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Viver Histórias

Crítica – A Lenda do Cavaleiro Verde

Fantasia medieval de David Lowery explora o universo das ilusões e sonhos para questionar nossa percepção do tempo e seus mistérios

Publicado por Aléxis Perri

24/01/2022 01:02

Faz pouco tempo fomos apresentados às obras Ataque dos Cães e A Filha Perdida, ambas dirigidas por cineastas mulheres, Jane Campion e Maggie Gyllenhaal, respectivamente. Pelos dois excepcionais longas-metragens, cada um a seu modo, notamos narrativas que trabalham pelo sugestivo, no caso, um subtexto que permite uma expansão de ideias e emoções que estipulam teorias sem aquele rigor típico de produções mais bem enquadradas nos moldes do cinema de gênero.

Só que aí encontramos uma outra proposta narrativa (ainda) mais desafiadora e até um tanto estranha!

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Imagina-se que logo após a cena final de A Lenda do Cavaleiro Verde, que já está disponível na plataforma Amazon Prime Video, teremos uma considerável porção dos assinantes coçando a cabeça tentando matutar o que diabos acabaram de assistir?!

Sim, o mais novo filme do diferentão diretor David Lowery faz justiça à filmografia do próprio, que atira para tudo o que é lado quando o assunto é cinema. Ele começou no drama romântico Amor Fora da Lei (2013); passando pela aventura da Disney Meu Amigo, o Dragão (2016); mergulhando fundo no sobrenatural em Sombras da Vida (2017); e finalmente chegando em um momento de glória pessoal, simplesmente por ter sido o último cineasta a dirigir a lenda do cinema Robert Redford antes da aposentadoria no competente e simpático Um Ladrão com Estilo (2018).

Agora, nos deparamos com seu projeto mais ambicioso em toda a carreira através da aventura épica de fantasia baseada na eterna lenda arturiana, que conta a história de Sir Gawain (Dev Patel), o sobrinho desregrado, mas obstinado do grande Rei Arthur (Sean Harris), que embarca em uma ousada busca para enfrentar o homônimo Cavaleiro Verde (Ralph Ineson), um gigantesco estranho amadeirado de pele cor de esmeralda que testa a coragem dos homens cavaleiros. Sir Gawain enfrenta fantasmas, gigantes, ladrões e conspiradores no que se torna uma jornada mais profunda para definir seu caráter e enfim provar seu valor aos olhos de sua família e reino, enfrentando o desafiante final que tanto atormenta seus dias.

Tempo e seus mistérios

É bom que se avise logo de cara para evitarmos algumas frustrações muito naturais que brotam na mente do espectador depois de assistirem algo similar à obra A Lenda do Cavaleiro Verde: este aqui não (!) é um filme nem de perguntas ou respostas fáceis; não (!) é algo claro e explícito como uma típica aventura medieval de um homem e sua espada; também não (!) é o tipo de material que explica o significado de alguns elementos lendários que aparecem pelo caminho do protagonista.

Então, o que podemos dizer do recente trabalho de David Lowery produzido pela Amazon Prime Video?

Dentre algumas noções que conseguimos pegar mais facilmente pela narrativa de A Lenda do Cavaleiro Verde, temos Lowery discutindo nossa percepção do tempo, principalmente durante uma fase de maior conhecimento e desenvolvimento em um mundo novo para alguém que nunca saiu da toca desde que nasceu. Isso ficou mais explícito pelas cenas iniciais quando o jovem inexperiente Gawain, interpretado com muita paixão por Dev Patel, confessa para seu tio, o Rei Arthur, que ele não tem nenhuma grande história para compartilhar entre os membros do reino.

Lembrando que o ócio representa uma grande parte dos dias do protagonista, conseguimos perceber o tempo passando rápido demais, como que pulando diretamente para aquele decisivo momento que poderá definir seus dias daqui para frente.

David Lowery nos oferece algumas oportunidades para que identifiquemos alguns “relógios” pela narrativa da fantasia medieval da Amazon Prime Video, assim como fez Joe Penna no comovente drama sci-fi Passageiro Acidental da Netflix. No entanto, caso não conseguirem identificar tais “relógios”, fiquem atentos aos movimentos de câmera executados por Lowery que fluem tanto no sentido horário, quanto anti-horário.

Sobre racionalização na linguagem cinematográfica

Certamente já escutaram alguém dizer para você “desligar” o cérebro, e simplesmente curtir determinado filme, não?!

Normalmente quando usam tal termo se referem à produções determinadas como “apenas” cinema de entretenimento (?), tipo longas-metragens pertencentes às franquias Transformers ou Velozes e Furiosos, só para citar alguns exemplos. Alguns acreditam que se você não procurar racionalizar tanto, provavelmente aproveitará mais algumas das coisas que podem ser encontradas no meio dessas histórias.

Não deixa de ser um pensamento bem justificado, porém, tal conceito não deve se limitar apenas à filmes hollywoodianos que tentam exprimir grandiosidade barulhenta, uma vez que cinema é imagem e som, portanto, não existem definições suficientes para que possamos enquadrá-los em certas categorias tão costumeiras a nós.

Aí entra a esperteza de David Lowery que fez de A Lenda do Cavaleiro Verde, um tipo de convite de participação ao assinante da Amazon Prime Video.

Resumindo: o diretor está convidando o público para que este busque imergir em tudo aquilo que vê com a intenção de simplesmente significar seu próprio proveito daquilo, mesmo que seja incompreensível até certo ponto.

Muitos atores afirmam ter a necessidade de fazer um laboratório mais extenso para que consigam encarnar melhor determinados personagens que irão interpretar. Naturalmente pensamos que quanto mais estudo e tempo se dedicam, mais profundo conhecerão tal personalidade e história de vida. Definitivamente um julgamento legítimo. Todavia, não explica que muito do trabalho do ator também é aprender a se desconectar de si mesmo enquanto mira compreender todo um novo modus operandi, ou seja, desracionalizar nossos mais regulares comportamentos para dar espaço à outras formas de agir, operar ou executar.

Esse é o maior desafio, não?! Tentar racionalizar menos por nossos próprios termos, evitar definições universais, além de fugir dos costumes padronizados.

O cineasta David Lowery nos entrega uma boa oportunidade de mergulharmos em imagens que podem ser ilusões, sonhos ou mesmo realidade, mas acima de tudo, representam muito bem o que nossa percepção faz pela expressão audiovisual: oferecem um valor singular, exclusivamente pelo fato de que cada um aplicou sua pessoalidade naquilo que outro pôs em prática.

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