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Crítica | O Homem Perfeito

Publicado por Caio Lopes

26/09/2018 00:01

Há uma safra recente de comédias nacionais que, para variar, contam com uma execução tecnicamente mais cuidadosa, bem fotografados e atuados mesmo que nem sempre com roteiros lá tão originais. São filmes como La Vingança, Divórcio e o recente Talvez uma História de Amor, que não fazem feio ao lado das comédias de estúdio que chegam do exterior. Com bons nomes em seu elenco e uma ideia promissora, mesmo que antiquada, O Homem Perfeito parecia destinado a se juntar a esse pequeno clube de boas comédias brasileiras dos anos 2010.

Na trama, Diana (Luana Piovani) é uma escritora de sucesso, porém não do jeito esperado. A protagonista trabalha como ghost writer, ou seja, escreve no lugar de outras pessoas menos aptas, neste caso celebridades que não parecem ter a mínima noção da realidade. Casada há anos com Rodrigo (Marco Luque), um quadrinista largado, ela vê sua vida virada do avesso quando o homem admite ter um caso com uma garota mais jovem e decide deixá-la para viver com a amante. Enquanto lida com seus sentimentos, Diana também encara o trabalho complicado de escrever a auto-biografia de Caique Costa (Sérgio Guizé), um roqueiro problemático e bastante machista.

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Ainda com saudades de Rodrigo, Diana elabora um plano inusitado para reconquistá-lo, um que parte de seu talento como ghost writer: criar uma conta virtual fake para Carlos, “o homem perfeito”, no intuito de seduzir a nova companheira do ex, Mel (Juliana Paiva), e vagar sua vida amorosa. Contudo, ela não achava que algumas trocas de mensagem seriam o bastante para capturar o interesse da moça, e logo precisará de alguém para posar como Carlos pelo telefone, para isso contando com a ajuda inesperada de Caique, que sabe fingir uma pinta de romântico.

Apesar de alguns toques problemáticos, essa premissa guardava algum potencial para situações divertidas. Além de encaixar o lado profissional de Diana naturalmente na trama, havia a possibilidade de brincar com a linguagem das redes sociais com bastante criatividade, prometendo uma versão moderna de comédias de disfarce como Tootsie e Uma Babá Quase Perfeita. Porém, logo nas primeiras trocas de mensagem entre Carlos e Mel, vemos que não é o caso. O texto de Tati Bernardi e Patricia Corso, com colaboração de Pedro Coutinho, é duro e nada descontraído, e soaria falso sem a boa entrega do elenco.

Também é necessária uma boa suspensão de descrença para comprar a ingenuidade de Mel, uma jovem conectada mas que aparentemente nunca ouviu falar de contas fake na vida. Mesmo ignorando isso e aceitando o enredo pelo que ele é, O Homem Perfeito perde o ponto de outras comédias de disfarce: não há desafios criativos no caminho da farsa sustentada pela protagonista. Tudo é muito fácil: Mel cai de amores doa noite pro dia; Diana inventa desculpas e Mel sempre acredita; nem as fotos claramente photoshopadas de Carlos levantam alguma suspeita na jovem. Consequentemente, a comédia acaba atenuada pela falta de risco.

Ao menos, se falta graça, O Homem Perfeito evita uma série de noções antiquadas. A velha história da mulher que corre atrás do homem de sua vida continua datada, mas aqui as personagens também tem outros objetivos. Diana tem seu comprometimento com o trabalho e quer ser diretamente reconhecida por ele, desejo que no final é recompensado de maneiras interessantes. Mel, por sua vez, é uma dançarina aspirante mas muito decidida – quando Rodrigo diz à jovem que “acha uma graça” seu desejo de se tornar bailarina, ela questiona seu tom paternalista com prontidão.

Porém tudo isso nos leva a um elemento contraditório do enredo: porque duas mulheres tão capazes correriam atrás de um homem como Rodrigo? É dito por Diana que o sujeito consegue ser muito bom para ela, mas não há nada que convença o público de seus atrativos. Isso atrapalha O Homem Perfeito na construção de sua mensagem empoderadora, diluída também pelo forçado arco de redenção de Caique, machista irremediável que é transformado em um homem perfeito por Diana como num passe de mágica. Não relacionado, o curtíssimo tempo em tela da veterana Magali Biff (Pela Janela) também agrega a esse sentimento de potencial desperdiçado.

Mesmo que a direção de Marcus Baldini tenha certa elegância e crie algumas gags visuais boas, O Homem Perfeito depende quase que inteiramente do carisma de Luana Piovani para se manter de pé. A atriz continua a mostrar que tem grande talento para comédias, consolidando-se como uma das intérpretes mais articuladas do cinema comercial brasileiro. Ainda assim, é difícil sustentar um fraco roteiro de comédia, independente do talento de atuação envolvido. Se não salva o material, o esforço de Piovani, assim como a negação de alguns arquétipos femininos de comédias românticas, ao menos garantem que nem todo tempo foi perdido.

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