Crítica: Missa da Meia-Noite – Minissérie

Minissérie de terror da Netflix usa religião para comentar sobre perdão e amor

Publicado em 25/09/2021 19:05
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Qual é a palavra que costuma vir a mente quando pronunciamos nomes, como John Carpenter, Ari Aster, Wes Craven, Robert Eggers e José Mojica Marins, por exemplo?

Possivelmente, como tudo na vida, teremos respostas diferentes. Porém, existe uma que irá preencher a boca de alguns em maior frequência: terror.

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Sim, todos aqueles citados anteriormente são cineastas de gerações diferentes com histórias únicas, encontros peculiares e inspirações especiais, que moldaram os profissionais que entregaram obras que se tornaram referência, cada uma no seu devido tempo.

Infelizmente, alguns destes se foram, no caso, Wes Craven (1939 – 2015), além do nosso querido José Mojica Marins (1936 – 2020), uma referência inspiradora do nosso cinema nacional. Mas, sabemos que a vida é repleta de ciclos que vêm e vão, assim sempre surgem novos talentos, que têm tanta fome quanto aqueles que vieram antes deles. Pelo o que parece, Mike Flanagan é um destes tantos.

Responsável por produções, como Hush – A Morte Ouve (2016), O Sono da Morte (2016), Ouija: Origem do Mal (2016), A Maldição da Residência Hill (2018), Doutor Sono (2019), A Maldição da Mansão Bly (2020), e agora, Missa da Meia-Noite, que chegou no catálogo da Netflix.

A Missa da Meia-Noite conta a história de uma pequena comunidade de uma ilha isolada, cujas divisões existentes são ampliadas pelo retorno de um jovem desafortunado e a chegada de um padre carismático. Quando a aparição do Padre Paul (Hamish Linklater) na Ilha Crockett coincide com eventos inexplicáveis ​​e aparentemente milagrosos, um fervor religioso renovado toma conta da comunidade – mas será que esses milagres têm um preço?

Terror dramático

Pouco tempo atrás, alguém com muito tempo livre na agenda, resolveu alcunhar algumas obras, por exemplo, O Babadook (2014), Corrente do Mal (2014), A Bruxa (2015). Ao Cair da Noite (2017) ou Sombras da Vida (2017), usando a terminologia pós-terror.

Mãos para o alto, pois tal nomenclatura que representava uma subcategoria do gênero terror parou de ser usada, até mesmo porque nunca teve um sentido muito bem justificado, colocando a esmo vários títulos no mesmo balaio; além de ter proporcionado que alguns pudessem diminuir o valor narrativo de outras produções também relevantes, mas que não se encaixavam nesta nova onda.

Assim, podemos dizer da maneira mais simples possível que Missa da Meia-Noite é uma série de terror. Puro, na lata.

Obviamente, cada obra de terror tem suas particularidades que definem o tipo de trabalho dos criadores e cineastas que as produziram. E, a mais recente criação de Mike Flanagan apresenta predicados instigantes, a começar pelo mais importante que é o desenvolvimento das personagens pela trama.

Que nunca faz com que esqueçamos do ambiente, além de alguns acontecimentos de maior horror, no entanto, constantemente trabalhando as emoções flageladas de tantas almas em busca de alguma paz e redenção.

É (praticamente) um drama! Daqueles que o assinante da Netflix pode ficar hipnotizado, tanto pelas histórias de vida, quanto pelo medo que vai sendo introduzido lentamente por sete (longos) episódios.

Fé acima de tudo, amor acima de todos

Aqui no Brasil, sabemos que somos um estado laico desde o ano de 1890, desta maneira, o estado brasileiro garante liberdade religiosa aos seus cidadãos há bastante tempo, separando a Igreja de suas decisões políticas.

Bom, se na teoria temos esta garantia, na prática, observamos uma tentativa de interferência diária. E, não apenas aqui.

Por isso mesmo que Missa da Meia-Noite se destaca entre tantas produções, seja do terror ou qualquer outro gênero, pois trata a questão religiosa com realidade, crítica, sem perder a compaixão pela espiritualidade envolvida.

Aqui, temos os dois lados da religiosidade: aqueles que estão centrados no teor espiritual acolhedor e, também os chamados fanáticos.

E, o mais brilhante é que conseguimos notar isso claramente através da figura do Padre Paul, interpretado com muita garra pelo talentoso Hamish Linklater, que provavelmente será lembrado na próxima temporada de prêmios por este trabalho na série da Netflix.

O zeloso padre da Ilha Crockett revelou os dois extremos de sua fé pelo fio narrativo de Missa da Meia-Noite. E, ao fazer isso, Flanagan promove bom entretenimento, que nunca escorrega no enredo fácil, mirando definir as peças o mais breve possível; enquanto oferece contrapontos valorosos que podem deixar o espectador meditando sobre nossa condição atual na sociedade.

Salvação

Sabe aquela velha frase: “Uma imagem vale mais que mil palavras.”

Então, isso definitivamente não serve para Mike Flanagan, uma vez que o diretor americano de 43 anos de idade adora (!) uma falação. Todavia, não acreditem nem por meio milésimo de segundo que essa cascata de palavras é um exemplo de verborreia.

Muito pelo contrário. O episódio ‘Livro IV: Lamentações’ é o perfeito exemplo da força narrativa que vem através das palavras. Em um determinado momento, logo após uma baixa dolorosa na vida de Erin Greene (Kate Siegel), ela recebe o amigo de longa data Riley Flynn (Zach Gilford), ambos sentados no sofá conversam, cada um dando a sua versão do que acreditam acontece após a morte.

São visões bem diferentes, certamente. Porém, servem a um propósito muito maior que é a busca pela redenção pelo caminho do amor, que não se define pela palavra ou sentimento, mas na habilidade humana de acreditar, apesar da dor e tristeza.

Religião X Ciência

Outro aspecto que deve ser citado a respeito de Missa da Meia-Noite é o embate, que ficou com mais destaque nesta era de pandemia, entre ciência e religião.

Sabemos que vivemos tempos difíceis, portanto, temos ouvido diariamente a gritaria dos dois lados pelo último ano e meio. Ainda assim, a inteligência emocional de Mike Flanagan é tamanha, que ele propõe uma aproximação de ambas com grande esperteza, excluindo a ignorância fanática e cega desta equação, claro.

Mais: pois usa três personagens femininas, entre elas duas cristãs e uma médica-cientista, para tentar derrubar essa rede de obscurantismo iniciada pelos fiéis seguidores.

Sempre lembrando o assinante Netflix que religião é uma corrente de amor, e não uma autorização dogmática para induzir as pessoas à sua preferência.

Arca de Noé

O episódio derradeiro intitulado ‘Livro VII: Apocalipse’ deve agradar aqueles que buscam alguma ação em Missa da Meia-Noite. Aqui, Mike Flanagan continua a desfilar um carteado de habilidades impressionante.

Se ‘Livro V: Os Evangelhos’ chocou potencialmente, aplicando uma manobra bem hitchcockiana, além de ter embebido a cena final do episódio com enorme carga emocional, imagina-se que o confronto definitivo do enredo, deve causar o mesmo efeito.

Para os cinéfilos, temos referências fortes, que vão de Brian De Palma a George A. Romero, mais precisamente, o clássico A Noite dos Mortos-Vivos de 1968.

No entanto, o significativo legado de Missa da Meia-Noite é nos lembrar do conto da arca de Noé, onde diante da grande adversidade, soubemos da união daqueles no momento mais difícil, como um só. E, que para chegarmos nesse mesmo lugar, duas coisas: perdão e amor.

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