identificação enquanto assiste a esta produção da Netflix, encontrar as referências Spielbergianas espalhadas pelo enredo. Um tanto espantoso, dado que pelo primeiro episódio ‘Saindo da mata’, fica a impressão de que circularemos por um terreno similar ao ótimo A Estrada (2009) de John Hillcoat, baseado na obra de Cormac McCarthy.

Esperança

A atração do assinante Netflix com o material de Sweet Tooth fica muito facilitada, pois há uma entrega emocional bem calibrada pela narrativa. Existe uma doçura inquestionável no protagonista interpretado pelo carismático Christian Convery, que vê o mundo através dos olhos da inocência, mas esperança inabalável pela grande exploração.

O contraponto disso é o desinteresse e rigidez de Jepperd, papel de Nonso Anozie, que desde o primeiro momento mostra que aquele tamanhão todo, mais do que assustar e afrontar os inimigos, é uma muralha que usa para encobrir as dores de um trauma passado. Todavia, tal abalo emocional guardado será estilhaçado aos poucos pela esperança do menino híbrido Gus.

Esperança.

Essa é a palavra-chave em um lugar que está a beira de uma terceira onda do vírus. Sim, serve tanto para a América fantasiosa de Sweet Tooth, como para a calamitosa situação em nosso próprio país.

Sorte nossa, que produções como esta vêm para engrandecer nosso íntimo tão machucado, ao longo da pesarosa temporada pandêmica.

De forma que, Sweet Tooth, sabe muito bem do que precisamos para nos mantermos nestes tempos: a disponibilidade para o abraço e a fé na ciência.

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