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Ippon!

Crítica: Cobra Kai – 4ª Temporada

Comédia dramática sobre artes marciais da Netflix continua acertando no alvo, desta vez, aprofundando um pouco mais no íntimo das personagens

Publicado por Aléxis Perri

31/12/2021 23:30

Talvez nem todos tenham conhecimento disso, mas Cobra Kai, a popular série original Netflix baseada na trilogia oitentista Karatê Kid, começou a ganhar vida por causa de outra série que nada se relaciona com os filmes estrelados por Ralph Macchio e Pat Morita (1932 – 2005).

Para aqueles que desconhecem ou apenas não se lembram, Karatê Kid – A Hora da Verdade (1984) é o filme favorito de Barney Stinson, adorado e inconfundível personagem interpretado pelo versátil Neil Patrick Harris na série de comédia dramática How I Met Your Mother.

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Só que Barney talvez seja o fã mais ‘diferentão’ do longa-metragem que conta a história sobre um garoto que aprende a lutar karatê para se defender e competir em um torneio contra seus valentões, sendo que um deles é o ex-namorado de seu interesse amoroso. Barney Stinson não é fã do protagonista Daniel LaRusso, mas de Johnny Lawrence, interpretado pelo ator americano William Zabka, que é o líder dentre os valentões que atormentam a vida do garoto novato e franzino, que termina como o campeão do torneio de artes marciais.

Pelos olhos de Barney acabamos enxergando o loirinho malvado Johnny Lawrence como um personagem carismático, que aprendeu uma valiosa lição após ser derrotado na luta final. Seu intérprete William Zabka fez algumas aparições nas últimas duas temporadas de How I Met Your Mother, inclusive como um dos padrinhos de Barney na cerimônia de casamento.

Ali foi plantada a semente, que não muito tempo depois desabrochou na divertida série de comédia dramática Cobra Kai, onde trinta e quatro anos depois examinamos novamente a narrativa do filme original de 1984, só que agora do ponto de vista de Johnny Lawrence (William Zabka) e sua decisão de reabrir o dojo de karatê Cobra Kai, reacendendo também a sua antiga rivalidade com Daniel LaRusso (Ralph Macchio).

Anos 1980 no século XXI

Cobra Kai foi um sucesso de público imediato, logo quando surgiu em 2018. Algo que passa longe de surpreender, até mesmo porque a série de filmes lançada da década de 1980 conquistou muitos fãs ao longo dos anos, que não iriam desperdiçar uma nova chance de acompanhar essa competição de egos entre os caratecas Daniel LaRusso e Johnny Lawrence.

É mais do que natural compreender o motivo desta série produzida pela Netflix continuar trilhando um caminho tão glorioso, uma vez que ela manteve o espírito do material original, enquanto foi adicionando alguns novos ingredientes aqui e acolá.

Porém, para os saudosistas têm material de sobra em Cobra Kai, especialmente se assistirmos pelo prisma do aprendiz, hoje um sensei (professor), do estilo de luta agressivo da escola de karatê Cobra Kai. Johnny Lawrence é um indivíduo que seguiu em frente, mas sempre olhando para o retrovisor. Podemos notar isso de várias formas, sejam pelas roupas, gosto musical, mas principalmente no jeito ‘machão’ de ser.

O que torna tudo ainda mais interessante nessa narrativa é perceber que o “bomzinho” Daniel LaRusso também apresenta muitas dificuldades para seguir em frente, principalmente sabendo do sucesso do dojo rival.

Ataque x Defesa

Um dos temas mais discutidos entre especialistas no mundo dos esportes é a contraposição entre escolas que estimulam uma tática focada no ataque e outras que optam por uma essencial defesa que só ataca quando encontra o ponto fraco do adversário em questão.

Recentemente, tivemos uma disputa de final de campeonato internacional envolvendo times de futebol brasileiros que representava muito bem tal contraste de estilos de jogo. Uma equipe preferia jogar mais com a posse de bola, sempre impondo sua maneira de competir, enquanto do outro lado tínhamos uma agremiação que preferia jogar no erro do adversário, defendendo-se primeiro, até o momento quando encontrava os espaços necessários para poder espetar o campo rival.

Não existe aqui uma maneira correta de se competir. Ambas são estratégias válidas e capazes de levar um atleta ou equipe às glórias da vitória. Algo que perceberemos pela narrativa desta série da Netflix, que põe frente a frente estilos de luta opostos.

Mais interessante é reparar que os alunos representantes dos dojos rivais lutam estrategicamente usando técnicas específicas da escola adversária, inclusive Samantha LaRusso (Mary Mouser), que apesar de ter crescido e aprendido a lutar nos preceitos do clã Miyagi, sente uma frustração muito grande com seu pai, fazendo com que se adapte bem ao estilo ensinado pelo sensei Johnny Lawrence.

Hora do show!

Os amantes das artes marciais sempre saem de uma nova temporada de Cobra Kai com motivos de sobra para sorrirem de orelha a orelha. Aqui nesta quarta parte não será diferente!

No quinto episódio ‘Ponto decisivo’ veremos os fãs mais entusiasmados se inclinando no sofá para testemunhar aquela revanche mais do que esperada. Hoje, mais velhos, não possuem o mesmo vigor de antes, obviamente. Contudo, isso não impediu que tentassem alguns movimentos coreografados bem interessantes.

Agora, são nos dois capítulos finais desta temporada que veremos um verdadeiro espetáculo no tatame. Por mais que estejamos apegados pelo saudosismo quando vemos o par de senseis protagonistas em cena, são os atores mais jovens que entregam toda a energia que move esta narrativa adiante. É tudo tão estimulante que fica até difícil exaltar apenas um destaque. No fim, foi o coletivo que mostrou toda a sua força.

Pais e filhos amadurecendo juntos

Durante toda a temporada observamos um enfoque nas relações mais aprofundado do que nos volumes anteriores, gerando alguns bons atritos que acabaram movimentando o fio narrativo da série Netflix.

É bem comum notarmos em histórias sobre jovens aquela busca por situações ou conflitos que mudem algumas perspectivas destes, levando ao amadurecimento. Só que Cobra Kai não deixa essa moçada sozinha na missão, já que também veremos os adultos tendo que colocar a mão na consciência, tentando algo diferente para que consigam manter todas suas expectativas de pé, resistindo às adversidades mais inesperadas.

Surgem aqueles momentos na vida, onde não é sobre atacar ou defender, mas sobre entender que no processo de aprendizagem e comunicação com o mundo externo, existem diferentes formas de se reagir, cada uma delas de acordo com o que pede o cenário. É sobre a conscientização de que entre os extremos polarizados existem passagens que se encaixam mais confortavelmente com o que enxerga ou almeja para si mesmo.

Tanto Karatê Kid quanto Cobra Kai seguem o legado do Sr. Miyagi e das artes marciais, no caso, a busca pelo autoconhecimento.

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