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Sexo no Convento

Crítica – Benedetta

Drama biográfico do renomado diretor holandês Paul Verhoeven escorrega pela narrativa amorfa e irrefletida, ainda assim, mostra-se um artesão do entretenimento sagaz

Publicado por Aléxis Perri

11/01/2022 20:23

O grande provocador do cinema está de volta!

O octogenário Paul Verhoeven continua na ativa e fazendo o que mais gosta: atiçar, cutucar, questionar!

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Sua bela carreira que começou em 1960 na Holanda, país de origem, atravessou o oceano para chocar Hollywood! Para poupar os leitores do suspense, saibam de antemão que ele conseguiu! E como!

Ele estreou na indústria americana em 1985 com Conquista Sangrenta, estrelando Rutger Hauer e Jennifer Jason Leigh, onde já pelo título, incluindo o original ‘Flesh and Blood’ (Carne e Sangue), vimos qual era o objetivo do cineasta!

Paul Verhoeven é conhecido por narrativas que misturam violência gráfica e conteúdo sexual em sátiras sociais, que viraram marcas registradas de seus filmes de drama e ficção científica! Logo após sua estreia na terra do Tio Sam, testemunhamos ele conseguir emplacar seu primeiro grande sucesso à nível global com o mix de ação/sci-fi Robocop – O Policial do Futuro (1987), que lembremos enfatizava a violência de modo tão absurdo que chegava a ser cômico!

Porém, nada era gratuito no cinema de Verhoeven, que através do filme sobre um policial assassinado por uma gangue de criminosos e posteriormente revivido por uma megacorporação, comentava sobre a natureza da humanidade, identidade pessoal, ganância corporativa e corrupção, além de ser uma repreensão às políticas do presidente republicano Ronald Reagan!

Depois do estrondo inicial, vieram: O Vingador do Futuro (1990); Instinto Selvagem (1992); Showgirls (1995); Tropas Estelares (1997); e O Homem sem Sombra (2000), obra essa que o próprio não ficou feliz com o resultado final, mesmo assim, exprimia bem os valores narrativos de seu cinema, através de um personagem que começa na provocação básica e termina na pura maldade!

Agora, neste século XXI vimos o cineasta holandês retornar à Europa! Em 2016, foi um estardalhaço logo após o lançamento do excelente Elle, estrelado pela nada menos que brilhante Isabelle Huppert, fazendo com que seu próximo lançamento viesse rodeado de muita expectativa! Chega aos cinemas Benedetta, sobre uma freira do século XVII que teve visões religiosas chocantes que ameaçavam abalar a Igreja em sua essência, além disso, também se envolveu em um caso amoroso com uma noviça do convento situado na região de Toscana, Itália!

Pela narrativa irregular, ele só quer provocar!

Antes de mergulharmos em Benedetta, podemos no mínimo exaltar Paul Verhoeven neste atual momento da carreira dele! Não só pela disposição aos 83 anos de idade, mas por ser um oitentão diferentão entre seus comparsas cineastas!

Enquanto tantos de nós elogiamos Martin Scorsese e Steven Spielberg (com razão), por estarem em momentos da carreira onde demonstram através de trabalhos elogiados, um nível de maturidade realmente comovente; temos do outro lado alguém que quanto mais velas assopra, mais extasiado quer aparentar!

Mesmo que isso custe desequilibrar à própria narrativa em questão!

Benedetta quer e consegue ser tudo ao mesmo tempo! Contudo, isso acabou por atrapalhar algumas das tantas propostas reflexivas que se encontram imbuídas no texto escrito por Verhoeven, junto de David Birke!

Lembremos mais uma vez que sua missão cinematográfica é provocar, algo que consegue facilmente aqui, no entanto, pela narrativa desnivelada, percebemos que isso ficou mais superficial do que meditativo!

Um exemplo: a cena onde vemos a freira Benedetta Carlini, interpretada por Virginie Efira, se engalfinhar desnuda com a jovem noviça rebelde Bartolomea (Daphne Patakia), que resolveu fazer um consolo – instrumento fálico com propósitos sexuais – usando uma imagem de madeira da Virgem Maria!

Observamos ele estimulando e excitando, tanto quanto qualquer gravação pornográfica encontrada em sites adultos, logo após escrevermos na caixa de busca com as palavras ‘freiras’ e ‘sexo’!

O cineasta holandês foi (ainda) mais longe: provocou alguns estudiosos do cinema mais exigentes ao recriar uma figura de Jesus Cristo como um salvador, mas no estilo super-herói dotado de grandes habilidades, tipo aqueles que encontramos no universo Marvel ou DC Comics; como também direcionou outra afronta, equiparando narrativas de cinema e games, revelando um aldeão que também veio para salvar Benedetta como um guerreiro muscular e mal-encarado que lembrava Kratos do jogo de videogame God of War!

Conclusão!

Claro que em uma história sobre freiras amantes, teríamos uma provocação direta à Igreja (gananciosa) e aos devotos mais fanáticos (ignorantes), especialmente aqueles que buscam a salvação a qualquer custo!

Só que no processo de estender demais a narrativa, sempre adicionando novos ingredientes, acabamos assistindo um material congestionado, que não flui tão naturalmente quanto Elle, seu admirável projeto anterior, que optou por canalizar tudo na sua protagonista!

A essa altura do campeonato já devem ter percebido que este texto se encontra repleto de pontos de exclamação! Ato pensado na intenção de indicar o que Paul Verhoeven quis com Benedetta, no caso, exclamar com ênfase todas as suas ideias, que acabam por entregar entretenimento (realmente) apreciativo em uma linha narrativa inteligível, mas irrefletida!

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