O tema da justiça / vingança com as próprias mãos é praticamente um dos grandes fetiches do cinema de ação, e todo ano vemos exemplares do tipo chegando às telonas. Em 2018, já tivemos um remake para Desejo de Matar, a sequência O Protetor 2 e o cultuado Vingança, para nomear alguns. A mais recente adição a esse catálogo é A Justiceira, que marca o retorno da atriz Jennifer Garner à pancadaria mais de uma década após término de Alias. Infelizmente, apesar dos esforços da atriz e do diretor Pierre Morel, o novo longa estrelado por Garner acrescenta praticamente nada a seu subgênero.

Pra começar, a trama já é mais que manjada. Riley North (Garner) tem uma família feliz, até que um dia seu marido e sua filha são assassinados em sua frente por membros de um cartel. Quando é trapaceada pelo sistema e vê os criminosos saírem ilesos, resta a ela buscar justiça por conta própria. Para isso, North dá um sumiço e, cinco anos depois, ressurge em solo americano como uma justiceira armada até os dentes, determinada a derrubar todos que a injustiçaram no passado. Basicamente, é uma mera requentada da mesma trama de vingança vista em tantos outros filmes, com poucas variações.

A repetição da fórmula em si não é necessariamente um problema tão grande, porém o enredo de A Justiceira não só tenta repetir essa cartilha passo a passo como a repete mal. Desde os minutos iniciais, sente-se que o roteiro de Chad St. John sofre com problemas em sua estrutura. Por exemplo, se o longa tem seu pontapé com Riley já justiceira e logo depois faz uma exposição objetiva de sua tragédia pessoal via diálogo, o que é mais do que suficiente para esclarecer suas motivações, somos obrigados a assistir a um longo flashback que chove no molhado e não se faz valer nem pela boa entrega dramática da atriz.


No entanto, quando voltamos ao presente, vemos também que estamos avançados demais na história, revelando que Riley já despachou metade dos criminosos aos quais jurou vingança – boa parte dessas mortes são apenas mencionadas em diálogos expositivos, entregues pelos personagens do fraco núcleo policial da trama. Nessa confusão estrutural, sente-se que diversos eventos e cenas importantes ficaram de fora, talvez cortados na sala de edição. Isso, por sua vez, deixa a impressão de se estar assistindo a um produto incompleto, que não consegue executar adequadamente sua premissa simples em pouco mais de 90 minutos.

Essa lacuna entre passado e presente de A Justiceira também torna implausível a transformação de sua personagem em vigilante. O salto é difícil de crer, primeiramente, pela facilidade com que burlou o sistema e se tornou irrastreável durante cinco anos. A perícia que apresenta com armamentos de nível militar, como metralhadoras e explosivos, também soa exagerada, assim como suas capacidades investigativas – para ser justo, vemos homens comuns virarem máquinas de matar a todo momento no cinema de ação. O que espanta, no entanto, é a normalidade com que o roteiro vê algumas atitudes desmedidas que a personagem passa a ter, como quando agride e ameaça uma dona de casa apenas por achá-la arrogante.

Os únicos capazes de conferir alguma credibilidade ao projeto são Jennifer Garner e o diretor Morel. A atriz, que ainda é bastante subestimada, se sai bem tanto nas cenas de ação quanto no drama, dando um pouco de estofo a uma personagem inegavelmente rasa. O diretor, por sua vez, pode não impactar nos tiroteios e lutas como nos anteriores 13º Distrito ou Busca Implacável, mas ao menos faz um trabalho melhor do que colegas como Olivier Megaton, que retalha a ação para esconder suas limitações – vide Busca Implacável 2 e 3. Morel, que já operou câmera para Luc Besson e Louis Leterrier, é dono de um estilo visual mais maduro.

Pena que aqui Morel não crie nada muito memorável, talvez com exceção da boa cena de abertura, que conta com uma boa gag visual. No fim das contas, caso aprofundasse a personagem e investisse mais numa pancadaria inspirada, A Justiceira seria só um produto genérico, mais acomodado do que propriamente ruim. Contudo, na sua falta de cenas de ação realmente impactantes e com problemas visíveis na estrutura de seu roteiro, o longa acaba ficando como cópia malfeita de outros muito melhores, algo que só é reforçado por seu título nacional. Desse jeito, deve escapar da memória mais facilmente do que sua protagonista some do mapa.