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"Mistério"

Crítica – Indecente

Suspense romântico da Netflix tem material promissor em mãos, porém, se contradiz com narrativa dissimulada e superficial

Publicado por Aléxis Perri

13/01/2022 12:13

Certeza que a Netflix Brasil sabia o que estava fazendo ao traduzir o “thriller” Brazen, que na tradução indica ‘descarado(a)’, como Indecente!

Convenhamos que Indecente chama muito mais a atenção, não?!

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E é exatamente o que a plataforma de streaming mundial mais quer: que todos olhem o que ela tem para mostrar!

Entretanto, temos uma falha (bem) grande aqui! Vamos usar o dicionário para entender melhor qual é o problema aqui:

Descarado(a)

1. que ou aquele que não sente constrangimento por seus atos censuráveis; desfaçado, sem-vergonha, impudente.

2. que indica cinismo, atrevimento.

Indecente

1. que não é próprio, oportuno, adequado; incorreto, inconveniente, impróprio.

2. que fere o pudor, a moral, os bons costumes; obsceno, licencioso, chocante.

Obviamente que temos aqui duas palavras de significados completamente (!) diferentes, correto?

Aí está o abacaxi em questão!

Principalmente quando levamos em consideração que Indecente da Netflix apenas aparenta querer defender e exaltar as mulheres que trabalham como sex workers, quando na realidade jogou contra todo o tempo por tratar o assunto de forma tão fingida e rasa, falhando miseravelmente na tentativa de esconder o que na realidade é: apenas um pretexto para um romance mequetrefe!

O longa-metragem dirigido por Monika Mitchell fala sobre a proeminente escritora de mistérios e especialista em crimes, Grace (Alyssa Milano), que corre de volta para a casa de sua família em Washington D.C., porque sua irmã Kathleen (Emilie Ullerup) está precisando de uma ajuda. Quando Grace descobre que ela foi assassinada e que também trabalhava como sex worker em um site adulto, logo ignora os avisos do investigador Ed (Sam Page) e se envolve no caso para tentar encontrar o assassino de sua irmã.

Ressuscitando Alyssa Milano

Recentemente a Netflix fez questão de “ressuscitar” dois astros que tiveram seu auge de sucesso durante a década de 1980, no caso, Brooke Shields e Cary Elwes, estrelas da protocolar comédia romântica natalina Um Castelo para o Natal.

Agora chegou a vez de Alyssa Milano, que já foi uma queridinha entre os garotos americanos também nos anos 1980, especialmente como uma das principais atrações da série de televisão Who’s the Boss? (1984 – 1992). Ela também fez parte do elenco da telenovela de grande sucesso Melrose, que ficou no ar entre 1992 – 1999.

Hoje, protagonista de Indecente, pouco depois de ter assoprado 49 velinhas no mês passado, testemunhamos uma atriz que mirava aproveitar uma chance para mostrar o seu lado como uma ativista política, quando voltou a ganhar mais reconhecimento por seu papel no movimento Me Too, iniciado em outubro de 2017.

Se alguém tiver a curiosidade de puxar o currículo de Alyssa Milano como uma figura pública ativista verão que ela já fez muita coisa (!) desde quando era só uma adolescente, como por exemplo, contatar um menino pré-adolescente que era fã dela, mas condenado ao ostracismo por ter AIDS; eles apareceram juntos em um programa de entrevistas americano, onde Milano beijou o garoto com a proposta de enfatizar que as pessoas não pegariam a doença por contato físico casual.

Percebe-se que ela sempre tentou e continua tentando fazer a coisa certa, porém, se enganou em acreditar que pela atual produção da Netflix estaria trilhando o mesmo caminho, uma vez que Indecente nada faz para reparar a imagem, sentimentos e vidas de tantas mulheres que ainda são maltratadas e assassinadas em uma sociedade estruturalmente machista.

Conclusão

Já sabemos que boas intenções não bastam nesse mundo.

É um começo, claro! Mas são necessárias ações, de preferência que funcionem, para que possamos construir um cenário de mudanças que beneficie aqueles que são marginalizados e sofrem por qualquer motivo.

Assim, devemos dizer que Indecente fez um golaço… só que contra!

Infelizmente a produção original Netflix tratou um assunto extremamente relevante de forma muito leviana, sem qualquer seriedade. Algo que deveria ser essencial na abordagem deste assunto!

Ao invés disso, resolveu inundar a narrativa com performances que não pareciam nem se importar com os cadáveres das mulheres, incluindo no meio da investigação (???) um romance bem morninho entre a protagonista e o detetive “responsável” pelo caso, papel do ator Sam Page.

Lembrando o argumento do personagem interpretado por Justin Timberlake na comédia romântica Amizade Colorida (2011), que criticava os filmes do mesmo gênero de qualidade questionável que tentavam induzir o espectador a acreditar que ele teve um bom entretenimento, simplesmente adicionando nos créditos finais algum tipo de canção pop bonitinha no fundo.

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