Crítica – Ele é Demais

Remake teen da Netflix tem boas intenções, mas falha na tentativa de parecer atual ou crível

Publicado em 27/8/2021
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No final da década de 90, em especial, o ano de 1999, estabeleceu-se um marco para o cinema teen em Hollywood, com uma pancada de lançamentos que figuraram altas bilheterias, e garantiram certo status ‘cult’ para algumas obras daquele ano.

Umas foram razoavelmente apresentáveis, sem chegar perto do ponto mais alto da montanha, como por exemplo, Nunca Fui Beijada, estrelada pela mundialmente reconhecida Drew Barrymore; outras surpreenderam e foram capazes de criar algo de notável valor narrativo, como 10 Coisas que Eu Odeio em Você, adaptação moderna da clássica comédia shakespeariana A Megera Domada, que revelou o talento de Heath Ledger (1979 – 2008) para o mundo.

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Agora, criar um fenômeno cultural de sucesso como fez American Pie – A Primeira Vez é Inesquecível, já é algo muito mais raro de se ver. O longa-metragem dirigido por Paul Weitz, que estreava na função, foi um grande retrato da jovem, ansiosa e insegura mente masculina, entre o final do século passado e o início deste. Além de ter sido um dos primeiros exemplos, de como a tecnologia poderia ser usada como uma prática bullying para as gerações posteriores.

Assim, fica o questionamento pela opção de recriar a comédia romântica Ela é Demais (1999) de Robert Iscove em tempos atuais, de maneira que tal obra, apesar de uma bilheteria consideravelmente bem-sucedida, já apresentava poucos valores narrativos que realmente valessem o retorno, ainda mais para a chamada geração Z (GenZ), dispondo apenas de um único diferencial nesta nova versão: a inversão dos papéis.

Agora, Ele é Demais, que já se encontra disponível no catálogo da Netflix, apresenta a vida diária de Padgett (Addison Rae), uma adolescente influenciadora digital, que teve uma humilhante separação diante das câmeras, tentando dar a volta por cima. Ela aceita uma aposta arriscada para salvar sua reputação: ela jura que pode transformar o desalinhado antissocial Cameron (Tanner Buchanan) no rei do baile de formatura do colégio. Porém, as coisas se complicam quando ela percebe que está se apaixonando por ele.

Mesma receita, novos ingredientes, sabor (extra) água com açúcar

Um bom termômetro para analisar o impacto do filme original de 1999, é fazer uma busca virtual das carreiras do casal protagonista interpretado pelos atores Freddie Prinze Jr. e Rachael Leigh Cook.

Ele, após o sucesso de Ela é Demais, fez o papel de Fred na versão live-action de Scooby-Doo (2002) para os cinemas, incluindo a sequência lançada dois anos depois. Contudo, Prinze Jr. ficou mais conhecido como o cara que perdeu a chance de interpretar Peter Parker na trilogia Homem-Aranha criada pelo cineasta Sam Raimi. Algo que seria uma ótima oportunidade mesmo em dias recentes, muito pela provável volta de Tobey Maguire em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, que foi o primeiro intérprete do cabeça de teia nas grandes telas.

Enquanto ela, também estrelou uma adaptação live-action de um popular quadrinho e desenho animado dos anos 70, no caso, Josie e as Gatinhas (2001). Depois disso, nada mais de maior relevância.

Isto significa que ambos papéis interpretados pela dupla pouco mais de vinte anos atrás, não foi nem capaz de marcar época, ao ponto de não surgirem muitas oportunidades de trabalho dentro da indústria hollywoodiana. Isso aconteceu, muito provavelmente, pelo fato de que tanto personagens quanto a trama de Ela é Demais, não apresentava qualquer diferencial que elevasse o material.

Naturalmente, acontece o mesmo com Ele é Demais da Netflix, que não dispõe de qualquer minúscula transgressão, apesar da troca de gêneros, e entrega uma versão (ainda) mais água com açúcar que a receita original.

Pior: na tentativa de conversar com a geração mais atual que se encontra mais conectada às mídias sociais, mostrou-se um tanto convencional demais, vide o convite para o baile de formatura feito pelo jovem Cameron para sua amada Padgett, ou mesmo quando vemos um “príncipe” a cavalo em determinado momento.

É como se o roteirista R. Lee Fleming Jr., que escreveu a história original de 1999, tivesse feito Ele é Demais com a mesma cabeça daquela época, ou seja, veremos uma obra que parece deslocada do presente, apesar dos emojis, memes, tweets, e afins…

Provavelmente, esta produção Netflix valeu mais para a estrela do TikTok e celebridade da internet Addison Rae, que deve ver seu número de seguidores das redes sociais aumentar ainda mais.

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