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Pela Europa

Crítica – O Festival do Amor

Novo Woody Allen repete algumas das melhores qualidades do diretor em um fluente exercício de metalinguagem

Publicado por Aléxis Perri

05/01/2022 07:20

Falar de Woody Allen atualmente não é mais a mesma coisa.

Lembrando que em dezembro de 2017, após o escândalo envolvendo o poderoso mandachuva Harvey Weinstein, Dylan Farrow escreveu um artigo no Los Angeles Times perguntando: “Por que a revolução #MeToo poupou Woody Allen?”

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Logo depois saíram outras reportagens explorando o suposto caso de abuso sexual entre o cineasta e sua filha Dylan Farrow, enquanto o movimento Time’s Up, grupo sem fins lucrativos que arrecada dinheiro para apoiar vítimas de assédio sexual, ganhava cada vez mais força em Hollywood.

Tudo isso acabou afetando o trabalho do renomado diretor, que viu muitos profissionais da atuação recusarem fazer parte de seus projetos futuros, assim como alguns outros que acabaram doando seus vencimentos para instituições ligadas à organização Time’s Up. Pela maioria hollywoodiana, Allen virou persona non grata.

Todavia, nem mesmo todo esse caos foi capaz de impedir que o cineasta americano de 86 anos de idade continuasse trabalhando. A única diferença é que ele teve que cruzar o Atlântico para prosseguir com sua carreira fílmica.

Agora, em pleno 2022, recebemos a obra de número #51 na longeva carreira do diretor baixinho de enormes óculos. O Festival do Amor nos apresenta Mort Rifkin (Wallace Shawn), um professor de cinema aposentado, acompanhando sua esposa publicitária Sue (Gina Gershon) no Festival de Cinema de San Sebastian, Espanha. Ele não faz questão de assistir os filmes da mostra, mas está preocupado que o fascínio de Sue por seu cliente, Philippe (Louis Garrel), um jovem cineasta, possa ser algo mais do que profissional. Além disso, Mort espera que a mudança de cenário proporcione um alívio em sua luta para escrever seu primeiro romance que corresponda a seus padrões impossivelmente exigentes. Com as opiniões implacavelmente desdenhosas de Mort sobre Philippe e o foco afiado de Sue em sua carreira, assim como no jovem sedutor diretor, vai testemunhando seu relacionamento já desgastado indo para o ralo. O humor de Mort melhora quando ele conhece Jo Rojas (Elena Anaya), uma médica cujo casamento com um tempestuoso pintor também está causando sua dor. Enquanto os gostos pessoais de Mort às vezes afastam as pessoas, a sensibilidade de Jo aproxima ambos. Enquanto Sue passa seus dias com Philippe, Mort fica na companhia de Jo no romântico cenário da região norte da Espanha.

Filmografia

Se um diretor de cinema tem mais de cinquenta (!) obras na carreira, isso naturalmente indica que seu currículo está repleto de acertos, como também de alguns projetos que não se encontram à altura do proclamado artista.

Lembrando sempre que a filmografia de Woody Allen é riquíssima, especialmente a partir de meados da década de 1970, quando lançou no intervalo de cinco anos: A Última Noite de Boris Grushenko (1975); Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977); Interiores (1978); Manhattan (1979); e Memórias (1980).

Mas, para manter esta análise mais atual, melhor focarmos no Allen do século XXI, que dispõe de material ‘pra mais de metro!’

Aproximadamente nos últimos vinte anos, vimos Woody Allen entregar obras memoráveis, outras apenas qualificadas, enquanto algumas que não conseguiram nem ‘passar de ano’.

No grupo especial das campeãs, temos Ponto Final – Match Point (2005), O Sonho de Cassandra (2007), Vicky Cristina Barcelona (2008), Meia-Noite em Paris (2011), Blue Jasmine (2013) e Café Society (2016).

Entre as competentes, encontramos O Escorpião de Jade (2001), Melinda e Melinda (2004) e Tudo Pode Dar Certo (2009); ao mesmo tempo, temos aquelas que se mostraram abaixo da média, como Igual a Tudo na Vida (2003), Scoop – O Grande Furo (2006), Você Vai Conhecer O Homem Dos Seus Sonhos (2010), Para Roma com Amor (2012) e Roda Gigante (2017).

O mais recente Woody Allen de O Festival do Amor está no segundo grupo: daquelas produções (um pouco) mais elogiáveis.

Allen/Storaro

Quando lançaram o ótimo Café Society pudemos testemunhar aquele que seria o primeiro trabalho da parceria entre Woody Allen e Vittorio Storaro, renomado diretor de fotografia italiano amplamente reconhecido como um dos melhores e mais influentes da história do cinema, trabalhando em vários filmes considerados clássicos, como por exemplo: O Conformista (1970), Apocalypse Now (1979) e O Último Imperador (1987).

Ele recebeu três Oscars de Melhor Fotografia na carreira, fazendo dele uma das três pessoas vivas a ganhar o prêmio três vezes, sendo que os outros dois são Robert Richardson e Emmanuel Lubezki.

Resumindo: uma lenda!

Consequentemente, observar a harmonização entre ambos na obra Café Society foi daquelas experiências cinematográficas irrepreensíveis. O artesão da câmera trouxe cores quentes que elevaram o texto e performances cirúrgicas do elenco comandado por Woody Allen.

Viriam mais dois trabalhos seguidos desta associação, Roda Gigante e Um Dia de Chuva em Nova York (2019), onde continuamos a notar um inspirado trabalho do italiano, que infelizmente não contou com a mesma inspiração de seu colega novaiorquino.

Nem Vittorio Storaro foi capaz de salvar estes dois últimos trabalhos com Woody Allen do marasmo. O ponto de desequilíbrio foi o roteiro escrito por Allen: um tanto opaco, além de pouco afiado nas argumentações.

Já em O Festival do Amor percebemos que Woody Allen apareceu para o serviço, novamente estabelecendo uma sinergia apresentável junto do diretor de fotografia.

Um grande exemplo da inspiração deles na atual produção pôde ser visto quando perto do final notamos nosso protagonista, interpretado por Wallace Shawn, retornando de um passeio adorável na companhia da médica Jo para o hotel onde ele e sua esposa estão hospedados. Ele sobe as escadas, enquanto um amigo desce, até a hora que ambos estacionam frente a frente. Nesse momento, notamos que ambos preencheram o quadro usando cores quentes e frias ao mesmo tempo. Mort que está vindo da rua todo contente apresenta tons amarelos (calor), porém, quando cruza a linha central do plano cinematográfico, passa para tons azulados (frio), representando seu casamento que vai mal das pernas.

Uma vida sem significado, mas…

Para aqueles que estão esperando alguma novidade (?) do cinema de Woody Allen, provavelmente, terão em O Festival do Amor mais um motivo de frustração.

Todavia, devemos exaltar que desta vez tivemos um texto que conseguiu captar a angústia de um homem no fim dos dias. Estático, olhando para trás e para frente, desamparado pelo meio do caminho.

Em Mort (alter ego) temos sua versão do tipo inquieta e questionadora, que valoriza tudo do passado e desdenha do presente atual. Um saudosista como o próprio, que usou de criatividade nesta obra, colocando em prática algumas metalinguagens prestando homenagens à grandes diretores da história do cinema, como Orson Welles, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Luis Buñuel, Federico Fellini e Ingmar Bergman (uma de suas maiores influências).

Engraçado que alguns dos melhores trabalhos mais recentes de Woody Allen acontecem quando o diretor se afasta da sua tão amada Nova York, como por exemplo: Ponto Final – Match Point (Londres), Vicky Cristina Barcelona e Meia-Noite em Paris.

Assim também como O Festival do Amor, que mostra um Allen fora da zona de conforto (San Sebastian), adulando tudo que lhe é tão familiar.

Essa perspectiva do cineasta como uma figura observadora dos opostos, geralmente contribui muito para que o material exceda alguns padrões já muito conhecidos de sua linguagem narrativa, que insiste em questionar qual é o real significado da vida.

Muito provavelmente, ele nunca terá tal resposta. Ainda bem, pois quanto mais dúvidas na cabeça de Allen, melhores ficam suas histórias.

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