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Adeus

Crítica: Narcos: México – 3ª Temporada

Temporada final de série dramática policial revela-se uma reflexiva tragédia sobre a realidade de um país

Publicado por Aléxis Perri

07/11/2021 00:29

Quando a Netflix lançou a primeira temporada de Narcos: México em 2018, tínhamos os atores Michael Peña e Diego Luna como os principais da série, representando o bom e velho conceito da caçada entre gato e rato, no caso, agente federal americano e líder narcotraficante do cartel de Guadalajara, respectivamente.

Após a morte do personagem interpretado por Michael Peña, promoveram Scoot McNairy para digladiar Diego Luna na temporada seguinte. Agora, chegamos na terceira e última parte de Narcos: México da Netflix. Lembrando que o personagem de Luna acaba sendo preso no episódio derradeiro do volume anterior, fica a pergunta – “quem será promovido como o novo antagonista?”

Talvez, depois de assistirem os primeiros capítulos desta nova temporada cheguem a uma lógica conclusão que o novo “vilão” da trama seja Amado Carrillo Fuentes, papel do ator mexicano José María Yazpik. Curioso que, na conclusão desta parte final, terá a oportunidade de perceber que na realidade todos os personagens citados nunca foram os reais protagonistas desta produção dramática policial, já que o verdadeiro astro no centro de tudo visto nas três temporadas foi: o país mexicano.

Narcos: México é uma exploração trágica sobre a história mais recente de uma nação, que ainda é superficialmente julgada como o ‘lado errado da sociedade’. Mas, assim como a vida trata de mostrar repetidas vezes que nem tudo é preto no branco, temos a chance de perceber algo muito mais complexo, infestado de nuances.

Relembrando que existem apenas três certezas na vida: a morte, a lei da gravidade, e a segurança de que as drogas sempre chegam em mãos americanas. Por que será, não?!

Antes de mergulharmos na temporada final, devemos resumir o que vimos até o momento em Narcos: México. Série original da Netflix que explora as origens da guerra às drogas em terras mexicanas, começando na época em que os traficantes eram uma confederação frouxa e desorganizada de pequenos cultivadores e traficantes independentes de maconha. A produção dramatiza a criação e ascensão do Cartel de Guadalajara na década de 1980, quando Miguel Ángel Félix Gallardo (Diego Luna) unificou várias praças, ou territórios, a fim de construir um império de drogas infame. O agente da Administração de Fiscalização de Drogas (DEA) Kiki Camarena (Michael Peña) muda sua esposa e filho da Califórnia para Guadalajara, assumindo um novo cargo, onde ele rapidamente descobre que sua missão será mais desafiadora do que ele jamais poderia ter imaginado. Após a tortura e assassinato de Camarena pelo cartel, o agente da DEA Walt Breslin (Scoot McNairy) traz um pequeno esquadrão secreto de agentes ao México para rastrear e punir Félix Gallardo e seus associados.

Uniformidade cinematográfica

Tecnicamente, podemos fazer muitos elogios para esta produção Netflix, principalmente: pelas performances do elenco, que revelam um ou outro destaque especial; além da uniformidade visual, uma vez que a temporada dispõe de alguns nomes diferentes dirigindo cada um dos episódios de Narcos: México, sendo todos capazes de manter uma identidade de apresentação clara.

No quesito cinematografia, somos facilmente imersos nesse enredo policial, que desde a gênese banha a tela na cor vermelha pelas tantas torturas e mortes testemunhadas. É até possível estabelecer um paralelo com o ótimo longa-metragem Sicário: Terra de Ninguém (2015) de Denis Villeneuve, que também abordou os mesmos assuntos que esta série original Netflix.

Em ambas produções, destacam-se as medidas de escala, especialmente quando vemos tomadas abertas das cidades mexicanas chefiadas por cartéis que comandam o andamento das coisas por lá. Tanto na obra de Villeneuve como aqui, podemos observar a oposição entre o local (representante do destino severo) e o indivíduo (mero agente periódico).

Porém, pouco adiantaria tamanha opulência audiovisual sem um elenco capaz de significar o fardo de cruzar pelas estradas arenosas mexicanas. Encontraremos atuações superlativas em Narcos: México, que indicam alguns destaques, como: José María Yazpik e Alejandro Edda, ambos representando membros de cartéis.

Wagner Moura e o cinema de gênero ação

Imagina-se que a maioria não tenha o conhecimento desta informação, mas o ator/diretor brasileiro Wagner Moura, que estrelou a versão original de Narcos para a Netflix, dirigiu dois episódios desta atual visão mexicana, no caso, os capítulos intitulados ‘Narcojuniors’ e ‘GDL’.

Recentemente, chegou às salas de cinema pelo país, o “polêmico” Marighella, obra fílmica que aborda os últimos anos de vida do personagem principal que foi morto pela ditadura militar brasileira. Esta foi a primeira experiência de Moura atrás das câmeras, onde saiu-se bem, levando em consideração o fator ‘marinheiro de primeira viagem’.

Novamente assumiu o papel de desenvolvedor da história, e deve-se dizer que apresentou um trabalho ainda mais convincente em Narcos: México, principalmente no campo da ação.

É perceptível que a experiência do artista baiano na série de filmes Tropa de Elite, ambos dirigidos por José Padilha, motivou o astro a elaborar coreografadas cenas de ação. Vimos em Marighella, e agora de novo na produção original Netflix.

E, é bom dizer que houve uma melhora considerável, pois abandonaram o conceito de câmera trepidante, que harmoniza pela narrativa, mas cansa muito a vista, além de ser esteticamente (bem) menos atraente.

Tragédia grega… só que mexicana

No momento que começar a rolar os créditos finais desta produção Netflix, possivelmente sentirão toda a carga trágica das personagens centrais.

Geralmente, a tragédia é o tipo de gênero menos admirado pela grande parte do público, que não se sente à vontade neste modelo ‘desgraça pouca é bobagem’.

(Vale lembrar: cada um sabe o que prefere, e isso deve ser respeitado acima de qualquer coisa)

Agora, para os defensores e apaixonados pela tragédia grega, Narcos: México será uma oportunidade de trabalhar a humildade perante as marcas permanentes da vida, além de uma empática reflexão sobre as reais vítimas de um sistema que oprime toda uma nação, que parece destinada a repetir ciclos incansavelmente, nunca sendo capaz de escapar dessa espiral que vai de mal a pior.

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