Crítica – A Mansão

Lançamento final da Welcome to the Blumhouse expõe os privilégios do capitalismo em narrativa que se contradiz

Publicado em 09/10/2021 21:57
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A cena inicial de A Mansão é praticamente uma dupla provocação com o assinante da Amazon Prime Video. Nela, observamos a estonteante Barbara Hershey em um belo jardim, ensinando passos de balé para algumas crianças em sua festa de aniversário de 70 anos. Em um determinado momento, ela sente uma forte tontura e cai estatelada no gramado.

O motivo da dupla provocação chega por duas frentes: a mais óbvia, nos remete à sua participação na obra Cisne Negro (2010) de Darren Aronofsky, quando interpretou a ex-dançarina de balé e rígida mãe da personagem de Natalie Portman; a outra, só entenderão o porquê disso representar um descaramento na cena final da obra dirigida por Axelle Carolyn.

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No projeto final da série de filmes Welcome to the Blumhouse, testemunhamos quando um leve derrame diminui a capacidade de Judith Albright (Barbara Hershey) poder cuidar de si mesma, então muda-se para Golden Sun Manor, uma enorme casa de repouso com excelente reputação. Mas, apesar dos melhores esforços da equipe e de uma amizade crescente com um trio de idosos, ocorrências estranhas e visões de pesadelo convencem Judith de que uma presença sinistra está assombrando a propriedade. Conforme os residentes começam a morrer misteriosamente, os alertas frenéticos de Judith são descartados como fantasia. Até mesmo seu devotado neto Josh (Nicholas Alexander) acha que seus medos são resultado da demência, não de demônios. Sem ninguém querendo acreditar nela, Judith deve escapar dos confins da mansão ou ser vítima do mal que habita dentro dela.

O mundo pertence aos privilegiados

Das quatro obras produzidas pela Blumhouse Productions lançadas na plataforma da Amazon Prime Video neste 2021 (O Bingo Macabro; Negra Como a Noite; Madres: Mães de Ninguém; A Mansão), essa mais recente é definitivamente a menos explícita entre elas.

Assim como em O Bingo Macabro de Gigi Saul Guerrero, notamos um comentário sobre os privilégios daqueles que possuem mais vantagens na sociedade, e como estes usam daqueles mais desfavorecidos para enriquecer sua qualidade de vida; além da coincidência de ambos os elencos serem estrelados por atores veteranos.

Se na obra de Guerrero, imprimia-se uma narrativa ‘camp’, mais irreverente; em A Mansão temos uma atmosfera visual mais formal, deixando um aspecto de terror mais tradicional para o espectador.

Tanto que quando damos de cara com figuras grotescamente misteriosas, sentimos aquelas sensações comuns de agonia pelo destino da protagonista, que ganha vida através de Barbara Hershey, mostrando que seus 73 anos de idade acumularam experiência o suficiente para que continue encantando em cena.

Todavia, Axelle Carolyn que também escreveu o roteiro, não conseguiu segurar as pontas, de modo que almejou infundir outros elementos à trama que acabaram atrapalhando seu conceito principal.

Tropeçando nas próprias pernas

Até o fim do segundo ato dessa produção original da Amazon Prime Video temos um filme; vem o segundo ponto de virada, temos outro.

E, infelizmente, esta nova proposta acaba por confundir a ideia inicial de Carolyn, que introduziu um elemento emocional pela relação entre avó e seu neto.

Não há problema algum em imbuir recursos afetivos em uma história, só que quando estes acabam retirando o valor pretendido pela maior parte do tempo no fio narrativo, sentimos o desnível. É uma autossabotagem do próprio enredo que provoca o tropeçar nas pernas.

Pior: pôs em prática um Deus ex machina que roubou o público de uma coerência narrativa pela perspectiva da protagonista.

Quase certo que o final de A Mansão irá chocar o espectador pela opção feita por avó e neto, que revelam algo completamente natural e plausível, apesar de indicar a escolha por uma das grandes angústias que sentimos como seres humanos. Pelo plot-twist, alteramos nossa visão sobre aquelas personagens.

No fim, a cineasta estabeleceu uma resolução completamente oposta aos outros três filmes lançados recentemente para o projeto Welcome to the Blumhouse, que apesar dos terrores apresentados em diferentes cenários e situações, exaltava-se uma proposta de resistência perante as complicações. Já aqui, abraçamos o cinismo como uma maneira de seguir em frente.

Concluindo: o saldo final da série de filmes produzidos pela Blumhouse Productions é o testamento de que o terror continua sendo o gênero cinematográfico que mais surpreende pela quantidade de faces que expõe ao público, que tem a chance de refletir, tanto quanto se apavorar.

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