Crítica | Coração de Cowboy

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Para alguém que não possui afinidade alguma com a música sertaneja, de raiz ou universitária, o novo filme Coração de Cowboy não deveria funcionar. Com ene clichês em sua trama, estilo afetado até o talo e um jeito mela-cueca que desafia limites, a estreia do diretor Gui Pereira nos cinemas é feita por encomenda para os amantes de sertanejo, no entanto representaria uma morte horrível para os menos afeitos ao estilo musical. Como alguém que se encaixa na última categoria, foi surpreendente constatar que, apesar de todos esses contrapontos, fui conquistado por sua sinceridade.

Sutileza não é bem o forte de Coração de Cowboy. Os dramáticos minutos iniciais estabelecem uma tragédia na vida de Lucca (Gabriel Sater), que se distancia de seu passado no interior assim como do sertanejo de raiz, tornando-se um artista de sucesso no ramo das músicas chiclete. Seu mais novo hit, Curtição no Guarujá, é tudo que as fãs querem escutar, e Lucca logo começa a sentir um grande vazio em sua vida. Em busca de um som mais tradicional e sincero, o cantor dá no pé e volta à sua cidade natal, onde tenta remediar também uma relação mal resolvida com o pai (Jackson Antunes).

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Trata-se de uma tradicional história de volta às raízes, passando por diversos pontos já esperados em um filme do tipo: o protagonista desiludido foge da cidade ao campo para encarar seu passado, tratando de velhas relações enquanto cria outras novas. Apesar de muito comum, o molde é empregado para simbolizar o distanciamento do sertanejo chiclete, dependente de fórmulas para gerar rios de dinheiro, e uma reaproximação das tradições. Novamente, não é a coisa mais sutil, porém garante à história uma mensagem clara e objetiva. Mesmo que retrate os produtores e agentes de forma caricata, Pereira é sincero na forma que fala sobre a indústria da qual faz parte.

Parte dessa sinceridade vem também da relação entre pai e filho que ocupa o centro da narrativa. Em seu primeiro papel nos cinemas, Gabriel Sater não impressiona, mas também não chega a passar vergonha diante do ótimo Jackson Antunes. Inclusive, em uma de suas conversas, surge uma referência curiosa ao pai de Gabriel fora das telas, o famoso Almir Sater. No entanto, como pai ficcional, Antunes não poderia ser mais verdadeiro, protagonizando momentos de dar nó na garganta. Há uma consistência em sua interpretação que o roteiro de Pereira, Lara Horton e Jonathan London não apresenta, com personagens que mudam de comportamento bruscamente entre uma cena e outra.

Isso pode ser observado no romance que se desenrola entre Lucca e Paula (Thaila Ayala), dona de um country bar – um “bar de fim de mundo” que, por algum motivo misterioso, tem acesso a uma lineup dos artistas sertanejos mais prestigiados do país. Sater e Ayala, que não convence em seu sotaque caipira, até tem vislumbres de uma boa química. Contudo, a relação dos dois avança rápido demais, e nem mesmo um uso precoce de Evidências é capaz de fazer crer no amor que floresce entre os dois. No fim de tudo, acaba não fazendo muita diferença para a mensagem geral do longa, cujo foco é a música.

Porém mencionei algo acima que com certeza trará muitos espectadores às salas de cinema: as participações musicais, que incluem Rio Negro e Solimões, Marcos e Belutti e, é claro, Chitãozinho e Xororó. Suas apresentações não são muito mais que acústicos incorporados a cenas do filme, mas refletem bem o estilo tradicional pelo qual Lucca almeja em suas novas músicas. Além disso, a trilha sonora original foi composta por Lucas Lima, da Família Lima, e serve bem à proposta sentimentalista do diretor Pereira, que sabe fazer um bom arroz com feijão – às vezes isso é mais do que suficiente.

Em certa cena de Coração de Cowboy, Lucca faz uma ligeira referência ao sucesso da Sessão da Tarde Falcão: O Campeão dos Campeões, “filme em que o Stallone dirigia um caminhão”. Não sei se é proposital, mas tanto esse quanto Cowboy partilham do mesmo espírito. Sem medo das cafonices e com orgulho de sua mensagem sentimental, são obras que desarmam alguns espectadores “fora do eixo” pela pura paixão com que foram realizadas. Talvez, em um futuro próximo, o filme de Gui Pereira ocupe esse mesmo espaço no coração de fãs do sertanejo de raiz.

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