Crítica: O Homem das Castanhas – 1ª Temporada

Thriller dinamarquês da Netflix conduz bem a narrativa, enquanto comenta o policiamento da maternidade

Publicado em 01/10/2021 00:50
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Dizem que não se deve julgar um livro pela capa. Contudo, venhamos e convenhamos, O Homem das Castanhas não é o típico título que se encontra por aí. Especialmente em suspenses policiais.

E, após assistir a primeira temporada desta série de origem dinamarquesa, entenderá a razão desse nome. Que já é explorado desde a introdução da narrativa, confirmando mais um acerto internacional da Netflix.

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Em O Homem das Castanhas, uma estatueta feita de castanhas é encontrada na cena de um terrível assassinato; a partir dessa pista assustadora, os detetives Naia Thulin (Danica Curcic) e Mark Hess (Mikkel Boe Følsgaard) procuram o assassino, que parece estar ligado ao desaparecimento da filha adolescente de uma figura política importante.

Suspense bem executado

É bem comum em suspenses, ainda mais os que se passam na Europa, notarmos um intento político direto. Nada mais natural, mesmo porque o velho continente permanece vivendo grandes polarizações em determinados países, causando aquele mal-estar que afeta sociedade e economia.

Recentemente, tivemos com Beckett, também disponível no catálogo Netflix, uma narrativa que parecia desaguar nessas correntes, no entanto, apenas foi usada como pano de fundo para uma proposta temática completamente diferente.

Agora, O Homem das Castanhas mostra saber usufruir melhor disso, pois mantém o assinante da plataforma em dúvida na maior parte do tempo, em relação ao elemento político no centro dessa história. Em obras de mistério, dúvida é o divertimento.

Mas, os bons predicados desta série dinamarquesa não param por aí!

Toda a investigação em curso, tem na dupla de investigadores aquele algo que vai manter o espectador ligado nos acontecimentos que se desenrolam. Thulin e Hess são personalidades opostas, que vão mergulhando cada vez mais fundo no caso e, naturalmente, nivelando suas agonias e frustrações ao se verem longe de solucionar os episódios sanguinolentos. Isso vai aproximando-os pelo mesmo ideal: proteger a vida.

As vítimas vão aparecendo, em partes, sendo que parece haver um alvo final bem definido pela perspectiva do serial killer. Porém, fica a indagação de como e qual o motivo de terem selecionado aquela pessoa como o último ato disso tudo.

Elenco afiado

É sempre um bom sinal quando qualquer produção apresenta um equilíbrio em seu elenco, como por exemplo, a formidável minissérie Missa da Meia-Noite, que estreou faz pouco tempo na Netflix. Também não é nenhum problema, quando em um elenco compensado, observamos alguns breves momentos de maior potência vindos de algum(a) ator/atriz.

Diz-se representar um bom sinal, pois mostra que a maior preocupação da direção com o material é preservar a dinâmica narrativa, onde cada virada tem seu momento, e cada um dos atores mira prover os elementos necessários para que a história se revele quão mais preenchida puder.

Na série O Homem das Castanhas, dois pares prevalecem: o casal Rosa (Iben Dorner) e Steen Hartung (Esben Dalgaard Andersen); e, os investigadores profissionais Thulin e Hess.

O primeiro par vive um inferno emocional, de modo que cada um, apresenta certas individualidades, que geralmente travam uma relação de honestidade. O casal Rosa e Steen perderam a filha faz um ano. Ele, desenvolveu algumas dependências, além de ter dificuldade de seguir em frente sem as devidas respostas de como isso tudo aconteceu; enquanto ela, aceitou que sua garotinha não está mais lá, entretanto, reprime qualquer assunto que esteja relacionada a ausência dela dentro de sua casa.

Já, a relação Thulin/Hess também contrapõem um ao outro, mas de uma forma diferente.

A policial busca sair do lugar onde se colocou, quer trabalhar menos e ficar mais perto de sua família, principalmente sua filha. Apesar disso, vê seu chefe frustrado com a decisão dela sair, e logo lhe encarrega outro caso a ser resolvido. Desta vez, com um novo parceiro que só está lá por ter sido rebaixado por alguns erros que cometeu. Ela mostra certo desinteresse; ele passa a maior parte do tempo como um observador pelos cantos.

É nessa hora que O Homem das Castanhas vai começando a mostrar seus valores, em vista que ambos vão alterando seus comportamentos iniciais quanto mais chocados ficam com aquilo que testemunham. E, isso não diz respeito apenas aos assassinatos, como também ao comportamento da força policial diante estes acontecimentos.

Como são os homens?

Apesar da narrativa equilibrada, deve-se afirmar que as grandes qualidades desta produção dinamarquesa feita pela Netflix florescem pela protagonista Detetive Naia Thulin, interpretada por Danica Curcic.

Em sua primeira cena da temporada, observamos ela transando de modo apaixonado com seu namorado. Aparenta ser uma relação incrível, pois é assim que se sentem os envolvidos, mas nunca é, na realidade.

No discorrer dos acontecimentos relacionados com a investigação, que vão sendo descobertos, passo a passo, a perspectiva dela começa a enxergar as coisas com novos olhos.

O Homem das Castanhas põe em destaque o comportamento tóxico masculino, com uma lente focando o mais abjeto e desprezível em cada um deles. Resumindo: o pior do pior!

E, o mais doloroso é que o tão procurado serial killer da história, na duríssima realidade da vida, é só mais um no meio de tantos. Aqui, se encontra a verdadeira face desta produção, de chacoalhar o assinante Netflix, não com o que está acontecendo na tela, mas ao lado. E, se somos as presas fáceis, ou aqueles lenientes demais com o que se vê todos os dias?

Olhar perverso sobre a maternidade

No ano de 2015, saíram dois longas-metragens completamente diferentes, que ousaram questionar a visão perversa que homens, ou até mesmo algumas mulheres, têm sobre a maternidade.

Estamos falando de Ricki and the Flash: De Volta pra Casa de Jonathan Demme, e O Quarto de Jack de Lenny Abrahamson. Em ambos, temos pelo menos uma cena, onde vemos uma crítica ao comportamento que tantos têm de querer definir como deveriam agir as mães (entenda, mulheres) na criação dos filhos.

Pior: jogando uma maior responsabilidade à figura materna, abstendo-se das obrigações que, consequentemente, chegam quando estes tornam-se pais.

O Homem das Castanhas segue a tradição dos filmes citados, e revela o ato criminoso de responsabilizar a mulher por tudo que envolve a criação de um ser. Servindo de reflexo para como as coisas realmente são nesta sociedade estruturalmente machista… todos os dias, todo o tempo.

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