Crítica | Juliet, Nua e Crua

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Baseado em um livro de Nick Hornby, Juliet, Nua e Crua engana expectativas desde seu duvidoso título. A comédia romântica dirigida por Jesse Peretz tem um quê de Alta Fidelidade, prometendo mais uma história de amor pela música, mas logo faz uma série de desvios inesperados. Pode-se dizer que a vida é assim mesmo, cheia de surpresas e interrupções, e que o filme captura essa essência imprevisível. Por outro lado, a falta de estrutura faz com que aparente um tanto quanto perdido.

Duncan (Chris O’Dowd) é fã do roqueiro Tucker Crowe (Ethan Hawke), desaparecido desde meados dos anos 90. Certo dia, recebe uma demo rara de Crowe pelo correio, intitulada Juliet, Naked – daí o título -, e sua obsessão pelo sujeito apenas cresce. Isso desagrada sua esposa, Annie (Rose Byrne), que passou os últimos 15 anos de sua vida frustrada ao lado do marido. Quando Duncan publica uma resenha positiva de Juliet, Naked em seu fan site, Annie decide provocá-lo e cria um perfil secreto para contradizer sua opinião sobre a faixa, o que chama a atenção de outros usuários.

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Um desses usuários é o próprio Tucker Crowe. O roqueiro, que também não entende o status divino que Duncan lhe atribui, concorda com o comentário de Annie e os dois então começam a se corresponder via email, criando um vínculo ao longo do tempo. O marido, enquanto isso, começa um caso com uma colega de trabalho que possui mais afinidade com seus gostos musicais. Assim que Annie descobre o adultério, ela decide tomar uma atitude com Tucker, que por acaso está de viagem na Inglaterra.

Portanto, Juliet, Nua e Crua são, na verdade, três histórias: a história do fã obcecado, a história da esposa frustrada e a história do roqueiro. A primeira é praticamente abandonada assim que o adultério é descoberto, enquanto as duas últimas se entrecruzam e formam uma só linha narrativa, unidas por um tema em comum: filhos. Enquanto Annie sempre desejou ser mãe, Tucker é motivo de diversas gravidezes indesejadas em dois continentes. No entanto, são temas que acabam subdesenvolvidos no roteiro adaptado por Evgenia Peretz, Jim Taylor e Tamara Jenkins.

Também carecendo de desenvolvimento são as personalidades de Duncan e Annie, em especial o primeiro. Sua obsessão musical raramente passa de um detalhe cômico da história, e só promete ser algo a mais quando ele e Tucker finalmente conversam cara a cara. A cena, no caso, esboça um debate promissor: será que a admiração de Duncan é exagerada, ou Tucker é modesto demais para reconhecer seu talento nato? Isso, infelizmente, fica por aí mesmo. Já o desejo de Annie de ser mãe é estabelecido sem profundidade, e por isso não gera muita reflexão.

De longe, a história mais cativante é a de Tucker Crowe. Como tantos figurões reconhecendo erros e atitudes tóxicas passadas, Tucker ainda oscila entre a cretinice e a boa vontade. Ainda assim, é atormentado por um abandono que cometeu no passado, que é melhor detalhado posteriormente. Esta subtrama resulta no que é uma das melhores e mais comoventes cenas do filme, uma conversa desconfortável ao telefone. O balanço proporcionado por Tucker entre comédia e drama sombrio traz ao longa alguns vestígios de uma complexidade emocional não encontrada no resto dos personagens.

Dito isso, as interpretações são consistentes entre si. A australiana Rose Byrne tem uma boa entrega, equilibrando seu já conhecido talento cômico com a emotividade exigida pelo material. O sempre charmoso Ethan Hawke, por sua vez, cai como uma luva no papel de Tucker, inclusive cantando bem – sua interpretação de Waterloo Sunset, faixa dos The Kinks, é de aquecer o coração. Por fim, como Duncan, Chris O’Dowd é Chris O’Dowd, mas nunca há muito o que reclamar do sujeito, que despontou na sitcom britânica The IT Crowd.

Mesmo que emule parte do estilo de Stephen Frears em sua adaptação de Alta Fidelidade, o diretor Jesse Peretz prefere se guiar pelo trabalho dos atores, o que acaba sendo uma decisão acertada. No entanto, ainda merece algum mérito pela construção sutil de alguns momentos – como a revelação de uma gravidez no primeiro ato -, assim como a fluidez agradável que mantém de cena para cena. Vale dizer também que a cidade litorânea na qual o filme se ambienta é uma graça, tornando a experiência mais afável.

No fim, Juliet, Nua e Crua é um bom filme mais pelo sentimento reconfortante que proporciona do que por méritos narrativos, garantindo-se como experiência despretensiosa. Mesmo que um pouco perdido, é um bom pedido para se ver nas cobertas ao lado do(a) companheiro(a) – divertido, desde que este também não seja perdidamente apaixonado por seu ídolo musical.

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