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Sagrado Feminino

Crítica: A Roda do Tempo – 1ª Temporada

Épico fantasioso da Amazon Prime Video fecha primeira parte em alta, sempre exaltando a mulher no poder

Publicado por Aléxis Perri

28/12/2021 16:23

Para alguns existe uma teoria de que como uma entidade, Deus só poderia ser uma mulher. Dentre os argumentos que defendem esta teoria, escutamos que apenas uma mulher seria capaz de demonstrar tamanha paciência, compaixão, senso de proteção, acompanhada de uma fúria de alcance inimaginável.

Esta dualidade pode ser encontrada no neopaganismo conhecido como Wicca (religião natural), onde sua teologia gira em torno do dualismo ontológico, que é tradicionalmente uma polaridade de gêneros sagrada entre os opostos complementares do masculino e feminino, que são considerados amantes divinos. Lembrando que dualismo ontológico é distinto do dualismo moral, no sentido de que o segundo postula uma força suprema do bem e uma força suprema do mal. Não há força suprema do mal na Wicca.

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Nesta religião natural, o Deus é visto como a forma masculina de divindade e o polo oposto e igual (!) à Deusa. Tradicionalmente na Wicca, a Deusa é vista como a Deusa Tripla, o que significa que ela é a donzela, a mãe e a velha.

Porém, certas tradições Wiccanas são centradas na Deusa, o que difere da grande maioria das outras que enfoca na dualidade de deusa e deus. A Wicca Diânica, também conhecida como Feitiçaria Diânica, é uma tradição da deusa pagã moderna, focada na experiência feminina e no empoderamento, onde apenas deusas são homenageadas. A liderança é feita por mulheres, que podem ser ordenadas como sacerdotisas, ou em grupos menos formais que funcionam como coletivos.

Elas adoram uma única Grande Deusa monoteísta (com todas as outras deusas – de todas as culturas em todo o mundo – vistas como “aspectos” dessa Deusa), além de focarem na prática do matriarcado igualitário. Embora a tradição receba o nome da deusa romana Diana, elas cultuam deusas de muitas culturas, dentro da estrutura ritual diânica da Wicca. Esclarecendo que Diana (considerada correlata à grega Artemis) é a representação de um tema mítico central da cosmologia identificada pela mulher. Ela é a protetora das mulheres e do espírito selvagem e indomável da natureza.

Após assistirmos a excitante primeira temporada de A Roda do Tempo, conseguimos perceber com naturalidade tantas relações entre o material escrito originalmente pelo autor americano Robert Jordan e uma parte específica destas tradições Wiccanas, que segue Moiraine (Rosamund Pike), membro da Aes Sedai, uma poderosa organização de mulheres que podem canalizar o Poder Único. Ao lado de seu Guardião Lan (Daniel Henney), ela viaja com um grupo de cinco jovens aldeões do isolado vilarejo de Dois Rios, acreditando que um deles é a reencarnação do Dragão, um canalizador extremamente poderoso que destruiu o mundo. O Dragão Renascido foi profetizado como o salvador do mundo das mãos de um mal primordial conhecido como o Tenebroso, mas que também pode querer se juntar a ele para que juntos destruam tudo o que mais amamos.

O poder está com elas

Se a produção de fantasia medieval da Amazon Prime Video começou apenas como um “primo pobre” da mundialmente conhecida série de livros e filmes O Senhor dos Anéis, vemos que aos poucos foi tomando algumas formas que a destacaram de uma maneira especial.

É visível que o orçamento da trilogia de O Senhor dos Anéis é, definitivamente, mais gordo que este de A Roda do Tempo, porém, isso não impediu que o material conseguisse atingir alguns alvos certeiros, ainda mais se tratando de épicos de fantasia.

Temos com os dois primeiros episódios, ‘A Partida’ e ‘Onde a Sombra Espera’, meras introduções; no entanto, a partir do capítulo ‘Um Lugar Seguro’ embarcamos em uma jornada que vai ganhando elementos, além de trazendo complexidade e mistérios que encantam mais naturalmente àqueles que são admiradores do gênero, assim como o público geral.

No centro desta obra original da Amazon Prime Video encontramos o feminino, como raramente vemos em produções do tipo. Impressiona como a narrativa desenvolvida pelo criador Rafe Judkins conseguiu elevar a força e resiliência das mulheres durante toda esta primeira temporada. A abundância de personagens femininos na vanguarda foi o grande destaque até o momento.

Da sobriedade e coragem da protagonista Moiraine Damodred, passando pela irritável e zelosa Sabedoria Nynaeve al’Meara (Zoë Robins), até a calorosa e destemida Egwene al’Vere (Madeleine Madden). Todas elas representam A Roda do Tempo como uma obra transgressora e progressista.

Mas não pensem que os homens não têm um papel importante neste mundo ficcional, já que tanto para o bem quanto para o mal, observamos alguns personagens que mantêm a narrativa em movimento constante. Peguemos Lan, interpretado pelo competente Daniel Henney, que é muito mais que um escudeiro fiel à sua Aes Sedai Moiraine, uma vez que compartilha com ela todos os planos, além da crença inabalável nessa busca de encontrar o novo Dragão Renascido; assim como também vemos o pior lado dos homens, incapazes de canalizar o Poder Único, portanto, inseguros e violentos como os soldados representantes dos Mantos-Brancos.

Muito apropriado por parte do responsável Rafe Judkins em mostrar que mesmo em um mundo aonde as mulheres estão no comando do poder, ainda vemos que os homens em geral representam uma ameaça muito perigosa, exatamente como a vida real.

O segredo do Dragão

A metade final desta primeira parte de A Roda do Tempo ganha um pouco mais de musculatura quando vemos a protagonista representante das poderosas Aes Sedai, finalmente chegando na tão falada Tar Valon, sede da Torre Branca.

Aos poucos testemunhamos o grupo que foi dividido, também adentrando os portões sagrados da cidade que é o lar das Aes Sedai, representadas pela líder Siuan Sanche (Sophie Okonedo). Todos os cinco possíveis candidatos à reencarnação do temido Dragão passaram por grandes dificuldades até ali. Mas pouco imaginavam que estes sofrimentos só iriam aumentar exponencialmente pelos momentos derradeiros desta primeira temporada.

Em ‘O Olho do Mundo’, última entrada deste primeiro volume da produção original da Amazon Prime Video, recebemos uma avalanche apoteótica onde já sabemos quem é o Dragão Renascido e que tipos de desafio aguardam cada um dos membros do grupo selecionado por Moiraine. Portanto, aguardemos uma segunda temporada que promete balançar ainda mais o destino dos cinco escolhidos.

Enquanto isso não chega, fiquemos com a cena que melhor simbolizou esta primeira temporada, quando nos primeiros minutos do episódio ‘As Trevas nos Caminhos’, assistimos uma jovem guerreira grávida em trabalho de parto, já completamente machucada e ensanguentada, batalhando bravamente para defender sua vida e de sua cria contra seis homens… sozinha!

Talvez, o Dragão Renascido tenha voltado nesta era no corpo de um homem, mas sabemos bem que em A Roda do Tempo, assim como na vida real, quem detêm o poder maior são outras.

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