Críticas

40ª Mostra de SP | Crítica: Elle

Há filmes que não se encaixam em nenhum tipo de padrão, seja ele temático, narrativo ou até mesmo moral. Elle, a sensação do festival de Cannes deste ano e que agora chega à 40ª Mostra de SP, é um desses exemplos, um filme totalmente fora da caixa.

Sempre polêmico, o diretor holandês Paul Verhoeven constrói sua trama em torno de uma mulher de meia idade, com certeza o personagem mais interessante do ano. O longa começa com essa mulher, Michele (Isabelle Huppert) sofrendo um abuso sexual em sua própria casa, a dura sequência começa apenas com os sons da violência e o filme se inicia com sua protagonista juntando os cacos.

Se esse simples gestos pode significar muita coisa, Verhoeven refuta a sua semântica mais básica. Elle não é um filme sobre recomposição, sobre lidar com estilhaços de um trauma, mas sim sobre uma mulher que apenas lida da maneira mais inesperada com aquilo. Como se aquela violência fosse apenas mais um desafio a ser superado. Não do ponto de vista psicológico, mas sim um ponto a ser resolvido em sua vida, como se fosse uma conta a pagar ou algo do gênero.

Essa é uma característica bastante interessante. Elle não tem um centro moral, as regras vistas naquele mundo cênico são ditadas exclusivamente por Michele. A visão de certo ou errado está longe da imposta pela sociedade e o filme consegue fazer com que o espectador enxergue por essa lógica totalmente relativizada.

É só assim que se consegue explicar os rumos que a trama toma. Visivelmente fruto de um realizador experiente, Elle tem suas surpresas não em pegadinhas narrativas, que com um plot twist tenta cooptar o espectador, mas sim por ser condizente o tempo todo com o perfil dessa personagem. É através dessa coerência narrativa e (a)moral que o filme surpreende, os conflitos do longa são solucionados pela maneira única de Michele, caminhos inimagináveis são seguidos tomando rotas que apenas aquela protagonista poderia optar.

A perversão e a crueldade impregnada no olhar daquela mulher faz com que todos girem a seu redor, por incrível que pareça, até o assediador participa dessa logica. E é assim que o filme chega a seu choque, não há artifícios mirabolantes ou algo do gênero, mas reações que demonstram uma voz completamente dissonante ao mundo fora da ficção.

Evidentemente que isso funciona, pois Elle é conduzido pela mão de mestre de um diretor pouco citado. É interessante como Verhoeven constrói um jogo calcado na tensão e no sarcasmo, o primeiro relacionado à potencialidade dramática dos atos vistos em cena, e o segundo através das reações inesperadas em relação ao que é visto.

Dessa forma, não há como encaixar Elle em algum gênero. Distante de ser um drama, algo que recorrentemente a figura de Huppert é associada; nem mesmo um suspense, mesmo que o diretor possua um domínio total do gênero, há nesse filme as cenas mais tensas do ano, em que o público é envolvido completamente por música, enquadramentos e montagem; e muito menos uma comédia. Ainda que haja uma ironia constante em Elle, essa vertente surge mais como uma forma de incômodo, do que um artifício cômico, sendo apenas mais um elemento provocativo.

Elle é justamente isso, um filme que provoca durante toda sua projeção. Há ali um constante exercício de relativização do olhar, seja cinematográfico ou social. Elle é um filme a parte do que surge atualmente, um filme que pensa totalmente fora da caixa, uma provocação constante.

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