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Na Quebrada

Crítica: Sintonia – 2ª Temporada

Retorno da série criada por KondZilla avança com a narrativa de modo maduro indicando as dificuldades da vida no crime

Publicado por Aléxis Perri

29/10/2021 01:34

O Rei do funk está de volta! Trazendo a segunda temporada da série brasileira policial Sintonia, dois anos após sua estreia dentro do catálogo da Netflix.

Aqui em terras tupiniquins, boa parte da população tem conhecimento sobre quem é o mandachuva KondZilla. Mas, caso não saibam, fica a descrição básica popular.

Nascido Konrad Dantas, mais conhecido pelo nome artístico KondZilla, é um diretor de criação, produtor e empresário brasileiro. Ele é fundador da produtora que leva seu nome artístico, sendo um dos principais responsáveis pelo sucesso do funk brasileiro. Tem, atualmente, o maior canal do YouTube Brasil e da América Latina, e o sétimo maior canal de música do mundo, com mais de 61 milhões de inscritos, e mais de 30 bilhões (!) de visualizações.

KondZilla produziu mais de 150 músicas, dentre elas vários videoclipes. Entre os artistas que já trabalharam com KondZilla estão os músicos de funk MC WM, Kevinho, Kekel, Livinho, G15, MC Boy do Charmes, MC Lan, Lexa, MC Fioti, Jottapê e Mirella; as bandas de rock Charlie Brown Jr. e Vespas Mandarinas; além dos artistas de rap Tropkillaz, Karol Conka, Hungria Hip-Hop e Racionais MC’s.

Em 2019, uma parceria entre ele e a Netflix deu origem à série Sintonia, na qual o enredo apresenta três personagens centrais: Doni (Jottapê), Nando (Christian Malheiros) e Rita (Bruna Mascarenhas). Todos são moradores da periferia. A narrativa da produção mistura os universos da música, tráfico e religião. Agora, nesta segunda parte, continuamos acompanhando a evolução na vida desse trio. Doni alcançou o sucesso como MC, Nando encontra-se cada vez mais fundo no mundo do tráfico, enquanto Rita buscou a fé para seguir em frente por um novo caminho.

Cada um cuida do seu corre!

Disponibilizando apenas seis episódios nesta segunda temporada, observamos uma narrativa que avança de forma gradual, mantendo seu trio distantes um do outro até a metade, porém, quando chegamos no quarto episódio intitulado  ‘Aqui se faz, aqui se paga’, notamos que suas rotinas individuais irão entrar em choque de curso. São estes os melhores momentos deste novo volume de Sintonia, já disponível para o assinante conferir na plataforma Netflix.

Este modelo de narrativa é extremamente interessante para o espectador, pois temos a chance de acompanhar as individualidades de cada umas das personagens de maior destaque no seu habitat natural, para só depois testemunharmos quando cada uma dessas vidas vai se cruzar logo a frente.

Um dos méritos desta produção é realçar esta conexão existente entre Doni, Nando e Rita. Mesmo em ambientações diferentes e trabalhando com ambições opostas, percebemos que esta é a realidade de alguém que cresce nas comunidades ou favelas das grandes cidades pelo país.

Mais do que uma história sobre três amigos, Sintonia expressa à dura verdade de quem vive às margens da sociedade, como também dos obstáculos que devem ser superados para que alguém que saiu de lá, seja reconhecido como algo de valor para a gema da alta classe.

Três pontas do tridente

Felizmente os três atores principais do elenco merecem elogios, cada um por razões distintas.

A grande estrela Doni, interpretado pelo cantor e compositor Jottapê, representa o que de mais carismático temos nesta produção original da Netflix. Ele é o sonho que se realiza, assim como também é aquele que faz questão de honrar o lugar de onde veio.

Foi bem comovente perceber pelo terceiro episódio ‘Se juntar nois dois hoje vai dar kaboom!’, toda a consideração que teve para com uma colega de profissão que contribuiu no trabalho dele, mas foi impedida de aparecer ao seu lado em um evento especial na televisão, tudo por causa do empresário dela que só queria uma fatia maior do “bolo”.

Agora, a jovem Rita vive outros dilemas pelas ruas e vielas do bairro Vila Áurea. Ela quer revitalizar a igreja da comunidade, na busca de auxiliar aqueles que necessitam, assim como ela precisou um dia, sendo acolhida pela sua pastora, além dos fiéis do culto. No meio disso tudo, surge uma nova possibilidade de algo rolar com o filho do pastor, um jovem também muito dedicado em reerguer um novo templo na região.

Por último, temos Nando, que se transforma em um mandachuva, tomando conta de tudo e mais um pouco. Tentando com muitas dificuldades balancear duas famílias: a de casa, com mulher e uma filhinha pequena; e, a chamada família do crime, onde se vê envolvido com os principais elementos do tráfico em uma das grandes zonas da cidade de São Paulo.

A saga de Nando

Dentre os três, inegavelmente, temos um destaque maior nesta segunda temporada com Nando.

Não é que ele tenha algo mais a dizer que outros. É que ele é o símbolo do que há de mais impactante em Sintonia, já que seu personagem é aquele que caminha na corda bamba o tempo inteiro, mesmo quando está se dando bem e ganhando rios de dinheiro com suas ações, pois vive uma vida olhando no retrovisor, sempre preocupado com algo ruim ou trágico que possa acontecer.

Alguns podem achar exagero, ou pior, ficarem ofendidos com a comparação. Mas, fica claro que a série policial da Netflix se inspirou diretamente no clássico O Poderoso Chefão (1972) de Francis Ford Coppola. A parte final do quinto episódio ‘Mil Cairão ao teu lado’ não deixa mentir.

Notem também como os criminosos da região se dirigem uns aos outros em todas as reuniões, chamando os companheiros ao lado de família. Sim, família.

E, assim como o personagem Michael Corleone (Al Pacino) na obra de Coppola, vemos a subida rumo ao topo. No entanto, é bom lembrarmos que quanto maior é a altura, maior também pode ser a queda. Dizem que a conta sempre chega para todos nós e, personagens como Michael ou Nando costumam pagar um preço muito alto.

Por essas e outras, fica uma boa expectativa para a próxima temporada de Sintonia, que promete adentrar ainda mais nesse jogo perigoso de causa e consequência.

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