Crítica | Noite de Lobos

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Existe uma discussão que indaga saber se o medo é algo cultural, assim, pode ser adquirido com a progressividade do tempo pelas experiências pessoais relacionadas ao tipo de entorno, além das relações com as pessoas deste ambiente, ou se o medo é algo biológico, instalado em nosso organismo desde a gênese humana e capaz de ativar nossos instintos de animalidade e sobrevivência. Seja qual for a teoria que prefira, é certo que Noite de Lobos, nova produção original da Netflix engloba ambas sob o mesmo gélido e nublado céu no niilista filme do cineasta Jeremy Saulnier.

Baseado no livro Hold the Dark de William Giraldi, a adaptação cinematográfica conta a história do naturalista especialista no estudo de lobos, mas agora aposentado e escritor Russell Core que recebe uma carta de ajuda escrita por Medora Sloane, mãe que teve seu filho possivelmente morto por lobos, assim como outras três crianças da região. Agora, Russell Core terá que rastrear os animais nas montanhas do Alaska, e vingar em nome da mãe do garoto.

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Curiosa é a semelhança entre Noite de Lobos e o ótimo Terra Selvagem, faroeste metade contemporâneo, metade revisionista do diretor Taylor Sheridan. Em ambos, temos protagonistas rastreando tipos de predadores, no caso do filme de Sheridan tratam-se de predadores sexuais, e no filme original Netflix são do tipo natural de espécie.

O excepcional trabalho de Jeremy Saulnier pode ser visto e sentido em cada um dos aspectos técnicos do filme. Saindo do suspense básico e desaguando no terror, assim como seu filme anterior Green Room. Tais predicados já dão as caras no roteiro, que vagueia pelo especulativo e incerto, e se afasta das exposições comuns e falas explicativas. O roteirista e ator Macon Blair compreendeu um dos princípios essenciais, seja para texto ou áudio visual, que é saber que personagem é ação, e vice-versa. A manutenção de certos pontos expositivos abre o leque de opções para o diretor trabalhar diferentes caminhos narrativos, e ajuda especialmente na parte de construção das personagens entre cineasta e atores, em resumo, as vezes menos é mais.

Tendo em vista que Jeremy Saulnier têm em mãos um texto dotado de virtudes, foi prático para ele transitar entre os gêneros, ir do drama para o suspense, do suspense para a ação, e assim até o terror. Surpreendentemente hipnotizante a ideia de se fazer suspense sabendo quem é o assassino logo após trinta minutos do longa, tirando o foco do mistério, e redirecionando para a ação e tratamento das personagens. Falando em ação, das mais vigorosas e eletrizantes, a cena onde Cheeon, interpretado por Julian Black Antelope, tentando ganhar tempo para seu amigo Vernon Sloane, interpretado pelo galã Alexander Skarsgard, entra numa troca de tiros com praticamente toda a força policial local, metralhando viaturas e dezenas de oficiais. Por final, flerta suavemente com a atmosfera de filmes de horror, mesmo que em termos clássicos, como o uso de máscaras inexpressivas na hora da sanguinolência, que escondem marcas de um passado traumático.

Todo este arsenal à disposição do elenco se traduz em superlativas performances. Do herói de Jeffrey Wright, que atua como a ligação empática entre filme e espectador, tentando sobreviver a este mundo sem clarezas à Cheeon, um angustiado pai que perdeu a filha. Mesmo sentimento que assola Medora, interpretada pela atriz Riley Keough, neta do rei do rock, Elvis Presley. A atuação da jovem é certamente a mais enigmática em Noite de Lobos, pois ao mesmo que é perceptível a agonia e luto de uma mãe sem sua criança, fria e irracionalizada são algumas de suas ações. Mas o destaque derradeiro vai para o ator sueco Alexander Skarsgard, em escalada progressão nos fatores técnicos, como a cena do lado de fora do necrotério.

Noite de Lobos da Netflix, não é um filme para as pessoas que possuem uma ideologia de vida mais solar. Não, pois aqui reina a dureza da condição humana, afetada pelo isolamento e perspectiva sensorial do nada a sua volta, e amaldiçoada pelo animalesco em seus atos e pensamentos. Inaceitável mas incompreensível.

Neste vale-tudo que encharca a neve em vermelho, e só faz brotar ressentimento, sobreviver para contar a história é muita coisa, assim como tentar entender o mundo já pode ser considerada das tarefas mais árduas e dignas que há. Pois, se considerarmos a frase de Ivan Karamazov em Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski que diz – ‘Se Deus não existe, então tudo é permitido’ – , então o ato de viver mais um dia mesmo que na sombra, nos afasta das atrocidades vistas à luz.

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